A imprensa brasileira e o golpe branco - Por Augusto C. Buonicore

A imprensa brasileira e o golpe branco - Por Augusto C. Buonicore

Atualizado em 20/06/2005 às 15:06, por Augusto C. Buonicore - historiador e editoralista da revista.

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Artigo publicado originalmente no site www.vermelho.org.br

Parece que nestes últimos dias o grupo Folha teve uma recaída golpista e reviveu seus momentos mais sombrios, quando chegou participar ativamente do complô para desestabilizar e derrubar dois presidentes constitucionais: Getúlio Vargas e João Goulart. Lembremos que num passado não muito distante, os furgões da Folha da Tarde adquiriram a notória fama ao transportar presos políticos para sessões de tortura nos porões do DOI-Codi. Nos estertores do regime militar, a Folha de São Paulo fez sua "conversão" democrática, mas agora parece novamente mudar de rumo e, ao lado de uma revista fascistóide inominável, procura reassumir seu antigo papel de desestabizadora de governos democráticos e populares. A primeira de suas vítimas foi o ministro da Casa Civil, José Dirceu.

É notório que a tentativa de desgaste político do governo, promovido pelas elites conservadoras, tem como objetivo de médio prazo garantir a vitória eleitoral da aliança PSDB-PFL e, à curto prazo, encurralar e domesticar o governo, fortalecendo nele sua ala mais conservadora capitaneada pelo ministro do Planejamento Antônio Palocci e pelo presidente do Banco Central Henrique Meirelles.

Os sucessivos editoriais da Folha são bastante claros neste sentido. No mais ousado deles, que foi para a primeira página, exigiu-se uma reforma política que impedisse "a proliferação de agremiações de aluguel" (ou seja, que restringisse a existência de pequenos partidos), a proibição de coligações proporcionais e apregoou-se a manutenção do financiamento privado das campanhas eleitorais; contra a exclusividade do financiamento público. Por fim, o programa econômico apresentado propunha a retomada das privatizações, que decerto incluiria os Correios (um dos pivôs da crise política). Todo este programa conservador é revestido de uma retórica liberal-democrática. Tudo em nome da "racionalidade", da "elevação do padrão ético" e do "controle democrático".

Nestes dois últimos anos, entre outras coisas, o jornal buscou vender a idéia de que o PT havia realizado um verdadeiro assalto à máquina pública. Como se não fosse praxe na política brasileira os partidos no poder indicarem pessoas de confiança para os cargos que são de confiança - aqui a redundância é proposital. Nos governos conservadores a negociação de cargos, em troca de apoio político, seria algo norma e aceitável, mas nos governos de esquerda seria uma aberração. De um lado acusa-se o PT de querer monopolizar os cargos - e de ir com muita "sede ao pote" - de outro, de abrir a máquina estatal para partidos de perfil mais conservador. No linguajar preconceituoso do jornal os aliados petistas seriam sempre apaniguados.

Para justificar suas teses é obrigada a fazer uma leitura distorcida dos fatos que ela mesma apresenta. A Folha, por exemplo, anunciou estarrecida que o governo criou 19 mil cargos, dos quais 3.300 poderiam ser ocupados sem concursos públicos. Sob outra ótica - mais adequada aos fatos - poderíamos dizer que o governo criou 16.700 cargos, que somente poderão ser ocupados através de concurso público. Neste caso houve um fortalecimento da máquina pública e uma redução da possibilidade do fisiologismo. Verdadeiros crimes para os neoliberais declarados ou enrustidos.

Jefferson o paladino da moralidade

Quando surgiu o "caso do mensalão" a crise aberta com o escândalo dos Correios parecia já caminhar para seu final. Era visível que a imagem do governo e do presidente não havia se desgastado, como pretendia a oposição conservadora. Lula continuava sendo apontado como um candidato imbatível na próxima eleição presidencial.

Jefferson soube escolher bem o momento e o órgão de imprensa a qual dar sua entrevista bomba. A revista Veja estava por demais desacreditava por seu oposionismo hidrófobo e O Globo por que sabia que não lhe daria a guarida esperada. A Folha, por sua suposta independência e influência nas classes médias "esclarecidas", parecia o instrumento ideal através do qual poderia dar curso ao seu plano diversionista. O réu confesso virava acusador indomável. O político - considerado corrupto e fisiológico por toda imprensa liberal - passou a ser digno de todo crédito. Manchetes sensacionalistas foram dadas para que pudesse atacar indiscriminadamente personalidades da República sem nenhuma prova. Isto parecia um detalhe menor. Enfim a pior política se juntava ao pior jornalismo.

A Folha de São Paulo tratou as acusações de Jefferson como verdadeiras - procurou intimidar os que tentavam desqualificar o acusador - e iniciou um verdadeiro linchamento político dos principais quadros do Partido dos Trabalhadores. Os alvos de Jefferson - e das elites conservadoras - eram claros: José Dirceu e José Genoíno. Desde o início do governo os ataques a eles tinham por objetivo enfraquecê-los diante da "dupla dinâmica" da ortodoxia neoliberal no governo: Palocci e Meirelles. Setores da esquerda não conseguiram ver as contradições e as disputas existentes no interior do governo, mas a direita compreendeu perfeitamente o que se passava e concentrou fogo naqueles que consideravam entraves a seu projeto.

A pressão conservadora ainda não acabou. A CPI ainda poderá lhe render muitos frutos. A Folha - utilizando-se de termo cunhado pelo PFL - chamou-a num editorial de "CPI chapa-branca", porque a maioria elegeu como presidente e relator parlamentares não comprometidos com o golpe branco. A indicação de algum furibundo pefelista agradaria mais o diário liberal paulista. Para ele somente a CPI nas mãos da oposição neoliberal poderia ser dar resultados e apurar os fatos com maior isenção. Lembramos que quando era oposição a esquerda jamais presidiu ou relatou qualquer CPI contra o governo FHC - não presidiu até porque nem conseguiu instaurá-las.

A meta é isolar e derrotar o governo Lula

O isolamento do governo em relação a seus aliados de centro é um dos grandes objetivos da direita neoliberal brasileira. Ela sabe que o afastamento do PL, do PMDB, do PTB e do PP da base de sustentação política do governo significaria aumentar enormemente os riscos de ingovernabilidade e impossibilitaria uma vitória eleitoral em 2006. A posição da Folha neste sentido também é exemplar. Ela sempre criticou a política de alianças para o centro, recentemente adotada pelo PT e defendida por Dirceu e Genoino.

A Folha, ao mesmo tempo, que aplaudiu a demissão de Dirceu, criticou uma possível entrada do PMDB no governo. Este partido foi taxado em editorial de "verdadeiro condomínio fisiológico de agrupamentos políticos". A própria idéia de se convidar personalidades de peso da sociedade civil para que compusessem o governo foi apresentada como algo que lembrava "o famoso ministério ético de Fernando Collor de Mello". Esta comparação esdrúxula não parece casual.

No auge da crise como de praxe, rapidamente, foi providenciada uma pesquisa para medir o estrago causado. Mas, mais uma vez, os resultados foram decepcionantes ... para as elites. A popularidade do presidente continuava alta, conhecendo apenas uma ligeira queda. Lula continuava derrotando todos os adversários num possível segundo turno. Parafraseando o próprio povo brasileiro na gloriosa campanha das diretas podemos dizer: "o povo não é trouxa, fora o grupo Folha".

O jornal diante de uma pesquisa inquestionável - realizada por ele próprio - se vê obrigado tergiversar vergonhosamente e não reconhecer sua irresponsabilidade diante da nação e sua falta de ética. Afirmou em editorial: "Uma hipótese [hipótese???] é que, na ausência de provas, e tendo em vista a biografia do denunciante e a do primeiro mandatário - que não sofreu nenhuma acusação direta -, o caso não tenha propiciado juízo conclusivo [juízo conclusivo???] acerca do comportamento do governo". O problema é que o povo brasileiro sabe, por experiência própria, que não se deve acusar ninguém sem provas e diferencia o joio (o caluniador) do trigo (o caluniado).

A não comprovação das denúncias apresentadas por Roberto Jefferson levará que a Folha de São Paulo conheça um grande abalo no que ainda lhe resta de credibilidade junto aos setores democráticos e progressistas da sociedade paulista e brasileira.

O governo, a esquerda e as alternativas

Diante desse momento difícil setores esquerdistas entraram de cabeça no perigoso jogo dos golpistas e somaram suas forças as do PSDB e PFL. Acabaram dirigindo seus ataques mais duros ao pólo mudancista do governo, fragilizado por inúmeras denúncias. Com jubilo os parlamentares do PSOL receberam a notícia da queda de Dirceu. Suas declarações não foram de líderes políticos comprometidos com os interesses maiores do povo e da nação brasileira, mas de pessoas ressentidas. Faltou-lhes grandeza de espírito. Falaram até na possibilidade de cassar Zé Dirceu - coisa que nem a imprensa e os deputados conservadores ainda cogitavam, pelo menos publicamente. Não será de se admirar a formação de uma Santa Aliança, vanguardeada pelo PFL e o PSOL, contra o governo e as principais lideranças do PT.

O assanhamento dos setores reacionários da sociedade contra o governo Lula e o PT revelam o tamanho do erro que este setor está cometendo. Afinal, se o atual governo está aplicando o projeto neoliberal melhor que FHC, por que esta gritaria conservadora? O que quer a direita pró-imperialista com esta crise? Na luta política - expressão maior da luta de classes - é preciso ter sempre muito claro quais são os inimigos principais e como eles se posicionam no campo de batalha. No confronto entre um governo democrático - por mais limitado que seja - e uma oposição direitista ávida para derrubá-lo não é possível vacilar.

No interior do PT também duas posições equivocadas podem emergir. A primeira é tirar como lição da crise política que foi um erro a decisão de compor um governo de frente - ou de coalizão - com partidos de centro. Portanto, seria preciso romper esta aliança e constituir um governo exclusivamente petista - no máximo incorporando, de maneira subordinada, os aliados tradicionais como o PCdoB e o PSB. Uma decisão desse tipo isolaria ainda mais o governo Lula e iria ao encontro dos interesses dos neoliberais mais empedernidos.

Outro erro fatal seria capitular diante das pressões conservadoras e conduzir o governo cada vez mais para posições conservadoras - resolvendo negativamente a disputa de projetos existentes no seu interior. A conciliação com o atraso se transformaria na capitulação ao atraso. O resultado seria manutenção das altas taxas de juros e do arrocho nas contas e nos investimento públicos. Isto acarretaria uma grande frustração popular e um esvaziamento político do governo. Portanto, os dois caminhos conduziriam a derrota de Lula e a inviabilização de qualquer caminho mudancista.

A alternativa mais conseqüente nesta conjuntura adversa passa pela ampliação e consolidação da base de sustentação política e parlamentar do governo - incorporando o PMDB, o PL, o PTB e o PP, e pelo fortalecimento da base de sustentação social. Para isso é preciso uma alteração substancial da política econômica e social do governo - com redução dos juros, investimento em infraestrutura e amplos programas e legislações de cunho social, incluindo a reforma agrária antilatifundiária e a redução de jornada de trabalho. O governo deve sair da defensiva e apresentar uma agenda positiva e ousada para a sociedade brasileira. É preciso reascender a esperança do povo que se encontra adormecida pelas incongruências do próprio governo. As pesquisas mostram que Lula ainda tem apoio político suficiente para mudar o curso dos acontecimentos. A hora é agora, amanhã talvez seja tarde demais.

A aplicação de uma política como esta - que envolve amplitude e radicalidade - poderá angariar amplo e ativo apoio popular ao governo e criar as condições ideais para uma ampla vitória eleitoral dos partidos aliados nas eleições de 2006. Mas não tenhamos ilusões. Esse cenário acirrará ainda mais sanha dos golpistas, patrocinada pelo imperialismo. Por isso grandes jornadas de lutas esperam o povo brasileiro, mas ele as travará em melhores condições do que hoje. Nas mãos do governo Lula repousa esta grave decisão.