A morte é o mote

A morte é o mote

Atualizado em 16/03/2011 às 19:03, por Karina Padial/redação revista IMPRENSA.



Quem pensa que coletar e publicar nomes de recém-falecidos é tarefa banal engana-se. Pelo menos, não para Estevão Bertoni, obituarista da Folha de S.Paulo . Certa vez, ficou intrigado com um morto em especial, com nome incomum, e acreditou que por trás pudesse se revelar uma boa história. Encontrou o contato da família e ligou para a casa do suposto falecido. "A filha dele me disse que ele estava do lado dela naquele momento, vivinho da silva, com 80 e poucos anos. Fiquei assustado na hora.
Aí descobri que a família tinha tradição de repetir o nome", conta Bertoni. O repórter então ligou para outros parentes e descobriu um primo, esse sim, morto há pouco. "Eram seis ou sete com o mesmo nome. Até faziam um encontro anual, ou algo do tipo, com os homônimos."
A seção "Mortos", da Folha , é uma das poucas na imprensa brasileira a encarar o obituário como uma reportagem de fato. A resposta automática do e-mail destinado ao recebimento de informações sobre falecimentos já avisa: "Esclarecemos que os perfis obituários são fruto de trabalho de reportagem da Folha de S.Paulo ". Bertoni confirma: "A maioria dos obituários ou reproduz notas divulgadas pela família ou faz algo burocrático: 'Morreu ontem, aos 80 anos, Fulano de Tal'. A coluna da Folha é uma reportagem. Tenho que apurar, checar informações".
Os textos diários também estão presentes em O Globo , no qual não existe um repórter fixo para a seção, e no Zero Hora , cujo responsável pela coluna é o repórter Leandro Rodrigues. Nesses dois jornais, no entanto, os obituários seguem um padrão mais convencional, com informações básicas sobre o dia da morte, a causa, onde o falecido trabalhava, nomes de descendentes e esposa - se os tinha -, o que também não exclui apuração.
O Estado de S. Paulo segue o formato mais tradicional dos veículos brasileiros, publicando uma lista com notas de falecimentos. Mas a coluna tem um diferencial, além de ser patrocinada por uma funerária de luxo. O responsável, Antonio Carvalho Mendes, o "Toninho Boa Morte", tem 75 anos e ocupa o cargo há 48 - calcula-se que ele já tenha registrado mais de 300 mil necrológios. Ao ser procurado para essa matéria, porém, a reportagem descobriu que Mendes está hospitalizado. Segundo fonte do jornal, seu estado é grave e ele não aparece na redação há cerca de três meses. Em uma matéria publicada pela Veja São Paulo , em 2006, ele respondeu que não deixaria seu epitáfio pronto. "Não vou ler mesmo", justificou.
Matinas Suzuki, organizador de "O Livro das vidas", que reúne textos publicados na seção de obituário do New York Times, foi responsável pela criação da seção "Minuto de Silêncio", na Rede Bom Dia. "Ela chegou a ter momentos memoráveis, especialmente na edição de Jundiaí", comenta, sobre a coluna que, embora ainda exista, não é publicada com a mesma frequência.
Para as seções, a participação do leitor é fundamental. "Também tem um caráter de serviço. Ou seja, qualquer pessoa pode mandar sua sugestão, com algumas linhas sobre o morto", esclarece Rodrigues, do ZH. Bertoni afirma que recebe muitas dicas por e-mail: "Tem um mesmo leitor que já me passou duas boas histórias. Já falei para ele continuar mandando as sugestões porque a parceria funcionou!".
Os dois repórteres contam que familiares normalmente não têm nenhuma resistência em falar sobre o morto. Rodrigues lembra que certa vez estava lendo o texto para uma viúva e ela o interpelou: "Mesmo com toda a tristeza que estou sentindo agora, com esse texto você me fez sorrir pela primeira vez depois que ele morreu". O jornalista do Zero Hora diz que a morte é só o ponto de partida, e não o foco do texto, por isso desarma os familiares. "A vida é o principal", diz. Bertoni já foi até convidado para almoço de família, além de receber ofertas de presentes. "Tenho que explicar que não posso aceitar, mas agradeço."
TRADIÇÃO ESTRANGEIRA
Os veículos estadunidenses e britânicos têm tradição mais forte na seção. Às vezes compõem editorias de até quatro repórteres, além de colaboradores e editor. O trabalho do New York Times , por exemplo, ficou famoso por causa de repórteres como Robert McG (1939-2000) e Alden Whitman (1913-1990, também conhecido como Mr. Bad News). Esses profissionais eram recebidos pelas fontes ainda em vida, de modo que pudessem preparar de antemão seus obituários, tamanha importância que tinha a seção do jornal. A fama desses textos criou a máxima do ex-editor de cidades do jornal, A. M. Rosenthal: "Se você tiver que morrer, é melhor morrer no Times."
As vagas de obituaristas na imprensa estrangeira costumam ser disputadas. Em 1994 a revista The Economist fez uma reportagem chamando a atenção para o alto nível dos obituários publicados nos jornais. Um ano depois, a própria publicação instituiu um espaço semanal para os textos. No final de 2008, a atual editora da seção, Ann Wroe, e Keith Colquhoun, editor que dedicou oito anos aos obituários da revista, selecionaram duzentos obituários para a publicação do livro "The Economist book of obituaries". A coletânea traz histórias curiosas - como a de Alex, papagaio morto aos 31, depois de anos de serviços prestados ao estudo da fala de animais - e clássicas, como a do Papa João Paulo II.
Suzuki acredita que essa tradição está ligada à cultura dos países anglo-saxões, que costuma celebrar os mortos. "O jornalismo de obituários, sobretudo nesses países, já está em outra fase. Basta que a pessoa tenha tido uma vida interessante. Eu acho uma forma de jornalismo mais inclusiva e não é à toa que os obituários estão entre os textos mais lidos nesses jornais", analisa Suzuki, que suspeita haver na falta de interesse brasileiro alguma relação com o valor que o catolicismo dá a morte.
Suzuki espera que essa antipatia dos veículos brasileiros se dissipe até o dia da própria passagem. Por via das dúvidas, ele já preparou seu obituário. "Deu muito trabalho, mas acho que agora cheguei à forma definitiva, com o auxílio de dois amigos: 'Matinas Suzuki Jr. tentou ser Matinas Suzuki Jr., mas desperdiçou a sua única chance'."