"A infiltração é uma ferramenta que deve ser usada com cautela", diz Raphael Gomide

"A infiltração é uma ferramenta que deve ser usada com cautela", diz Raphael Gomide

Atualizado em 19/11/2008 às 19:11, por Cristina Palmeira/Colaboração para o Portal IMPRENSA e  de Paris.

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Trabalhar incógnito pode ser uma vantagem para o jornalista ou um risco para sua segurança. No caso do repórter Raphael Gomide, da sucursal carioca da Folha de S.Paulo , a tática lhe rendeu um prêmio internacional, com uma matéria sobre a Policia Militar carioca.

"A infiltração é uma ferramenta que a gente tem, mas deve ser usada com muita parcimônia", alerta o jornalista que está na França, onde recebeu o prêmio Lorenzo Natali concedido pela Comissão Européia, na categoria América Latina e Caribe.

Gomide conta que teve a idéia de fazer a reportagem após ler o livro de Celso Castro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), sobre o treinamento militar na academia das Agulhas Negras. Ele associou o relato ao fato de a policia do Rio de Janeiro ser a mais violenta do país. Assim nasceu a reportagem "O infiltrado: a PM por dentro", publicada em maio.

Para ingressar na corporação, ele prestou concurso e passou por uma seleção que durou sete meses. Em paralelo, o serviço de inteligência fez uma pesquisa social sobre Gomide e nem mesmo a informação de que o jovem era um jornalista conhecido chamou atenção dos agentes. O repórter reconhece que isso foi um erro do serviço de inteligência mas pondera que eram 2000 mil candidatos no processo de seleção.

A fase seguinte foi a do treinamento, enquadrado nos preceitos militares, com exercícios físicos, aulas de legítima de defesa e de direitos humanos. Gomide não continuou sua investigação por dois motivos essenciais: sua segurança e o receio de ser descoberto. Ele salienta que hoje em dia, os policiais também são alvos da violência - 151 deles morreram no Rio no ano passado. Some-se a isso, o temor de ser desmascarado. No segundo mês de treinamento, ele seria destacado para atuar no carnaval - evento coberto por centenas de "coleginhas". Se um deles reconhecesse Gomide, seu "disfarce" cairia por terra.

Graças à sua audácia, ele entrou no coração do treinamento dos policiais e pôde relatar as técnicas de formação dos soldados. O jornalista revela que os instrutores dão as astúcias, por exemplo, de como transformar um tiro pelas costas em um ato de legitima defesa e conta que alguns recrutas preferem eliminar um criminoso a prendê-lo. Ao trabalhar incógnito ele pode ter acesso a declarações que dificilmente obteria se tivesse se apresentado como repórter.

Mas manter o disfarce não era uma tarefa fácil, pois até mesmo os demais colegas se surpreendiam com o fato de que um jovem morador da Zona Sul do Rio estivesse na policia. Gomide saia pela tangente e dizia apenas que era por pura vocação.

No dia seguinte à publicação da matéria, a policia rondou o prédio no qual Gomide morou e que à época era ocupado por sua família - que esteve à beira do pânico. Após contatar o vice-governador do Rio de Janeiro a intimidação cessou.

Gomide explica que a Folha de S.Paulo deu espaço para este tipo de investigação, mas reconhece que o tempo é escasso e que precisou de três meses para transformar o material bruto (50 paginas de Word) em reportagem. Afinal, pouco depois de abandonar o treinamento da policia ele voltou às pautas diárias da sucursal carioca.

O repórter, com nove anos de experiência, considera que, no Brasil, receber um prêmio é um fato importante durante uma semana, depois, os coleginhas esquecem, e é preciso provar, diariamente, a qualidade do seu trabalho. Além da Comissão Européia, Gomide já foi laureado pela Anistia Internacional e recebeu três outros prêmios nacionais.

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