A mídia do DF e a Secretaria de Cultura
A mídia do DF e a Secretaria de Cultura
Brasília acompanha estarrecida, mas não tão surpresa o quanto seria de se esperar, a enxurrada de denúncias, de imagens de políticos e empresários do DF, escondendo propinas, ocultando dinheiro em meias e pastas, pagando e recebendo o que agora se convencionou chamar de "pedágio". Já corriam boatos sobre essas práticas e sobre muitos dos nomes envolvidos em toda essa história rocambolesca. O que causou espécie e tristeza foi o azar do movimento cultural do Distrito Federal. E como a mídia da capital de todos os brasileiros, ainda não foi conferir com a devida seriedade, os vários protestos dos movimentos culturais candangos.
Diante das primeiras notícias, houve uma torcida para que o denunciante tivesse tido contato direto e, consequentemente, gravado também, encontros com o Secretário de Estado de Cultura do Distrito Federal, Silvestre Gorgulho, seu Sub, Beto Salles, a presidente do Conselho de Cultura do DF, Rosa Coimbra e o chefe de Administração da Secretaria de Cultura, Paulo Cezar de Albuquerque Caldas. Quem sabe assim, eles poderiam defender-se das mais variadas suspeitas de uso político e pessoal dos cargos que ocupam. Seria a melhor das chances deles. Esse quarteto conseguiu algo inédito: a insatisfação de praticamente todas as áreas de cultura do DF. Grupos se organizam e debatem. Movimentos informais se reúnem. Foi criado um movimento de resistência para combater, entre outras coisas, as más práticas deles: o Fórum de Cultura do DF e do Entorno.
Usando a lei como escudo
Os espaços públicos de cultura, os recursos e apoios geridos por essas figuras insones preterem os eventos e os artistas da cidade sob a batuta deles. Eles, sabedores dos mecanismos legais, supostamente abusam da autoridade instituída e desprestigiam quem não molha mãos e bolsos... Aparentemente, usam a Justiça sob uma ótica perversa e inversa: para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei. Há indícios de que os artistas mais simples são obrigados a calar-se, ou serem cooptados, sob pena de não terem seus pleitos sequer analisados com a devida lisura.
MP em ação
Gorgulho, por sinal, já foi denunciado pelo Ministério Publico do DF, pela Promotoria de Defesa do Patrimônio Público, que em junho de 2008, exigiu a devolução aos cofres públicos de R$ 138 mil. A irregularidade foi detectada no contrato de um show sertanejo da dupla César Menotti e Fabiano. A denúncia do Ministério Público foi contra Silvestre Gorgulho e Paulo Cezar de Albuquerque Caldas. A dupla sertaneja cobrou R$ 120 mil pelo show, contudo, usando a empresa M.A.S. Araújo, a Secretaria de Cultura contratou o show da mesma dupla, com uma nota fiscal emitida pela empresa mostrando o valor pago pelo GDF de R$ 258 mil. Devido a isso, o Ministério Público pediu que Gorgulho e Caldas devolvessem os R$ 138 mil aos cofres públicos, com juros retroativos à data quando o contrato foi assinado. Além disso, o Ministério Público requereu que ambos perdessem as funções públicas e tivessem os direitos políticos suspensos por oito anos. Tudo acabou em pizza.
O Corregedor-geral do DF, Roberto Giffoni, também citado no recente inquérito do STJ, aparentemente achou uma estratégia para aliviar Gorgulho, ao propor um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para regularizar a contratação de shows e eventos promovidos pela Secretaria de Cultura e pela Empresa Brasiliense de Turismo (Brasiliatur) que no início do ano passou a comandar a área de shows públicos. Esses dois órgãos do GDF, também foram duramente questionados pelo MP-DF sobre o show da dupla Rio Negro e Solimões e a liberação de recursos públicos para a realização do Carnaval de Brasília 2009. O MP alegou que não teria ocorrido uma justificativa convincente sobre a seleção dos artistas e dos preços cobrados e ainda constatou sobrepreço, de acordo com a ação que tramita na 1ª Vara de Fazenda Pública do Distrito Federal. Como até agora só sentimos o cheirinho de pizza no ar, perdão, de panetone, Gorgulho saiu desses imbróglios todos fortalecido pois colocou estrategicamente o cargo à disposição e o governador chorão e audaz, Jose Roberto Arruda, o manteve. Por que será? Por que será?... A mídia candanga, divulgou fartamente esse caso, depois parou. Ninguém estranhamente toca mais no assunto.
Rosa e Lobão
Quanto a Gorgulho, dizem que na época do painel, ele foi um dos mais apoiou Arruda e por isso, apesar das denúncias, foi mantido no cargo. Uma das lacunas que resistia era a de Rosa Coimbra.
Parece que foi preciso um jornal de fora para mostrar uma luz. O marido dela é assessor do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. Até aí, tudo bem. Contudo, na matéria do dia 03/12, na Folha de São Paulo, os repórteres RANIER BRAGON e HUDSON CORRÊA, apontaram que "empresas citadas no inquérito do mensalão do DEM doaram R$ 5,6 mi a campanhas".
Entre essas empresas, segundo a matéria, "fora do eixo DF-Goiás, a maior doação oficial está registrada em nome do hoje ministro Edison Lobão (Minas e Energia), que em 2002 teve 45% de sua campanha ao Senado pelo Estado do Maranhão financiada pela Linknet (R$ 300 mil). Questionado sobre a doação, o ministro disse, via assessoria, que o país precisa discutir a 'questão fundamental do financiamento das campanhas' e que, no seu caso, a doação 'se deu na forma da lei'." Pois bem, quem sabe um rastilho de luz nessa estranha permanência no poder da presidente do Conselho de Cultura do DF. Mais uma suposta "coincidência"? Deixo a pergunta.
Eventos prejudicados
Eventos renomados e conhecidos nacionalmente, como a Feira do Livro de Brasília (quase 30 anos de estrada), e mesmo internacionalmente, como o Seminário Internacional de Dança de Brasília (chegando a sua 20ª. edição), resistem bravamente aos desmandos dessa Secretaria pífia e que envergonha a cultura do Distrito Federal. Alguns eventos, como o Festival Nova Dança ou a Feira de Música Independente acabaram por não conseguir mais ser realizados ou ser realizados de maneira aquém de suas reais possibilidades. Perde quem com isso? A cidade como um todo. E novamente a mídia local, muda o foco e fica omissa...
Eurides e o genro maestro
A deputada distrital Eurides Brito (PMDB-DF), também não ficou de fora e dizem que andava por aí, se autopromovendo como alguém que tinha real entrada nos caminhos tortuosos dos recursos da pasta da Cultura... Ela é uma das que aparecem recebendo "mesada" na série de vídeos feitos pelo ex-Secretário de Assuntos Institucionais do DF, Durval Barbosa. Os movimentos culturais também denunciam que está em curso, uma "jogada" de Eurides Brito, para, usando a recém-criada Associação de Amigos Pró-. Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claúdio Santoro, privatizar a orquestra e o teatro nacional Claudio Santoro. Que ficaria sob a batuta da filha dela, e do genro, o maestro titular da orquestra, Ira Levin. Diga-se de passagem que a tal associação já vem sendo beneficiada com emendas de Brito. E a mídia assiste a tudo com cara de paisagem...
A produção artística de Brasília resiste a tudo isso. É guerreira. Não se rende. O ator e professor Adeilton Lima chegou a se enjaular na Praça Zumbi dos Palmares, em frente ao Edifício Conic, próximo a Rodoviária do Plano Piloto, como forma de protesto. Como os meios de comunicação não reagiam, foi a maneira dele dar seu grito, que contou com a presença de artistas de todos os segmentos do Distrito Federal, protestando por respeito à produção local. Quem supostamente se negava a pagar pedágio, de maneira velada, era preterido.
A mídia fala dia e noite em mesadas e pedágios e os quatro servidores públicos, Silvestre Gorgulho, Beto Salles, Rosa Coimbra e Paulo Cezar Caldas, não são citados. A Cultura deu azar, talvez o contato deles fosse outro... Seria bom para tirar essa dúvida tão aparentemente certeira dos corações e mentes... Apesar de já haver boatos de que, dentro os vídeos de Durval Barbosa, ainda não exibidos exista um com Gorgulho...
Bons de briga
A resistência continua. Na segunda (30), os artistas da cidade reuniram-se, novamente na emblemática Praça Zumbi dos Palmares, e prepararam os planos de embate pela aprovação na Câmara Legislativa do Projeto de Emenda à Lei Orgânica Nº 34 (PELO 34) que propõe que todo mês, 0,3 % do orçamento líquido do GDF entre automaticamente no Fundo da Arte e da Cultura ( FAC), independente de vontade política, e que só saia de lá por meio de edital com transparência e aprovado por um conselho de cultura forte que realmente represente os anseios da classe artística do DF.
Espera-se que por qualquer motivo, vergonha por omitir informações dos leitores, ou mesmo encruzilhos por ser "furados" pela mídia nacional, os veículos locais reajam, digam e, melhor ainda, apurem. Que vença o bom jornalismo. A produção cultural não pode e nem irá se curvar. Que a verdade, no final, prevaleça.






