A marca, o sorvete e a saudade

A marca, o sorvete e a saudade

Atualizado em 26/11/2009 às 19:11, por Lucia Faria.

O discurso sobre a importância da marca cresce exponencialmente. Não passa um dia sem que a palavra branding seja citada pelos clientes, gestores de comunicação ou encontrada nas boas matérias do ramo. Recentemente tive um bom exemplo da força de uma marca, o perigo do seu enfraquecimento e a dificuldade em recuperar o prestígio. Para isso conto uma historinha, sem qualquer interesse pessoal em divulgar o nome da empresa.

Anos atrás existia um restaurante árabe chamado Bambi, em um bairro classe média de São Paulo. Sem luxo, mas com graça. Na porta, um estranho veadinho empalhado nos olhava assustado. Meio breguinha aquilo, mas era bem suportável. Ali era possível encontrar a ex-prefeita Luiza Erundina e outras pessoas legais (pelo menos no meu conceito) saboreando um delicioso e inesquecível sorvete. A receita da farofa era segredo de família, diziam, e mantida a sete chaves. Comer beirute ou jantar era simples desculpa para se deleitar com a sobremesa. Em um dia de 1990, após 50 anos de funcionamento, o anúncio da tragédia: o restaurante fechava as portas. E com ele, foi embora o tal sorvete. De vez em quando batia uma saudade danada e o jeito foi achar outro lugar que oferecesse algo que, de certa maneira, preenchesse aquele vazio.

A boa notícia chegou na metade deste ano. A casa reabriu após 19 anos, mas agora no chique Jardim Paulistano. Fui matar a saudade. Ao chegar, o impacto. O pequeno bambi ainda está lá, tadinho, mas o visual do lugar impressiona. Com vestidinho simples e rasteirinha nos pés, quase dei meia volta. Sofisticado, o restaurante agora é imponente. Lustre enorme, pé direito gigante, piano, tudo lindo. Fiquei desconfortável e comecei a observar ao redor. Todo mundo, com poucas exceções, no mesmo barco. Era visível a surpresa. À mesa, clientes confidenciavam aos garçons que ali estavam para matar saudades.

Para quem cuida da comunicação do restaurante, está aí um bom desafio. 1. Atrair os antigos clientes e não perdê-los mais, numa clara demonstração de que sofisticação não implicou em preços abusivos; 2. Conquistar os novos, que não têm a lembrança afetiva.

Duro mesmo foi ouvir o comentário de quem estava comigo e que engordou alguns quilos em todo esse tempo. Agora, aquela tão esperada sobremesa virou uma inimiga e foi substituída nos últimos anos por algo menos calórico. Sem graça envelhecer, né?