A incrível história de Marc L***

A incrível história de Marc L***

Atualizado em 23/01/2009 às 14:01, por Rodrigo Manzano.

Imagine: você acorda, liga a cafeteira, busca os jornais e revistas do dia na porta de seu apartamento, escova os dentes e, enquanto toma a primeira caneca de café amargo, encontra uma reportagem de duas páginas sobre você, sem que repórter algum tivesse se comunicado, feito perguntas, solicitado qualquer tipo de autorização para isso. Ainda sonolento, supõe estar dentro de um pesadelo. Na reportagem, estão descritos seus hábitos cotidianos, suas viagens, seus romances, seus pedidos de emprego, seu passado juvenil, a descrição do apartamento onde mora e dos lugares onde já viveu. Avança um pouco mais, encontra detalhes sobre sua empresa, sobre as atividades profissionais que desenvolveu. Até as belas pernas e os seios pequenos de sua ex-namorada estão lá no artigo de duas páginas. Então você percebe: está desperto e o pesadelo prossegue.

Nada de surrealismo fantástico, teoria conspiratória, ficção científica. O francês Marc, um arquiteto de 29 anos, viveu algo muito próximo a isso. A revista , projeto editorial muito interessante, independente de publicidade e distribuída alternativamente em quiosques e livrarias francesas, elaborou um perfil de Marc utilizando-se, para isso, apenas informações públicas disponíveis na internet, em redes de relacionamento, em álbuns de fotografia, em fóruns, comunidades etc. O ponto de partida para a apuração foi o Google. Marc, até então um anônimo cidadão conectado, foi avisado por um amigo que havia um artigo sobre ele na revista. E não apenas sobre ele, mas sobre seus hábitos, suas andanças, o estágio que fez em um escritório de design de interiores, suas ex-namoradas. A reportagem sabia, ainda, o lugar onde morava, onde viviam também seus pais, e descreveu em minúcias um fim de tarde que ele teve na passagem de um mês pelo Canadá.

O ponto mais visível desta história, como bem indaga a blogueira , é o quanto estamos expostos na rede digital. Uma simples pesquisa no Google do nome de um heavy user de internet revela informações sobre ele que talvez, paradoxalmente, ele não expusesse em público. Mas o rastro está lá, acessível, como as pedrinhas brancas de João e Maria. Ou então como Funes, o Memorioso, de Jorge Luis Borges, recordava-se de tudo, a internet pode ser um poço sem fundo, onde repousam todas as memórias, pessoais e coletivas, as pequenas observações cotidianas, as fotos de momentos efêmeros (na era analógica, toda uma geração familiar não acumulava tantos retratos em seus álbuns de papel quanto uma adolescente de 15 anos as publica no Flickr em um ano), os deslizes dos quais adoraríamos nos esquecer, as declarações ligeiras, a bebedeira homérica. Nada escapa da prodigiosa memória digital. O Google, ele mesmo, ao tornar disponíveis de maneira integrada várias ferramentas, transformou nossa vida em uma tag cloud.

Um pouco mais adiante, outra questão merece ser discutida: qual é o limite real entre o público e privado na era digital. Sei que muitos já têm perguntado isso, de diversas maneiras e em diferentes situações. Mas atrevo-me a pensar que é urgente e necessário repensar a noção de privacidade; por um lado, para defender a própria internet dos arroubos de autoritarismo que podem surgir de mecanismos duvidosos de regulação. Por outro, também para garantir aos usuários de internet que as informações por ele publicadas ou apenas transmitidas via internet não sejam utilizadas contra ele mesmo. É inviável pensar nas noções clássicas de público e privado utilizando as referências no século passado. É como exigir num cortiço o código de conduta da corte da rainha Silvia. Não se trata de regular a informação disponível na web, mas de criar normas para o uso dessas informações. Eticamente, a Le Tigre poderia ser processada por danos morais pelo Marc, considerando que todas as informações estão publicadas, abertas e nenhuma delas foi acessada de maneira ilegal? Mas Marc pode se sentir demasiadamente exposto e se queixar, fazendo valer o seu direto a privacidade, porque a publicação massiva não era seu interesse ao tornar públicas as informações na internet? As regras valem para mim, para você e para sua mãe, mas valem para o governador? E para a mãe do governador? Uma declaração de amor de um pedreiro dirigida ao prefeito, com elogios sobre sua performance sexual, publicada em um site na internet, são públicas, privadas ou o quê? Que tal publivadas?

Tantas perguntas me levam a uma última questão, prometo. Enquanto a internet se transforma em uma represa infinita de informações pessoais, estamos atentos aos pequenos riachos que correm paralelos fora da web? O episódio Marc e Le Tigre me levou a procurar, a partir do Google, vários dos meus amigos de infância, professores tiranos, desafetos infantis, antigas testemunhas de meu passado. Não os encontrei. Como em um misterioso sequestro, desapareceram. Não deixaram pistas. Simplesmente não existem. Quantos, como eles, vivem a parte, isolados no mundo real? São seres de sorte.

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Para ler a incrível história de Marc, . A revista Le Tigre promete, para a edição de março/abril, um artigo sobre a repercussão e o debate que sua reportagem causou.