"A mídia é fundamental no combate às mortes causadas pelo câncer de mama", diz a cantora Fabiana Passoni
"A mídia é fundamental no combate às mortes causadas pelo câncer de mama", diz a cantora Fabiana Passoni
Para quem ainda não sabe, outubro é o mês mundial de conscientização sobre o câncer de mama, batizado de "Outubro Rosa", em adesão ao movimento "Mulher Consciente na luta contra o câncer de mama", criado nos Estados Unidos em 1997. Para marcar o mês e dar visibilidade à luta contra este tipo de câncer - o segundo mais freqüente no mundo e o primeiro entre as mulheres - diversos monumentos históricos de todo o mundo são iluminados com a cor rosa, entre eles, o Arco do Triunfo, na França, a Torre de Pisa, na Itália e, no Brasil, o Cristo Redentor, no Rio, o Museu da Arte Moderna (MAM) e a Pinacoteca, na cidade de São Paulo.
Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), a estimativa é de que só em 2008, mais de 49 mil mulheres brasileiras terão diagnóstico positivo para o câncer de mama. E engana-se quem pensa que a doença atinge apenas mulheres acima dos 40 anos: não é incomum que mulheres na faixa dos 20 e 30 anos sejam diagnosticadas com câncer de mama.
Para auxiliar na conscientização e aderir ao "Outubro Rosa", o Portal IMPRENSA - que tem uma redação 100% feminina - entrevista a cantora Fabiana Passoni que, aos 31 anos, recebeu diagnóstico de câncer de mama e passou por uma cirurgia de dupla mastectomia há um mês. Brasileira radicada em Los Angeles, onde toca a vida e investe em sua carreira, Fabiana fala sobre as fases da doença, a desinformação sobre casos em mulheres mais jovens e o importante papel da imprensa na tarefa de conscientizar e disseminar informação.
| Divulgação |
| Fabiana Passoni |
O casamento aconteceu na data prevista. Pouco mais de duas semanas depois da mastectomia. Já o desejo de ser mãe, deve ser concretizado em 2010, mas com ressalvas, já que a quimioterapia pode provocar menopausa. "A maior parte das campanhas é voltada para mulheres que já têm filhos e são até avós. Mas têm mulheres que descobrem o câncer ao fazerem exames porque estão tentando engravidar", disse. Assim, para garantir que poderá engravidar, a cantora passa por um processo em que seus óvulos vêm sendo recolhidos para que possa ocorrer mais tarde uma inseminação. "Pelo menos posso dizer aos meus filhos que eles são mais velhos do que pensam". Acompanhe a entrevista.
Portal IMPRENSA - Quanto tempo levou entre a descoberta do nódulo e o diagnóstico de câncer?
Fabiana Passoni - A descoberta do nódulo foi feita 45 dias antes do diagnóstico. E eu só caí na real que realmente aquilo poderia ser câncer quando o médico me deu o resultado. É muito comum você ouvir que é uma gordura salientada e benigna. "Você é nova!". Eu escutei isso durante todo o processo até a descoberta. E jamais imaginei possuir essa doença. Eu não me estressei até descobrir realmente o que era.
IMPRENSA - Que tipo de paciente você é? Você sempre fez auto-exame? Consulta regularmente o ginecologista?
Fabiana - Confesso que não sou do tipo que vai ao médico regularmente. Sou muito saudável e como bem. Faço exercícios diariamente e quase não fico doente! Ginecologista? Ia digamos de quatro em quatro anos. Porém, sempre me olhei no espelho pra checar meu corpo, se havia qualquer coisa estranha. E tomando um banho em um dia de julho deste ano, senti aquele nódulo na parte direita da minha mama, perto das axilas.
IMPRENSA - Algum momento você imaginou que pudesse ser vítima de câncer? Imaginava que pessoas jovens como você estivessem sob o risco de desenvolver a doença? Que tipo de informação você recebia de seus médicos?
Fabiana - É engraçado isso. Eu sou meio paranóica com tudo. E ta aí uma coisa que nunca imaginei ter: tal do câncer. Quando ouvi o médico dizer que tipo era, o que poderia acontecer e o que eu deveria fazer para passar por isso, eu não conseguia me ver naquela cena, não conseguia me colocar ali. E eu perguntei: Me de uma razão? E ele disse: "Má sorte...". Infelizmente, ainda não existe uma razão exata que justifique o desenvolvimento de um câncer. O que existem são várias hipóteses.
Percebo que a informação para uma mulher jovem é muito escassa. Eu tive um check up sete meses atrás, depois de quase quatro anos sem um. O médico mal tocou meu seio.
Como se ali fosse área segura! "Você é nova!"
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| A cantora em foto promocional |
Fabiana - Sentimento? É uma mutação. Você passa de um sistema totalmente de culpa, indo para o rebelde e logo depois o de pena, de perda, de luta. Cada processo é um sentimento... Até que chega um momento em que você vai ter que escolher: ou fica no processo de negação, ou aceita e vence a batalha! Antes de estudar mais a fundo o meu diagnóstico, eu achava que sim. Que o câncer era uma sentença de morte. Mas hoje falo que não! Câncer é uma doença que precisa de uma atenção maior do paciente e dos médicos.
IMPRENSA - Em que grau estava seu câncer? Quais os procedimentos adotados pelos médicos?
Fabiana - Meu câncer era o chamado "Carcinoma Invasivo Ductal". Aquele que espalha. Estava no estágio 2, era maligno, com 1 cm e 14 mm de espessura e raízes ramificadas, na mama direita. No Brasil, os exames constaram que as margens estavam negativas. Mas quando decidi fazer o tratamento na UCSD Moore's Cancer Center, aqui em Los Angeles, repeti os exames e foram feitos outros mais detalhados. Então, descobriu-se que não só as margens estavam positivas como também havia possíveis anormalidades na mama esquerda. Supostamente benigno.
O procedimento médico varia de acordo com o tipo de câncer e com o que você pensa sobre si mesmo. É muito complicado e respondo isso por mim. Eu decidi fazer a mastectomia dupla, porque, dessa forma, tenho mais chances de não haver reincidência. Os médicos dizem que minha idade não favorece muito porque, como sou nova, o risco de reincidência é maior. Então, fazendo a dupla mastectomia, com sessões de quimioterapia e mais um remédio, que é uma espécie de quimioterapia hormonal à base de pílulas, que devo tomar por cinco anos, reduzo as chances de reincidência a quase zero. Mas há outros meios de se vencer essa batalha com riscos maiores. Eu decidi não jogar nesse cassino (risos).
IMPRENSA - Psicologicamente falando, o que mudou em você desde a descoberta do diagnóstico?
Fabiana - Já havia passado por diversas situações de sofrimento na vida e, quando pensei ter sofrido o suficiente, vem o câncer e mostra que tudo o que já passei não é nada em relação ao que ainda vou passar! Agora, digo que mudei pra melhor. Sinto que tudo que já sofri em minha vida me faz ser uma pessoa melhor. Hoje, conheço um mundo no qual jamais pensei em estar. E ele é lindo! A sensação da experiência de vida que estou tendo e os resultados de coisas que jamais pensei em fazer me deixam feliz. Me tornou alguém mais forte! Eu sempre quis melhorar. E estou só começando. Não posso esquecer de dizer que adquiri paciência e a paciência é a chave do negocio! A terceira fase do tratamento, que no meu caso é a quimioterapia, me assusta ainda por não ter chegado. Apesar de a vaidade ser um dos sete pecados capitais, me entristece perder meu cabelo. Ainda tento lidar bem com essa situação.
IMPRENSA - Qual é o momento mais difícil por que você passou até agora?
Fabiana - A perda do meu cabelo vai ser um! Mas são tantos os momentos difíceis! Mas acho que o pior é o primeiro dia que você tenta levantar depois de dois dias na cama dopada em morfina e com dor. A sensação é de que aquilo vai te partir ao meio. São tantos momentos difíceis que fica difícil te falar qual foi é pior. A constipação de três semanas pelo efeito dos remédios é algo abominante. Os drenos que colocam em no corpo da gente pós-cirurgia e com os quais temos que ir para casa e conviver ppor duas semanas também são traumáticos.
IMPRENSA - Neste momento, embora você ainda vá passar pela quimioterapia, você pode se considerar livre do câncer?
Fabiana - O meu estagio é o de prevenção agora. Posso dizer que sou Cancer free! Os nódulos linfáticos foram negativos e toda a massa da mama retirada dos dois lados. Ainda estou na fase de recuperação pós-cirúrgica e começo minhas quatro sessões de quimio, que serão feitas de três em três semanas, no começo de novembro. Seguindo com a pílula, que tenho que tomar por cinco anos.
| Arquivo Pessoal |
| Fabiana Passoni |
IMPRENSA - O que é importante para enfrentar a doença sem deixar que ela absorva todas as suas energias? Apoio de amigos? Esclarecimento?
Fabiana - Não vou mentir. Ela absorve todas as suas energias. O que você precisa é da energia de quem se importa com você! O sentimento de receber carinho numa hora dessa passa uma energia tremenda! E é isso que te dá forcas, com a soma dos esclarecimentos de que o câncer não é uma sentença de morte como era há 20 anos. Tem gente hoje q teve tumor na cabeça sobrevivendo por anos e anos cancer free.
IMPRENSA - Nesse contexto, a internet como fonte de informação ajuda ou atrapalha?
Fabiana - A informação que existe não está na internet apenas. Para mim, a internet foi um mal. Quando resolvi pesquisar essa doença, havia muita informação destorcida e a gente sem entender nada acaba interpretando errado e isso te deprime mais ainda. A tendência do negativismo no começo é inevitável.
Aconselho aos interessados buscarem as informações que existem nos centros de câncer. Geralmente, eles contam com grupos de ajuda, lojas especializadas sobre o assunto com vários folhetos, livretos de graça para você levar pra casa. Eu li demais. Quando recebi o diagnóstico, comprei vários livros, alguns técnicos, outros de testemunhos de pessoas que passaram pelo mesmo problema. Outros de psicologia. E isso tudo me ajudou.
IMPRENSA - Acha importante que haja campanhas constantes de esclarecimento quanto ao câncer de mama? Acha que a mídia, a imprensa ajuda nesse esclarecimento, ou percebe falta de matérias e discussões sobre o assunto?
Fabiana - Há várias campanhas sim, mas elas focam mais as mulheres acima dos 45 anos, que entram na chamada "fase de risco", onde o índice de câncer é mais alto. E pessoas como eu, que descobrem o câncer aos 31 anos - e tem gente até mais nova que eu com a doença - são deixadas de lado. A imprensa tem q tomar consciência que o câncer de mama atinge mulheres com menos de 40 anos e que isso deve ser tratado nas matérias.
Aí no Brasil, a imprensa deveria auxiliar nessa conscientização, através de campanhas mensais, assim como acontece aqui nos Estados Unidos. Agora em outubro, estamos no mês da vigilância.
A mídia também poderia auxiliar na disseminação e na criação de mais grupos de ajuda, nos quais as sobreviventes e pacientes no processo de luta contra o câncer encontram-se uma vez por semana, junto de psicólogos e terapeutas. Nesses grupos, discutimos o assunto, criamos novos laços e isso é muito importante. Precisam de mais grupos e essa idéia tem que percorrer o Brasil. A mídia, nesse sentido, pode fazer toda a diferença.
O meu grupo é algo de sensacional, me ajudou muito e ainda ajuda muito.
IMPRENSA - Que tipo de mensagem você deixa para mulheres que deixam de lado o auto-exame e os demais exames preventivos?
Fabiana - Que dois minutos do seu tempo debaixo do chuveiro podem fazer sua vida ter um significado diferente. Mesmo que você não tenha o costume de ir ao médico de seis em seis meses, esses minutinhos podem fazer a diferença. Quando tirei meus dois minutos, era um pouco tarde, mas não muito. Então, qualquer modificação nas mamas, corra para o médico. Com a tecnologia, o câncer pode ser descoberto em um estágio bem inicial e isso faz toda a diferença.
Para saber mais sobre Fabiana Passoni, .






