A maratona do aprendizado
A maratona do aprendizado
Quando chega essa época do ano lembro que dar aula mais parece uma maratona e que o professor precisar estar super condicionado para agüentar o pique. Neste semestre estou fora de sala de aula, em função do doutorado, mas olhando para os rostos cansados dos meus amigos que estão na labuta não dá para esconder que chegou o fim do semestre e com ele a contagem regressiva para a tormenta acabar.
Claro que as reclamações não superam o gosto pela coisa, eu mesma, olho para eles com uma pontinha de inveja e penso com nostalgia nas provas e trabalhos que não terei que corrigir neste semestre. Agora, do lado oposto, tendo que fazer meus próprios trabalhos reforço uma teoria que já tinha sobre os humores do fim do semestre, que são bem tensos, mas que também podem contribuir muito para a construção do conhecimento.
Voltando à analogia da corrida não é só o professor que precisa de preparo físico, o aluno, se não estiver bem condicionado, também sucumbe. Por isso que se fala tanto em técnicas de estudos, rotina, disciplina, estudar um pouquinho por dia, enfim, e se essas sugestões não foram incorporadas logo no começo é lá no fim que o atropelo aparece e a maratona fica mais parecida com uma corrida do queijo (àquela em que os competidores saem em disparada atrás de um queijo redondo que é empurrado de uma ladeira na Grã-Bretanha).
Com o despreparo causado pela displicência de um começo de semestre mal aproveitado a tensão aumenta lentamente e pode gerar um descontrole total, uma vontade de sair correndo, de desistir. Muitas vezes esta vontade é consolidada e é por isso que começamos a ver nossas turmas mais vazias neste período. Mas também pode despertar uma vontade de correr atrás do tempo perdido e é aí que está a grande vantagem deste processo.
No fim do semestre fica óbvio que você deveria ter começado a estudar mais cedo, fica evidente a falta que fez àquele fichamento que você deixou de entregar, daquele texto que você deixou de ler, daquela pergunta que você evitou fazer. É por isso que também começam a aparecer muito mais alunos tirando dúvidas, pedindo sugestões de texto, tentando entender melhor a proposta do trabalho pedido.
Podemos olhar de duas formas para este aluno que, de uma hora para outra, começa a se interessar pela disciplina, a fazer questões, ponderar sobre as propostas de avaliação: ou achamos que ele está fazendo tipo para tentar ganhar a simpatia do professor e garantir uma nota melhor ou ele está realmente percebendo que a construção do conhecimento depende muito mais de um esforço particular dele.
Mesmo sabendo que a primeira interpretação não é impossível sempre aposto na segunda. E, independente se ela foi correta ou não, temos em mãos uma boa oportunidade para colocar àquele aluno em movimento, tirá-lo da inércia e ajudá-lo produzir conhecimento lentamente, individualmente e apesar das dificuldades.
Comparar o ensino/aprendizado com a maratona é justamente porque eu nunca vi um maratonista que chega ao final da corrida sem demonstrar cansaço, esgotamento mesmo, e a alegria da vitória se confunde inevitavelmente com a exaustão do percurso. Muitas vezes com o conhecimento é assim!
Nem sempre aprender é um processo calmo e fácil, muitas vezes precisamos nos esforçar e chegar à exaustão para compreender determinados conceitos, para superar dúvidas e fazer conexões entre as disciplinas. Só então, no final de tudo, conquistamos àquela sensação maravilhosa de saber efetivamente, prazer que é tão nosso quanto o esforço individual que fizemos para chegar até ele.






