A inovação continua capegando no Brasil
A inovação continua capegando no Brasil
Atualizado em 14/01/2011 às 13:01, por
Wilson da Costa Bueno.
As estatísticas continuam brigando entre si no caso do investimento das empresas brasileiras em pesquisa em desenvolvimento, mas não dá para tapar o sol com a peneira: a inovação anda por aqui a passos de tartaruga. Esta é a dura realidade e pronto. O resto é conversa fiada, tentativa de mascarar os fatos, o que, convenhamos, é muito ruim porque, na prática, acaba contribuindo para que o panorama não se altere.
Para que não fiquemos dando voltas em círculo, sem sair do lugar, o negócio é irmos diretamente ao ponto que interessa: qual é a participação do Brasil no mercado mundial de patentes? Segundo a OMPI (Organização Mundial de Propriedade Intelectual), o país não supera os 0,32% dos pedidos internacionais.
Isso é pouco ou não? Vamos lá: se considerarmos que o Brasil representa 2,7% da economia mundial e viu seu PIB crescer 158% entre 2000 e 2009, é nada mesmo, visto que, ao longo do tempo, não se afasta deste índice ridículo. Comparemos com a China, que, no mesmo período, viu sua participação nas patentes globais crescer de 0,84% para 7,3% ou com a Coréia que tem participação de 5,17% no universo das patentes.
Mais dados para a comparação necessária? O Brasil representa hoje 2% da produção mundial de artigos científicos, participação maior do que a observada no mercado de patentes, o que indica que fazemos e publicamos ciência mas não conseguimos convertê-la em mercadoria ou seja em algo que gere vantagens em termos de financeiros. No capitalismo, quem não consegue proteger o seu conhecimento, não lucra com ele e isso representa é um desperdício inominável.
Por que isso acontece? Ora, por vários motivos.
Em primeiro lugar, nem sempre a ciência está colada na realidade, nas demandas do mercado e o Brasil tem dificuldade para incorporar os seus especialistas (doutores, por exemplo) no setor produtivo, que reclama sempre deste distanciamento. Não quer dizer que a ciência deva se curvar aos interesses imediatos (defendemos também - e como - a ciência dita pura, embora ache que nada há de puro nesse mundo da grana), mas não é possível também, pelo menos no capitalismo, que ciência e tecnologia não estejam sintonizadas com o contexto em que devam estar inseridas.
Em segundo lugar, por um viés recorrente do empresariado brasileiro, se investe pouco em P & D, preferindo comprar soluções prontas. Adota-se uma perspectiva imediatista, de curto prazo, e por isso, em algumas áreas, andamos para trás e ficamos toda hora pedindo pro Governo proteger nossos produtos da concorrência externa. Empresários choramingam o tempo todo, buscando acomodar-se sob as asas das autoridades que, muitas vezes, pressionados pelas chantagens (demissão em massa de trabalhadores) cedem a setores gananciosas (as montadoras são um bom exemplo disso e tivemos atrasos terriveis na área da informática/computação por conta deste equivocado sistema protecionista). O prof. David Kupfer, da UFRJ, constatou que entre mais de 100 mil empresas, objeto de pesquisa, apenas 4,2% realizaram atividades internas de P & D em 2008 (reportagem publicada pelo Valor, 05/01/2011,p. A14), o que, mesmo querendo ser patriotas, nos enche de vergonha.
Em terceiro lugar, porque a estrutura burocrática do INPI é de doer e, segundo estatísticas atuais, há mais de 150 mil pendências em termos de análise de patentes porque o instituto não tem condições de analisar os processos. Segundo o diretor de administração de serviços do INPI, Julio de Oliveira, em entrevista publicada na Folha de S. Paulo (02/01/2011, p.B1), o instituto está processando pedidos feitos em 2002. Belo atraso, hein?
Finalmente porque, apesar do discurso, não há uma política efetiva (o papel aceita tudo e as autoridades falam, escrevem muito, mas na prática com os entraves burocráticos, pouco acontece para alterar o cenário) e os governantes preferem mascarar a realidade, sentindo-se certamente com culpa no cartório.
O presidente da FINEP, Luiz Fernandes, por exemplo, na mesma reportagem do Valor aqui citada, destoando do resto do texto, acha que a taxa de inovação no Brasil não pode ser desprezada, que tem crescido, e cita alguns dados pontuais para justificar o seu otimismo.
Mas nada disso convence porque, no fundo, o número de patentes indica que, apesar do discurso e de ações isoladas, estamos avançando pouco, quase nada para uma economia tão pujante como a nossa. Empresários e estudiosos reconhecem que há falta de estímulo e que, fora da Academia, o progresso nesta área é realmente pequeno. Como vimos, estamos é andando para trás, comparativamente, e não adianta apenas considerarmos números absolutos porque, porcentualmente, estamos perdendo terreno no mercado mundial de inovação. É verdade que o BNDES possui mecanismos de fomento para a inovação, mas eles , ao que parecem, não estão surtindo o efeito desejado e é preciso analisar friamente a questão em vez de insistir num discurso vazio, com poucos resultados concretos.
Sabemos que temos uma falta enorme de pessoal especializado (engenheiros e técnicos, notadamente em algumas áreas) e que a ausência dessa massa crítica compromete o nosso desenvolvimento e nos torna reféns de outros países que, agressivamente e de forma competitiva, nos empurram soluções nem sempre exatamente adaptadas à nossa realidade.
E não vamos culpar os nossos cientistas porque eles dão um duro danado, são em geral idealistas, contornam situações terríveis nos laboratórios das universidades e institutos de pesquisa, ganham baixos salários, têm dificuldade em dar sequência aos seus projetos em virtude de legislação inadequada, falta de continuidade da política governamental e do jogo político que atrapalha o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Há uma esperança depositada na gestão do Aloizio Mercadante que assumiu, com o Governo Dilma, o ministério da Ciência e da Tecnologia, mas todo mundo sabe que uma andorinha só não faz verão e que é preciso mudar uma mentalidade que está sedimentada nos corredores palacianos, no Congresso etc e que compromete o investimento permanente em C & T, independe de ministros, políticos e de lobbies das corporações (a indústria farmacêutica tem o discurso contrário à inovação no Brasil e você se lembra do dr. Dráuzio que, no Fantástico, tentou ridicularizar a pesquisa com fitoterápicos?).
Mercadante defende, inclusive, a tese de que a FINEP deva se transformar em instituição financeira visando aumentar a sua capacidade de financiamento, mas nem sempre (a gente conhece esse filme) associar finanças (com exigências de retorno a curto prazo) com pesquisa (que exige tempo de maturação) acaba dando bons resultados.
No fundo, o próprio Mercadante reconhece que o buraco é mais embaixo e que soluções parciais não vão atacar o problema de frente. Sabe, por exemplo, que na votação do orçamento de 2011 os parlamentares meteram a mão no dinheiro da ciência para subsidiar projetos de interesse pessoal ou de seus territórios políticos. Desse jeito, não dá mesmo, e não há política ou boa intenção que chegue a lugar algum, se não houver uma visão comprometida com o médio e longo prazos e com o interesse do País.
O bom disso tudo é que, com os dados recentes sobre a taxa de inovação brasileira e nossa posição comparativa no panorama mundial, a situação fica mais clara, o que exige medidas imediatas e tomada de decisões por parte do Governo.
Quem sabe desta vez (vamos saborear uma dose de otimismo neste início de ano?) a ciência e a tecnologia ganham maior prioridade no Governo e damos um salto importante para vencermos as desvantagens comparativas que outros países nos têm imposto.
Mas, como dizia Vandré nos tempos nefastos da ditadura, esperar não é saber, é preciso acontecer. Só nos resta cobrar, denunciar as omissões e os desvios, e pedir providências.
O que não pode acontecer (mas vai ou não vai acontecer?) é as prioridades estarem centradas em construir estádios (alguns serão verdadeiros elefantes brancos, ou você duvida disso?) para a Copa do Mundo e não em construir um país para o futuro. Para que isso se concretize, a ciência e a tecnologia têm que ser encaradas de outra forma.
Vamos dar um voto de confiança para o Mercadante?
Em tempo: este é o meu artigo de número 150 no Portal Imprensa e me orgulho de ter alcançado esta marca. Só tenho que agradecer os colegas do Portal que têm permitido minha livre expressão ao longo destes anos todos e reunir forças para os próximos 150 artigos. Sei que muitas pessoas (governantes, parlamentares, colegas jornalistas e da Academia e sobretudo muitas empresas ou setores - agroquímicas, do tabaco, de biotecnologia, laboratórios farmacêuticos, de papel e celulose, mineradoras etc - se sentiram incomodadas com as minhas observações, mas, quando boto o dedo na ferido, tenho mesmo esta intenção. Não me proponho, muito pelo contrário, a deixá-las na zona de conforto enquanto sacaneiam os cidadãos e o país. Não se pode viver tranquilamente enquanto se materializam a degradação do meio ambiente, da saúde, da ética e outras coisitas mais. Como dizia o velho professor Paulo Freire, não podemos perder nunca a capacidade de nos indignarmos com as injustiças. Ou como preferia meus avós: quem curva a espinha, deixa o traseiro à mostra. E é um perigo deixá-lo exposto assim nos dias de hoje. Como se diz lá na minha querida Ribeirão, comigo não! Melhor ser chamado de radical (que tem raiz) que de babaca. Ou citando José Simão, quem fica parado é poste!

Para que não fiquemos dando voltas em círculo, sem sair do lugar, o negócio é irmos diretamente ao ponto que interessa: qual é a participação do Brasil no mercado mundial de patentes? Segundo a OMPI (Organização Mundial de Propriedade Intelectual), o país não supera os 0,32% dos pedidos internacionais.
Isso é pouco ou não? Vamos lá: se considerarmos que o Brasil representa 2,7% da economia mundial e viu seu PIB crescer 158% entre 2000 e 2009, é nada mesmo, visto que, ao longo do tempo, não se afasta deste índice ridículo. Comparemos com a China, que, no mesmo período, viu sua participação nas patentes globais crescer de 0,84% para 7,3% ou com a Coréia que tem participação de 5,17% no universo das patentes.
Mais dados para a comparação necessária? O Brasil representa hoje 2% da produção mundial de artigos científicos, participação maior do que a observada no mercado de patentes, o que indica que fazemos e publicamos ciência mas não conseguimos convertê-la em mercadoria ou seja em algo que gere vantagens em termos de financeiros. No capitalismo, quem não consegue proteger o seu conhecimento, não lucra com ele e isso representa é um desperdício inominável.
Por que isso acontece? Ora, por vários motivos.
Em primeiro lugar, nem sempre a ciência está colada na realidade, nas demandas do mercado e o Brasil tem dificuldade para incorporar os seus especialistas (doutores, por exemplo) no setor produtivo, que reclama sempre deste distanciamento. Não quer dizer que a ciência deva se curvar aos interesses imediatos (defendemos também - e como - a ciência dita pura, embora ache que nada há de puro nesse mundo da grana), mas não é possível também, pelo menos no capitalismo, que ciência e tecnologia não estejam sintonizadas com o contexto em que devam estar inseridas.
Em segundo lugar, por um viés recorrente do empresariado brasileiro, se investe pouco em P & D, preferindo comprar soluções prontas. Adota-se uma perspectiva imediatista, de curto prazo, e por isso, em algumas áreas, andamos para trás e ficamos toda hora pedindo pro Governo proteger nossos produtos da concorrência externa. Empresários choramingam o tempo todo, buscando acomodar-se sob as asas das autoridades que, muitas vezes, pressionados pelas chantagens (demissão em massa de trabalhadores) cedem a setores gananciosas (as montadoras são um bom exemplo disso e tivemos atrasos terriveis na área da informática/computação por conta deste equivocado sistema protecionista). O prof. David Kupfer, da UFRJ, constatou que entre mais de 100 mil empresas, objeto de pesquisa, apenas 4,2% realizaram atividades internas de P & D em 2008 (reportagem publicada pelo Valor, 05/01/2011,p. A14), o que, mesmo querendo ser patriotas, nos enche de vergonha.
Em terceiro lugar, porque a estrutura burocrática do INPI é de doer e, segundo estatísticas atuais, há mais de 150 mil pendências em termos de análise de patentes porque o instituto não tem condições de analisar os processos. Segundo o diretor de administração de serviços do INPI, Julio de Oliveira, em entrevista publicada na Folha de S. Paulo (02/01/2011, p.B1), o instituto está processando pedidos feitos em 2002. Belo atraso, hein?
Finalmente porque, apesar do discurso, não há uma política efetiva (o papel aceita tudo e as autoridades falam, escrevem muito, mas na prática com os entraves burocráticos, pouco acontece para alterar o cenário) e os governantes preferem mascarar a realidade, sentindo-se certamente com culpa no cartório.
O presidente da FINEP, Luiz Fernandes, por exemplo, na mesma reportagem do Valor aqui citada, destoando do resto do texto, acha que a taxa de inovação no Brasil não pode ser desprezada, que tem crescido, e cita alguns dados pontuais para justificar o seu otimismo.
Mas nada disso convence porque, no fundo, o número de patentes indica que, apesar do discurso e de ações isoladas, estamos avançando pouco, quase nada para uma economia tão pujante como a nossa. Empresários e estudiosos reconhecem que há falta de estímulo e que, fora da Academia, o progresso nesta área é realmente pequeno. Como vimos, estamos é andando para trás, comparativamente, e não adianta apenas considerarmos números absolutos porque, porcentualmente, estamos perdendo terreno no mercado mundial de inovação. É verdade que o BNDES possui mecanismos de fomento para a inovação, mas eles , ao que parecem, não estão surtindo o efeito desejado e é preciso analisar friamente a questão em vez de insistir num discurso vazio, com poucos resultados concretos.
Sabemos que temos uma falta enorme de pessoal especializado (engenheiros e técnicos, notadamente em algumas áreas) e que a ausência dessa massa crítica compromete o nosso desenvolvimento e nos torna reféns de outros países que, agressivamente e de forma competitiva, nos empurram soluções nem sempre exatamente adaptadas à nossa realidade.
E não vamos culpar os nossos cientistas porque eles dão um duro danado, são em geral idealistas, contornam situações terríveis nos laboratórios das universidades e institutos de pesquisa, ganham baixos salários, têm dificuldade em dar sequência aos seus projetos em virtude de legislação inadequada, falta de continuidade da política governamental e do jogo político que atrapalha o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Há uma esperança depositada na gestão do Aloizio Mercadante que assumiu, com o Governo Dilma, o ministério da Ciência e da Tecnologia, mas todo mundo sabe que uma andorinha só não faz verão e que é preciso mudar uma mentalidade que está sedimentada nos corredores palacianos, no Congresso etc e que compromete o investimento permanente em C & T, independe de ministros, políticos e de lobbies das corporações (a indústria farmacêutica tem o discurso contrário à inovação no Brasil e você se lembra do dr. Dráuzio que, no Fantástico, tentou ridicularizar a pesquisa com fitoterápicos?).
Mercadante defende, inclusive, a tese de que a FINEP deva se transformar em instituição financeira visando aumentar a sua capacidade de financiamento, mas nem sempre (a gente conhece esse filme) associar finanças (com exigências de retorno a curto prazo) com pesquisa (que exige tempo de maturação) acaba dando bons resultados.
No fundo, o próprio Mercadante reconhece que o buraco é mais embaixo e que soluções parciais não vão atacar o problema de frente. Sabe, por exemplo, que na votação do orçamento de 2011 os parlamentares meteram a mão no dinheiro da ciência para subsidiar projetos de interesse pessoal ou de seus territórios políticos. Desse jeito, não dá mesmo, e não há política ou boa intenção que chegue a lugar algum, se não houver uma visão comprometida com o médio e longo prazos e com o interesse do País.
O bom disso tudo é que, com os dados recentes sobre a taxa de inovação brasileira e nossa posição comparativa no panorama mundial, a situação fica mais clara, o que exige medidas imediatas e tomada de decisões por parte do Governo.
Quem sabe desta vez (vamos saborear uma dose de otimismo neste início de ano?) a ciência e a tecnologia ganham maior prioridade no Governo e damos um salto importante para vencermos as desvantagens comparativas que outros países nos têm imposto.
Mas, como dizia Vandré nos tempos nefastos da ditadura, esperar não é saber, é preciso acontecer. Só nos resta cobrar, denunciar as omissões e os desvios, e pedir providências.
O que não pode acontecer (mas vai ou não vai acontecer?) é as prioridades estarem centradas em construir estádios (alguns serão verdadeiros elefantes brancos, ou você duvida disso?) para a Copa do Mundo e não em construir um país para o futuro. Para que isso se concretize, a ciência e a tecnologia têm que ser encaradas de outra forma.
Vamos dar um voto de confiança para o Mercadante?
Em tempo: este é o meu artigo de número 150 no Portal Imprensa e me orgulho de ter alcançado esta marca. Só tenho que agradecer os colegas do Portal que têm permitido minha livre expressão ao longo destes anos todos e reunir forças para os próximos 150 artigos. Sei que muitas pessoas (governantes, parlamentares, colegas jornalistas e da Academia e sobretudo muitas empresas ou setores - agroquímicas, do tabaco, de biotecnologia, laboratórios farmacêuticos, de papel e celulose, mineradoras etc - se sentiram incomodadas com as minhas observações, mas, quando boto o dedo na ferido, tenho mesmo esta intenção. Não me proponho, muito pelo contrário, a deixá-las na zona de conforto enquanto sacaneiam os cidadãos e o país. Não se pode viver tranquilamente enquanto se materializam a degradação do meio ambiente, da saúde, da ética e outras coisitas mais. Como dizia o velho professor Paulo Freire, não podemos perder nunca a capacidade de nos indignarmos com as injustiças. Ou como preferia meus avós: quem curva a espinha, deixa o traseiro à mostra. E é um perigo deixá-lo exposto assim nos dias de hoje. Como se diz lá na minha querida Ribeirão, comigo não! Melhor ser chamado de radical (que tem raiz) que de babaca. Ou citando José Simão, quem fica parado é poste!






