A pizza é da mídia

A pizza é da mídia

Atualizado em 10/08/2009 às 10:08, por Igor Ribeiro.

Alguma coisa estranha me tomou quando li a respeito do arquivamento das denúncias e representações contra José Sarney. Não foi a espécie de mal-estar que já calejou os estômagos brasileiros para a digestão de pizzas borrachudas. Tem um pouco a ver com isso, mas essa sensação atingiu outro órgão, pegou mais no coração. Era um sentimento diretamente conectado ao motivo defendido para o arquivamento das sete acusações: o fato de partirem, na sua totalidade, de material reunido pela imprensa. Ao ouvir isso me deu um aperto abaixo do esterno.

A justificativa suscita uma série de questões ético-retóricas, que pouco ou nada ouvi dos colegas. Primeiro: se isso tem origem no STF, como alegou Paulo Duque, então há um equívoco recôndito de jurisprudência e interpretação que segue despercebido há muito tempo - denúncias sobre quebra de decoro são arquivadas do mesmo modo muito antes de Renan Calheiros passar por constrangimento parecido em 2007. Ninguém coloca na parede esse subterfúgio enviesado, espécie de coringa horizontalmente acessível, um eufemismo prostibular que só reaparece em momentos convenientes como este, no formato de vassoura.

Segundo: dizer que matérias de jornais não bastam como provas é desqualificar, por tabela, o trabalho de dezenas de profissionais judiciários que aplicam seu tempo em investigações, campanas, grampos, buscas e apreensões que revelam, entre outras coisas, diálogos ingênuos e cristalinos entre neta, avô e diretor. A imprensa brasileira, apesar dos males que ainda sustenta, guarda um contingente de excelência que ainda - ufa! -trabalha com fatos, não os cria. A mídia não fabricou aquelas fitas, ressalte-se.

Terceiro e mais angustiante é a nova amostra de descrédito no labor jornalístico - indício esse também pouco ou nada questionado. O arquivamento é uma espécie de reedição do "me-lixando-pra-opinião-pública" do deputado Sérgio Moraes. Colocou a mídia ao nível de uma piscina vazia, de uma carroceria abandonada, de algo inútil e imprestável que só serve ao debate de uma parcela ínfima da sociedade que, em tese, não tem o poder (nem o direito, parece) de incomodar o Congresso. Os autores das representações foram zombados pelo suplente Duque, que indiretamente classificou as manchetes dos jornais e o trabalho do judiciário como uma manifestação inconsequente, como coisa de moleque.

O que mais me transtorna, no entanto, é quase nenhuma empresa jornalística - que tanto investe na formação e no trabalho de seus repórteres - responder enfaticamente. Em vez disso, as variações do "eu te disse" se amontoam no noticiário e em espaços opinativos. Afinal o arquivamento era esperado. Intimamente tenho a impressão de que a imprensa faz seu papel de repórter e cartomante. Enquanto repórter, cumpre-o bem: ajuda nas investigações, faz da sua a voz de autoridades - de situação e oposição −, publica documentos, debate o problema e repercute junto à população. Enquanto cartomante trabalha a instituição jornalística, que cumpre o papel de forma ainda mais convincente. Pois além de antever que tudo vai terminar num lastimável engavetamento, preconiza isso como se dependesse dessa realização.

No fim das contas, seria melhor que a mídia, ao baixar a cabeça ao rés do chão, largasse da carreira de futuróloga e vestisse, logo, o avental de pizzaiola. Seria um a menos a enganar a população.