"A primeira baixa de uma guerra é a verdade", diz Marcelo Ninio, correspondente da Folha
O correspondente da Folha de S.Paulo no Oriente Médio, Marcelo Ninio, participou, nesta quarta-feira (24), de uma teleconferência com estudantes e profissionais de jornalismo sobre as revoluções árabes na parte do mundo que vem ocupando diariamente as manchetes dos jornais.
Ninio iniciou sua carreira como repórter do jornal O Globo , no Rio de Janeiro, e, aos 25 anos, ingressou às coberturas internacional. Trabalhou como correspondente especial em Genebra, realizando matérias na sede da ONU, na Europa, e sobre eventos diplomáticos. Desde 2005 é correspondente da Folha de S.Paulo para o Oriente Médio e o Norte da África, fixando base em Jerusalém, Israel.
Cobertura na Líbia
Como parte da primeira leva de jornalistas a cruzar a fronteira para a Líbia, Marcelo Ninio, junto com o fotógrafo Joel Silva, acompanhou o início do levante popular no país, que apenas recentemente parece encaminhar-se para um desfecho, com a iminente queda do ditador Muamar Kadafi. O repórter contou sobre o período em que fez a cobertura in loco - ele, por três semanas, e Joel Silva, por duas
A primeira grande dificuldade foi a obtenção de visto para entrar no país, que segundo ele foi "dificílima". A equipe da Folha , conta Ninio, conseguiu um fixer - acompanhante local que trabalha como intérprete e, na realidade, "faz-tudo", para auxiliar os profissionais de imprensa - que, por sorte, havia integrado as tropas especiais de Kadafi. O que a princípio poderia ser um revés acabou por ser uma grande sorte, pois o fixer tinha autoridade e informação para lidar com os locais, o que terminou por livrá-los da prisão, quando atravessavam a fronteira sem visto.
Os telefones via satélite eram a única forma de transmitir o material apurado ao longo do dia para a redação. Logo que chegaram à Líbia, o regime de Kadafi já havia cortado todas as conexões com a internet, a fim de conter as manifestações pela web, marca característica dos movimentos da "Primavera Árabe". Logo, os rebeldes acharam formas de driblar a censura imposta à rede e conseguiram sinais de internet, dos quais os jornalistas internacionais se aproveitavam para conectar-se com o mundo; porém, a forma mais confiável ainda eram os telefones via satélite.
"A rotina", diz Ninio, "era desgastante e tensa". Além das dificuldades para estabelecer comunicação com as redações, o repórter comenta que, nestas situações, o acesso é limitado para tudo, inclusive caixas eletrônicos. Depois de algum tempo que os conflitos se estenderam, os preços inflacionaram e ficou cada vez mais oneroso manter equipes de correspondência no local. Um motorista para acompanhá-los, que a princípio custava US$ 50 por dia, passou a custar US$ 300. "De vez em quando a missão acaba quando o orçamento acaba", conta, explicando que nestes casos todo o dinheiro da operação é levado em espécie.
No caso da Folha , o "fim" veio com um alerta de um funcionário do hotel em que estavam hospedados em Benghazi, pólo inicial dos movimentos, e que ordenou que todos os jornalistas se retirassem, pois tropas leais a Kadafi estavam a caminho. Neste momento, Ninio avaliou que seria melhor cruzar a fronteira de volta para o Egito, para reavaliar a situação. De fato, as tropas vieram a Benghazi logo em seguida.
Sobre segurança, o correspondente diz que não costumava usar coletes à prova de balas. "É pesado e limita o movimento". Para o repórter, "o instrumento de segurança do jornalista é a informação", cabendo a ele se informar e saber a logística dos acontecimentos, para saber até que ponto se deve chegar.
Primavera árabe
Com experiência no Oriente Médio antes das revoluções, Ninio conta a forma "surpreendente" como tudo começou, no final do ano passado. "Começou com um tapa", referindo-se ao caso do comerciante na Tunísia, que, sentindo-se injustiçado com uma abordagem policial violenta, ateou fogo ao próprio corpo, tornando-se um símbolo da insurgência no país e o estopim para a "Revolução de Jasmim". "Este [acontecimento] Inspirou outros movimentos e alastrou-se pelo Oriente Médio".
Ele esteve presente na Praça Tahrir, no Egito, quando a população reuniu-se para pedir a queda do ditador Hosni Mubarak, que veio a acontecer em 11 de fevereiro deste ano. "Depois do primeiro momento de violência, os protestos tornaram-se totalmente pacíficos. A Praça Tahrir foi tomada, naquele momento que ninguém explica como aconteceu, em que o medo foi vencido", conta, como testemunha ocular do evento histórico.
Além do Egito, há também movimentos ainda não concluídos na Síria, Iêmen, Jordânia; porém, cada um por motivos diferentes dos que acontecem na Líbia ou Egito. "É uma coisa emocionante, apesar de ninguém saber ao certo o que vai acontecer a partir da agora".
Imprensa
Um dos fatores mais intrigantes da "Primavera Árabe" foi a organização maciça dos movimentos pelas mídias sociais, inclusive em países que sofriam forte censura à internet. Os jornalistas, muitas vezes isolados de qualquer conexão, ficam expostos a informações que nem sempre são confiáveis ou facilmente verificáveis. Para Ninio, este é sempre um risco que se corre. "Dizem que a primeira baixa de uma guerra é a verdade". Nesta situação, o jornalista diz que também ocorre uma "guerra de informações", em que o repórter nem sempre consegue a informação mais confiável.
Entretanto, ele ressalta a importância que as mídias tiveram durante as revoluções, tanto a tradicional como as sociais, ao quebrar a hegemonia da comunicação estatal destes países. "A importância de uma imagem, foto ou notícia de um civil sendo morto causa mudanças políticas", conclui.
Cátedra de Jornalismo Otávio Frias
A teleconferência com o correspondente para o Oriente Médio da Folha inaugurou o ciclo de palestras do segundo semestre e é a quarta a ser realizada no ano. A Cátedra de jornalismo Otávio Frias está prestes a completar uma década, em 2012, e é realizada pela UniFiam-Faam, em parceria com a Folha de S.Paulo .
Segundo a professora e coordenadora do curso de jornalismo, Márcia Furtado Avanza, o ciclo é uma forma de "fortalecer a formação do aluno e trazer a experiência para o ambiente acadêmico", além de ser um projeto de extensão da universidade. "Tentamos trazer temas que se aproximam com a realidade. Por exemplo, no período das eleições tentamos trazer o editor de política para falar".
Fábio Chiossi, editor-assistente de treinamento da Folha, que também atuou como mediador da conversa entre o correspondente e a platéia, está envolvido com a organização do evento há dois anos, e explica que os parceiros sempre dialogam e fazem sugestões de palestrantes sobre os temas atuais.
* Com supervisão de Gustavo Ferrari
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