A intimidade do mosquito

A intimidade do mosquito

Atualizado em 13/04/2009 às 18:04, por Nelson Varón Cadena.

Há duas semanas, o Rio de Janeiro autorizou a invasão de residências por membros da defesa civil e funcionários públicos, com ou sem autorização dos proprietários, para combater focos do mosquito Aedes Egypty, transmissor da dengue em áreas urbanas e da febre amarela em áreas rurais. Um detalhe me chamou a atenção no decreto assinado pelo Governador Sérgio Cabral, o trecho em que autoriza a invasão dos imóveis "a qualquer hora do dia, ou da noite". Como no passado, há mais de um século, então vigorando a política sanitarista de Oswaldo Cruz, aprovada pelo Congresso em 31 de outubro de 1.904. A Lei que passou para a história como da "vacina obrigatória", na época mereceu o repúdio da imprensa que de alguma forma refletiu, mas também estimulou a revolta popular que resultou em meia centena de mortos e muitos feridos.

Um dos argumentos da mídia, naquele tempo, contra a vacina obrigatória, era o de que os agentes sanitários invadiam a privacidade dos lares e desonravam as mulheres expondo-as ao constrangimento de mostrarem para estranhos braços e em particular coxas, partes do corpo sempre encobertas, de público. Senhoras e senhoritas quando passeavam pelas ruas da capital usavam blusas de manga cumprida, mesmo no verão, e longas saias encobrindo os tornozelos. Daí o desconforto de imaginar que teriam de mostrar as coxas e nádegas para um funcionário público, munido de uma seringa; assunto este explorado pela imprensa com um misto de maledicência e humor, no caso específico das revistas semanais.

Marido traído
Enquanto os jornais bradavam ("O atentado planejado alveja o que de mais sagrado contém o patrimônio de cada cidadão: pretende se esmagar a liberdade individual sob a força bruta..." Correio da Manha de 07/10/04) as revistas relaxavam, publicando caricaturas e notas de rodapé bem-humoradas. Mas foi Fon Fon, magazine que recém estreara no mercado editorial brasileiro, quem publicou a melhor crônica sobre o assunto em sua edição de capa de 6 de abril de 1909. Escrita no estilo roteiro, a cena se passa numa residência, à noite; o script retrata uma dona de casa traindo o seu marido. O amante já ajeitava o colarinho e a gravata para ir embora quando o esposo bate na porta. "Meu Deus, estou perdida! Deve ser o Anastácio" diz a mulher. O amante retruca: "Poderias ter dito nos estamos perdidos! Vês o egoísmo das mulheres!".

A essas alturas o cronista narra o nervosismo do casal e a iniciativa do amante que pede à mulher para tirar o peignoir (espécie de camisola) e ficar de saia de baixo e corpete, em trajes íntimos. Ela idealiza que é para morrerem juntos e concorda com a idéia. Ele, por sua vez, tira uma seringa do bolso. Então, segue-se o seguinte diálogo:

-O marido (brandindo a bengala): Vou matá-los
-O amante: Meu caro senhor previno-o, desde já, que o processarei por desacato a um funcionário público no cumprimento de suas atribuições.
-O marido: Quem é o senhor?
-O amante: O médico encarregado da vacina obrigatória.
-O marido: A estas horas?
-O amante: Perfeitamente. É tanta a gravidade que de dia só podemos atender ao povinho
-O marido: E por que não abriram logo a porta?
-O amante: Pois o Senhor queria que se perdesse o precioso remédio? Reflita um pouco. Era possível?
-O marido: Como sou besta! Desculpe, doutor. Não se incomode, pode continuar.
-Ela: (muito baixinho) Adoro-te!

Um século transcorrido desta bem-humorada crônica de costumes de Fon Fon que expõe os conflitos da época em torno da invasão da privacidade, os jornais não mais se incomodam com os excessos da autoridade, por mais nobres que sejam os propósitos. O Decreto do Governador Sérgio Cabral visa proteger a população, mas precisava "a qualquer hora do dia, ou da noite".? O redator excedeu-se, já que a Prefeitura não vai agir de madrugada, e a imprensa comeu mosquito.