A imprensa não anda descendo redondo
A imprensa não anda descendo redondo
Estava no jornal de ontem ( Jornal da Tarde , 16/09, p. 5C): muitas mulheres estão fazendo um curso em São Paulo, patrocinado por uma cervejaria, para conhecer as maravilhas da bebida, aprender a degustá-la e ter informações sobre as vantagens de seu consumo freqüente. Com certeza, imagina a fabricante, elas poderão se constituir em multiplicadoras no futuro e, ao mesmo tempo, contribuir para o aumento do número de mulheres que apreciam a cerveja e que engordam os seus bolsos (no fundo, eles só pensam nisso).
Também estava no jornal de ontem ( O Estado de S. Paulo , 16/09, p.J7): quase 80% dos participantes de uma enquete sobre a proibição de venda de bebidas alcoólicas em postos de gasolina (as chamadas lojas de conveniência), decretada pelo prefeito César Maia (RJ), concordam com a restrição.
Está na mídia quase todos os dias: 1) assistimos a um número crescente de acidentes de trânsito, com vítimas fatais e seqüelas permanentes, provocados, direta ou indiretamente, pela ingestão de álcool; 2) o álcool é responsável pelo número relevante de faltas ao trabalho e pela redução da produtividade; 3) o álcool provoca brigas e violência na família brasileira e por prejuízos imensos ao Sistema de Saúde ( por exemplo, por parte significativa dos mais de 4 bilhões de reais gastos em procedimentos hospitalares de internações relacionadas ao uso de álcool e drogas entre 2002 e 2006); 4) os jovens estão adquirindo o vício da bebida cada vez mais cedo; 5) o consumo de álcool tem relação com o consumo de outras drogas e com a prática do sexo não seguro.
O problema é tão sério que o governo recentemente lançou uma Política Nacional sobre Bebidas Alcoólicas que prevê, entre outras coisas, a regulamentação, o monitoramento e a fiscalização da propaganda e publicidade de bebidas alcoólicas.
As restrições à propaganda de bebidas (limitação de horários, indicação dos males causados pelo vício de beber etc) evidentemente são recusadas pelos fabricantes, pelas agências de propaganda e por parcela considerável dos veículos que alegam que a medida é ineficaz. Cinicamente, estão interessados, cada um deles, em proteger os seus lucros e, para isso, qualquer argumento é válido. É ilustrativo perceber que os que se postam contra as restrições são exatamente veículos e profissionais que participam do bolo da receita publicitária derivada das campanhas de bebidas. Em nome da liberdade de expressão, que eles na verdade nem cogitam respeitar, defendem o direito de entrar porta a dentro das residências brasileiras para vender drogas ainda que lícitas em horário nobre. Publicitários, de prestígio ou não, desfilam na mídia especializada seu discurso inconseqüente e contraditório, forçando a reação imediata dos que sabem pensar: afinal de contas, se a propaganda não estimula o consumo por que os anunciantes gastam tanto dinheiro com ela? Será que os planejadores de mídia andam bêbados?
Parcela representativa da mídia nacional certamente não anda fazendo as coisas direito e, por razões meramente comerciais ou por falta de conscientização, afronta o interesse público. Definitivamente, abre mão de sua responsabilidade social toda vez que faz a apologia da cachaça brasileira (há reportagens que dão até ressaca!), do consumo de bebidas alcoólicas em geral e se insurge contra a tentativa correta e necessária de disciplinar a veiculação da propaganda que estimula o consumo.
A imprensa não pode dar as costas à sociedade (que já se manifestou a favor da restrição da propaganda) e continuar fazendo o jogo dos fabricantes, apostando na ética bêbada do Zeca Pagodinho, personagem bem remunerado que protagonizou recentemente um dos episódios mais deprimentes da propaganda brasileira.
O Governo (que reclama da mídia quase sempre sem razão) desta vez pode fazer o que a sociedade espera: coibir abusos, enquadrar anunciantes inescrupulosos, dizer não à ganância de agências e veículos que não conseguem enxergar além do cofre.
É triste, mas vale a pena repetir parte da reportagem do Jornal da Tarde de ontem, quando o repórter (lúcido?) fazia a provocação: " se no Brasil o consumo de cerveja por pessoa no ano é de 51,2 litros, na República Tcheca ele passa de 168 litros. Que vergonha dos bebedores do Brasil. Será que as mulheres teriam que tomar a frente desta maratona pra reverter a situação?"
Certamente, o colega jornalista vai alegar que estava apenas brincando, ainda que a gente imagine que há temas e propostas editoriais que não são adequadas e que merecem maior atenção. Talvez, pela sua adesão entusiasmada ao consumo do álcool sem controle, possa ser convidado para assumir a assessoria de imprensa de uma cervejaria, o que certamente representará uma remuneração maior do que a que percebe no jornal. Ou uma viagem para Bavária "a convite de", prática cada vez mais usual na imprensa brasileira que anda jogando a dependência das fontes e dos anunciantes goela abaixo.
A cerveja, o chopp ou o vinho não devem ser estimagtizados em função do comportamento irresponsável de anunciantes, agências, veículos e profissionais. Num país tropical certos hábitos são justificáveis e apreciados, mas é preciso que a mídia cumpra um papel responsável na formação de consumidores conscientes. Crianças estimuladas a beber aos 12 anos se enquadram nesta categoria?
A propaganda de bebidas alcoólicas não pode ser controlada apenas pelos órgãos de regulamentação das agências, assim como as de automóveis (que continuam voando baixo nos comerciais e dando mau exemplo aos jovens) ou de medicamentos (quantas infrações à ética, não é mesmo dona Anvisa?).
A propaganda de bebidas costuma vender coxas, seios e traseiros, reforçando a idéia ultrapassada da mulher-objeto. Alguns fabricantes, que embriagam os jovens, doam bafômetros para a polícia para que apanhem os que acreditaram nas suas mensagens e beberam à vontade (que hipocrisia enorme!). Promovem shows onde a bebida alcoólica não é a única droga que rola solta para a galera. E querem continuar fazendo a mesma coisa ou pior hoje e no futuro. A liberdade de expressão não pode ser pretexto para a hipocrisia social. Uma imprensa sóbria não fica por aí cruzando as pernas, não define pautas em mesa de boteco. Contra os abusos da propaganda, deve agir sem moderação.






