A mídia e os funerais

A mídia e os funerais

Atualizado em 06/07/2009 às 14:07, por Nelson Varón Cadena.

Quando Michael Jackson estiver sete palmos abaixo da terra, ou numa pira crematória, a mídia ainda exibirá sinais de fumaça, após milhões de páginas impressas de jornais e revistas, ondas eletromagnéticas de milhares de emissoras de rádio e televisão e um número incalculável de Bits (provavelmente Yotabytes) em milhões de páginas da internet.

O Rei do Pop é morto, mas o mass-showbusinnes-media continua. No caso específico do Brasil nenhum outro Pop-Star da música, do esporte, das artes, da religião ou da política, mereceu tanto espaço na mídia. As circunstâncias, o momento, a interatividade e a tecnologia assim determinaram. Tal vez não tenhamos atentado para o fato de que Michael Jackson simboliza o segundo grande funeral da convergência tecnológica (o primeiro foi o de João Paulo II em 2005). Quando da morte da Princesa Daiana em agosto de 1997, outro morte ilustre de grande apelo midiático, o jornalismo multimídia e convergente apenas engatinhava.

Os nossos primeiros mortos ilustres foram membros da família real ou da Corte. A Gazeta do Rio de Janeiro, nosso jornal pioneiro, destacou em tom cerimonial e apenas como registro o falecimento de Dom Pedro Carlos De Bourbon e Bragança em sua edição de 30 de junho de 1812. Mais tarde registrou a morte e funerais da rainha mãe, Dona Maria, em 1816. Também o impacto do falecimento de Antônio de Araujo, o Conde da Barca, em cuja residência fora instalado o prelo original da imprensa regia, em 1817. Personagens que representavam símbolos de poder, distantes do povo enquanto membros da corte e da realeza. A "cobertura" da Gazeta do Rio de Janeiro complementou as solenidades públicas que marcaram as datas fúnebres.

No século XX, já com centenas de veículos de comunicação atuando em todo o país a mídia impressa, em particular as revistas que eram lidas por toda a família nas residências, atingia extratos de público que o jornal não seduzia. E foi nas revistas que os brasileiros acompanharam as coberturas dos funerais dos aviadores italianos Arturo Ferrarim e Carlo Del Prate que realizaram a façanha de cruzar o Atlântico num monomotor para morrer no Rio de Janeiro em 1928. Exéquias solenes acompanhadas por multidões consternadas, impactadas pela mídia para o último adeus aos heróis azurras. Nem mesmo os funerais do Presidente da República Francisco de Paula Rodrigues Alves, em janeiro de 1919, vítima da gripe espanhola, mobilizaram tanta gente.

O imediatismo do rádio

Muitos anos depois, em agosto de 1930, nova comoção popular, em parte potencializada pela mídia, em função das circunstâncias: o assassinato e funerais de João Pessoa, o vice de Getúlio. O episódio com um residual de emoção popular alimentado pela imprensa seria o estopim da revolução. Em agosto de 1954 o rádio teria a oportunidade da primeira grande cobertura de um morto ilustre: Getúlio Vargas. Mas as circunstâncias de sua morte, os detalhes da crise que levaram ao trágico desfecho, a repercussão nas esferas do poder e da opinião pública, ainda seriam privilégio da imprensa escrita que extrapolou nas tiragens. A televisão teve, então, apenas um papel secundário. Funcionavam somente três emissoras com cobertura restrita ao Rio e São Paulo. No ano seguinte a mídia impressa, novamente, impactava a opinião pública, mobilizando multidões para os funerais de Carmem Miranda. Mas quem não pode comparecer acompanhou a cobertura pela Rádio Nacional.

Mas o rádio voltaria a ser protagonista, desta vez o principal, da morte de John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos, assassinado em Texas em 22 de novembro de 1963. Enquanto os brasileiros aguardavam com ansiedade as imagens que seriam exibidas na Televisão 48 horas depois do episódio, o rádio reinou soberano. O rádio e a imprensa cobriram melhor as circunstâncias do assassinato, mas foi a televisão quem delimitou o espaço exibindo os funerais e repetindo na época e durante anos, ainda hoje, o registro do carro presidencial desfilando e o instante do tiro na nuca do Presidente. Imagens que efetivamente marcaram o episódio e o tempo sobrepôs às milhares de páginas escritas sobre o assunto, na época.

A televisão comanda

Muitas outras coberturas de mortes de personagens ilustres de forte apelo midiático mobilizaram a opinião pública brasileira. Duas delas em particular, com a televisão como principal protagonista, já com índices de cobertura acima de 80% e audiências também de grande capilaridade: a morte de Tancredo Neves em 1985 e a de Ayrton Senna, em 1994. Funerais que a mídia brasileira pautou até o limite da comoção popular. Compreensível diante do que os personagens representavam: Um deles, o primeiro presidente civil eleito após um longo período de ditadura militar; o outro, um campeão do mundo da Fórmula Um, vítima do imponderável.

A televisão pautou a mídia impressa e radiofônica, em torno da cobertura dos funerais acima mencionados. No episódio Michael Jackson foi diferente. A pauta é dela, mas perdeu e fica o registro para a posteridade, a primazia do furo jornalístico, para o site de fofocas TMZ. Perdeu a televisão, mas não o público que teve a informação em tempo real, mesmo sob júdice da grande mídia.