A mídia da revolução
A mídia da revolução
Atualizado em 16/08/2010 às 10:08, por
Nelson Varón Cadena.
De todos os eventos sociais ocorridos no período do Brasil - Colônia, apenas um deixou vestígios de ações de mídia, instrumentos de comunicação para a difusão das idéias liberais e libertárias expressas pelas lideranças do movimento: a "Rebelião dos Alfaiates"; o evento também rotulado de Inconfidência Baiana, Revolta dos Búzios, Conjuração Baiana, dentre outras denominações, conforme destacou o professor Luis Henrique Dias Tavares no seu novo livro "Bahia 1.798" lançado semana passada com selo da Empresa Gráfica da Bahia/UFBA e ilustrações de Cau, cartunista de "A Tarde". A Revolta dos Alfaiates como todas as revoluções sufocadas pela coroa portuguesa no Brasil se deu através de articulações de bastidores, mas, o que diferencia este movimento dos outros é as ações de mídia implementadas para propagar as idéias e instruir o povo sobre a forma e o momento certo de agir.
Foi essa "competência" midiática que comprometeu o resultado da revolução. Pois a mesma mídia que informava o populacho sobre as atitudes a serem tomadas, informava também as autoridades e foi, justamente, a partir dessa informação pública que o governo reprimiu a rebelião no nascedouro, ordenando a prisão de alguns dos implicados e a devassa nas suas residências e de seus familiares mais próximos. O movimento tinha um viés republicano, como a Inconfidência Mineira, influenciado pelo eco da Revolução Francesa. Pregava basicamente a instauração de um regime com o povo representado no parlamento, aumento de salários, diminuição de impostos e o fim da escravidão. Nitroglicerina pura. Idéias que, no entendimento das autoridades, não deveriam prosperar e sequer deveriam ser divulgadas.
Os canais de distribuição
Falei em plataformas de mídia. Mas que mídia era essa, já que em 1.798 o Brasil não possuía nenhuma tipografia, a imprensa não existia entre nós? Os lideres do movimento criaram e produziram, um a um, manuscritos, panfletos no formato de ¼ de papel ofício, distribuídos na saída das igrejas e outros colados nas paredes de locais estratégicos por onde circulavam nichos do povo que deveriam aderir à revolução. Essa plataforma de mídia foi preservada, arrolada aos autos do processo movido pela justiça contra as lideranças da rebelião. Panfletos guardados pelo Arquivo Público do Estado da Bahia, eu tive a oportunidade de vê-los e reproduzir parte de seu conteúdo no meu livro "450 Annos de Propaganda na Bahia", editado pela Gráfica Santa Helena com patrocínio da Copene/Fazcultura em 1.999.
Do ponto de vista da história da comunicação esses panfletos tem um valor inestimável, pois conforme já falei, são as únicas evidências concretas de ações de mídia implementadas como apoio aos movimentos sociais ocorridos no Brasil - Colônia. Não se sabe até hoje os autores dos panfletos que se supõe eram pessoas letradas, de boa cultura, provavelmente algumas das personalidades (Cipriano Barata, padre Agostinho Gomes, dentre outros) envolvidas que não foram molestadas pelas autoridades, preservadas em todas as etapas do inquérito, convenientemente esquecidas no processo que resultou no enforcamento público, com requintes de crueldade, de quatro pobres diabos arrolados para assumir toda a culpa.
A mídia em questão foi uma tentativa inteligente e ao mesmo tempo ingênua de ampliar a comunicação para atingir um maior número de pessoas, ganhar adesões à idéia da revolução, num menor espaço de tempo. Tinha pretensões de mass-media. As lideranças do movimento reuniam-se à noite, em residências e a confecção dos panfletos deve ter ocorrido com a participação de várias pessoas, nesses encontros, a distribuição é que foi de um lado eficiente, mas do outro burra, pois acabou alertando as autoridades. Distribuir panfletos mão-a-mão poderia ter algum sentido, mas nunca afixá-los, nas paredes de prédios públicos. Será que o propósito de tudo isso era mesmo divulgar uma revolução em curso, ou, apenas marcar posição, passar um recado? È uma hipótese e a história não se faz de hipótese, mas tem sentido quando se avalia a atitude complacente das autoridades com as lideranças de fato do movimento. Pessoas importantes, de posses, que não foram processadas e algumas sequer interrogadas.

Foi essa "competência" midiática que comprometeu o resultado da revolução. Pois a mesma mídia que informava o populacho sobre as atitudes a serem tomadas, informava também as autoridades e foi, justamente, a partir dessa informação pública que o governo reprimiu a rebelião no nascedouro, ordenando a prisão de alguns dos implicados e a devassa nas suas residências e de seus familiares mais próximos. O movimento tinha um viés republicano, como a Inconfidência Mineira, influenciado pelo eco da Revolução Francesa. Pregava basicamente a instauração de um regime com o povo representado no parlamento, aumento de salários, diminuição de impostos e o fim da escravidão. Nitroglicerina pura. Idéias que, no entendimento das autoridades, não deveriam prosperar e sequer deveriam ser divulgadas.
Os canais de distribuição
Falei em plataformas de mídia. Mas que mídia era essa, já que em 1.798 o Brasil não possuía nenhuma tipografia, a imprensa não existia entre nós? Os lideres do movimento criaram e produziram, um a um, manuscritos, panfletos no formato de ¼ de papel ofício, distribuídos na saída das igrejas e outros colados nas paredes de locais estratégicos por onde circulavam nichos do povo que deveriam aderir à revolução. Essa plataforma de mídia foi preservada, arrolada aos autos do processo movido pela justiça contra as lideranças da rebelião. Panfletos guardados pelo Arquivo Público do Estado da Bahia, eu tive a oportunidade de vê-los e reproduzir parte de seu conteúdo no meu livro "450 Annos de Propaganda na Bahia", editado pela Gráfica Santa Helena com patrocínio da Copene/Fazcultura em 1.999.
Do ponto de vista da história da comunicação esses panfletos tem um valor inestimável, pois conforme já falei, são as únicas evidências concretas de ações de mídia implementadas como apoio aos movimentos sociais ocorridos no Brasil - Colônia. Não se sabe até hoje os autores dos panfletos que se supõe eram pessoas letradas, de boa cultura, provavelmente algumas das personalidades (Cipriano Barata, padre Agostinho Gomes, dentre outros) envolvidas que não foram molestadas pelas autoridades, preservadas em todas as etapas do inquérito, convenientemente esquecidas no processo que resultou no enforcamento público, com requintes de crueldade, de quatro pobres diabos arrolados para assumir toda a culpa.
A mídia em questão foi uma tentativa inteligente e ao mesmo tempo ingênua de ampliar a comunicação para atingir um maior número de pessoas, ganhar adesões à idéia da revolução, num menor espaço de tempo. Tinha pretensões de mass-media. As lideranças do movimento reuniam-se à noite, em residências e a confecção dos panfletos deve ter ocorrido com a participação de várias pessoas, nesses encontros, a distribuição é que foi de um lado eficiente, mas do outro burra, pois acabou alertando as autoridades. Distribuir panfletos mão-a-mão poderia ter algum sentido, mas nunca afixá-los, nas paredes de prédios públicos. Será que o propósito de tudo isso era mesmo divulgar uma revolução em curso, ou, apenas marcar posição, passar um recado? È uma hipótese e a história não se faz de hipótese, mas tem sentido quando se avalia a atitude complacente das autoridades com as lideranças de fato do movimento. Pessoas importantes, de posses, que não foram processadas e algumas sequer interrogadas.






