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"A influência da internet é uma discussão constante nas redações", afirma Dib Carneiro, editor do Caderno 2, do Estadão

"A influência da internet é uma discussão constante nas redações", afirma Dib Carneiro, editor do Caderno 2, do Estadão

Atualizado em 30/08/2007 às 11:08, por Nathália Duarte / Redação Portal IMPRENSA.

"A influência da internet é uma discussão constante nas redações", afirma Dib Carneiro, editor do Caderno 2, do Estadão

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Editor do Caderno 2, do jornal O Estado de S.Paulo , Dib Carneiro tem 43 anos e é jornalista formado pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Um caso curioso, Dib não cursou nenhuma especialização depois de formado, mas investiu desde a faculdade na formação de sua experiência profissional. Ainda como estudante, o jornalista trabalhou na Gazeta de Pinheiros e foi justamente neste veículo, onde ficou por sete anos, que descobriu seu talento para lidar com cultura.

Com passagens por grandes veículos como a Revista Veja (onde foi editor da seção Roteiro, da Veja São Paulo), Dib Carneiro está há 14 anos no Estadão e há cerca de três anos e meio ocupa o cargo de editor. À frente de uma equipe formada por 15 jornalistas "do mais alto padrão", Dib garante que "o jornalismo da área cultural é uma loucura". Segundo ele, não é apenas uma diversão ir ao teatro e ler livros, "nós estamos 24 horas pensando na pauta e a família acaba inclusive acompanhando, uma família cultural", conta.

Em um bate-papo descontraído, Dib Carneiro conta ao Portal IMPRENSA detalhes da rotina do jornalismo diário e fala de suas expectativas e desafios para lidar com o avanço da internet no exercício da profissão.

IMPRENSA - Como é a rotina de trabalho no Caderno 2?
Dib Carneiro
- Como caderno, o Caderno 2 é o primeiro a fechar: às 14h30. Então, não podemos deixar para fazer toda a edição de manhã porque não dá tempo. A rotina do Caderno 2 começa, portanto, no dia anterior. Quando fechamos uma edição às 14h30, toda a equipe sobe correndo para almoçar (o restaurante do jornal fecha as 15h) e assim que voltamos começa o planejamento. Decidimos o que será capa, pensamos nas pautas e já riscamos as páginas com o diagramador para que o repórter escreva sua matéria direto na página. No final do dia, o jornal já está praticamente pronto, faltando apenas acertarmos alguns detalhes que serão finalizados na manhã do dia seguinte.


Além dessa organização, toda segunda-feira existe uma reunião de pauta, às 17h, em que planejamos as edições da semana inteira. Decidimos os eventos que vamos cobrir, as capas de cada dia da semana, tudo! A equipe já é relativamente setorizada, mas são pessoas gabaritadas para fazer tudo, sempre que houver necessidade.
Quando acontece de chegar pela manhã alguma coisa importante na nossa área muda tudo, e nossa manhã é muito mais corrida.

IMPRENSA - Os repórteres têm autonomia para sugerir e executar pautas?
Dib -
Têm. E eles têm autonomia porque eu considero importante que o repórter sinta que ele tem a confiança do editor. Quando isso acontece, a responsabilidade dele também aumenta e como eu lido com uma equipe muito boa, com alguns repórteres aqui há mais de dez anos, são pessoas que já têm toda a preparação para saber o que é preciso fazer e o que realmente vale, então eles têm muita autonomia e acho importante dizer isso porque fica até mais fácil editar um caderno que já tem uma estrutura desse nível. É claro que tudo é conversado comigo dentro e fora das reuniões, porque eu estou aqui o tempo todo, mas eles são pessoas capazes e estimulados a pensar a pauta desde o início e trabalhar em cima dela.

IMPRENSA - Os eventos escolhidos para a cobertura do Caderno 2 têm alguma relação com sua popularidade?
Dib -
Não tem necessariamente uma relação. O Caderno 2 tem justamente essa cara, essa reputação de ser um caderno que vai fundo nas escolhas que faz e que serve de termômetro para o que acontece no mundo das artes e da cultura em geral no país inteiro, então nossa preocupação é ser abrangente: por um lado contemplar o que é popular dando um tom mais aprofundado e de conteúdo diferenciado, e ao mesmo tempo descobrir coisas novas. O Caderno 2 tem muito essa preocupação: estar antenado em tudo o que acontece em termos de cultura no país inteiro.

IMPRENSA - Qual a principal sugestão dos leitores sobre o conteúdo do Caderno 2?
Dib -
Tudo que eu recebo de comentários e sugestões é transmitido para a equipe para discutirmos o feedback, inclusive críticas. O que os leitores mais nos pedem são matérias sobre cinema. Acho que isso é normal porque cinema é um programa mais massificado, as pessoas querem ir ao cinema, é mais barato, tem um cinema em cada shopping, e, além disso, o Caderno 2 também tem essa tradição de cobrir muito bem o cinema, nós temos grandes jornalistas que são extremamente respeitados e conceituados na área.

IMPRENSA - Nesses 14 anos trabalhando no Caderno 2, qual a principal diferença que você destacaria sobre o mercado cultural no país?
Dib -
Eu percebo, e isso é visível a qualquer um, que hoje tem muito mais oferta de tudo. Então, fazer o Caderno 2 há dez era muito diferente. Hoje nós temos uma infinidade de coisas em cartaz e coisas acontecendo. É uma angústia, enquanto jornalista da área cultural, termos tantos lançamentos de livros, tantos eventos, tantas peças em cartaz e não conseguirmos organizar a agenda para acompanhar tudo isso. É preciso deixar de lado muita coisa que mereceria atenção porque não é possível estar em todos os lugares.
Além disso, há uma crise de papel no país inteiro então, enquanto temos muito mais coisas para contemplar, o espaço que temos no jornal é cada vez menor.

IMPRENSA - Como é a relação do jornalismo que se faz no Caderno 2 com a infinidade de releases que as redações recebem de assessorias de imprensa?
Dib -
Como toda atividade, a assessoria de imprensa tens bons, médios e maus profissionais, então chega muita coisa desnivelada aqui. A orientação que damos aos repórteres é avaliar o que é bom e não ficar amarrado às pautas de assessoria e nem de agenda cultural, e isso é uma ladainha semanal na minha reunião de pauta. O desafio é descobrir coisas novas.

A gente não pode abrir mão das pautas de assessoria. Um caderno como o nosso não viveria sem o trabalho das assessorias. Tem tanta coisa, que o filtro do assessor é fundamental, então seria um erro menosprezar o trabalho das assessorias de imprensa, mas, ao mesmo tempo, é preciso saber lidar com isso e não ficar escravo desse trabalho. Esse é um desafio diário do caderno e tem dia que não conseguimos escapar.

IMPRENSA - Qual você considera que seja o principal diferencial do Caderno 2 se comparado com os demais cadernos culturais produzidos pelo país?
Dib -
O Caderno 2 é o mais bem preparado para aprofundar as pautas, para não ficar só no raso e em agendas culturais, e isso por causa da equipe que foi montada e mantida regular em qualidade, talento e competência. Nosso diferencial é a equipe. Temos repórteres referenciais em qualquer uma das áreas culturais que você pensar. Aqui estão os melhores repórteres e isso não sou eu que estou falando, isso é perceptível e é o que temos de feedback dos mais variados leitores e formadores de opinião. Por isso é que o Caderno 2 tem a fama de ser o melhor caderno cultural do país.

IMPRENSA - Existe uma maior preocupação com a linguagem, no sentido de sair do padrão pré-determinado pelos manuais de redação e buscar influências mais literárias?
Dib -
Existe. O Caderno 2 é, em todo o jornal, a editorial que mais tem condições e liberdade para fazer isso. Um lead mais trabalhado e não só o lead, mas o texto de maneira geral. Isso é até cobrado da gente porque não somos uma editoria que lida com o furo, ou seja, há tempo para trabalhar melhor as pautas e toda a força tem que estar justamente na reportagem bem feita e em um texto bem escrito. Aqui isso é tranqüilo justamente por essa equipe já tradicional, que é gabaritada, que tem um texto diferenciado dentro da imprensa brasileira. Mas, realmente há essa preocupação.

IMPRENSA - Muito se fala sobre o possível fim dos jornais impressos, que sofre com o espaço ocupado pela internet no exercício do jornalismo. Por outro lado, há quem diga que o jornal não vai desaparecer, mas vai se tornar mais analítico e aprofundado, e menos factual. Você acha que essa é mesmo uma tendência? Como o Estadão está lidando com isso?
Dib -
Está sendo um grande aprendizado para nós todos das Redações, aprender a conviver com o advento do tempo real na notícia de internet. E ao mesmo tempo que nós temos que pensar no que vai acontecer com o jornal impresso, nós temos, na própria redação, a internet, o site de cada jornal, então você tem que competir com você mesmo.
No caso do Caderno 2, nós já saímos com uma vantagem se compararmos nosso trabalho ao de outras editorias porque já temos a característica de sermos mais analíticos do que factuais. Talvez nessa procura por um novo caminho os cadernos culturais sejam os mais preparados, mas existe essa preocupação.


Ninguém aqui acha que vai acabar o jornal impresso porque é uma forma de fazer jornalismo que não acaba de uma hora pra outra, mas a influência da internet é uma discussão constante nas redações. Em todas as nossas reuniões o tema aparece e há pessoas que vêm especificamente para conversar com a equipe sobre isso. Nós estamos participando de um movimento interno para trazer convidados e editores para debater e pensar o Estadâo do futuro, mas esse ainda é um terreno a ser explorado!