"A imprensa alemã não leva o Brasil a sério", diz jornalista
Há mais de 20 anos trabalhando e morando no Brasil, o jornalista alemão Alexander Busch ainda mantém o sotaque. Entretanto, ao conversar comele percebe-se o quanto já se influenciou pela cultura do Brasil, país que Busch definitivamente não deixará.
Preocupado em mostrar para os alemães que o Brasil mudou há tempos e não se resume a praia, futebol, carnaval e mulher, Busch escreveu o livro "Brasil, país do presente", editado originalmente em alemão e depois publicado no Brasil. A obra é feita para alemães. Nela, Busch compartilha com seu país a apuração e a experiência adquirida nestes 20 anos por aqui. Na leitura ficam claros o otimismo e a intenção do correspondente de mudar a mentalidade do alemão em relação ao país. "Infelizmente, mesmo depois que o Brasil entrou na ordem do dia dos assuntos globais, os alemães ainda possuem resistência em relação ao país e com isso estão perdendo muitas oportunidades", lamenta.
De forma didática e com base em muitos personagens, Busch permeia importantes assuntos em relação ao país, de economia a ambiente, de política a educação. Entre as suas fontes estão nomes como Fernando Henrique Cardoso, Ivan Zurita, José Sérgio Gabrielli e vários empresários alemães, além de economistas, cientistas políticos, sociólogos e donas de casa. Enfim, uma série de fontes e depoimentos tentando mostrar um Brasil, que, segundo Busch, "é a oitava economia mundial e está prestes a se tornar uma potência mundial".
Em entrevista exclusiva ao Portal IMPRENSA, o jornalista fala de como surgiu a ideia de escrever o livro, critica seus colegas jornalistas que ainda são resistentes em falar do Brasil e destaca a atual crise dos periódicos na Alemanha.
Portal IMPRENSA - Depois de 20 anos cobrindo o Brasil, chegou a hora de registrar suas experiências?
Alexander Busch - Esse livro que eu faço questão de dizer que foi feito para alemães, mas reeditado no Brasil, foi uma forma de tentar explicar aos meus conterrâneos que o Brasil é uma nação promissora e que, a visão estereotipada que eles possuem daqui não condiz com a realidade. A ideia do livro surgiu na Copa da Alemanha, em 2008, lá o editor de um dos jornais para qual eu trabalho me provocou a escrever algo sobre o Brasil, o que me animou. E ele me apoiou bastante, fizemos um especial de um mês sobre o Brasil, levando diariamente um perfil de uma grande figura brasileira, pessoas como o Lula e o Gabrielli, por exemplo. Essas matérias me subsidiaram para contatar fontes para o livro.
IMPRENSA - Pelas contas, seu livro estava em andamento quando surgiu a crise mundial de 2008. Situação de incertezas, isso não fez com que você repensasse o papel do livro?
Busch - Eu comecei o livro logo depois a queda do Leman Brothers, o Brasil também estava mergulhado em uma baita crise desde 2003. Mas eu estava otimista, tinha certeza que essa crise ia passar. Mas essa situação dificultou ainda mais meu trabalho. Pois, se em uma situação de bonança já estava difícil chamar a atenção dos alemães, imagine em meio a crise. Mas eu fui em frente e acabou dando certo, logo depois, em 2009 vi que estava no caminho certo pois a The Economist deu aquela capa em que o Cristo Redentor decola.
IMPRENSA - Em relação à imprensa alemã, quais os principais problemas sobre a cobertura sobre o Brasil?
Busch - É basicamente falta de conhecimento. Principalmente na mídia. Claro que em muitos setores do empresariado e da política têm noção do que representa o Brasil, mas o público em geral não conhece o país. É claro que virou um lugar comum nas universidades alemãs falar dos BRIC´s, mas ainda falta muito para nossa imprensa dar atenção ao país. Já na política, por exemplo, existem bons avanços, em 2010, 50 delegações oficiais vieram ao Brasil. Antigamente vinha um ministro por ano e olha lá.
IMPRENSA - Quais são as principais dificuldades de seus colegas jornalistas em cobrir o país?
Busch - Da parte de meus colegas vejo muita resistência em mudar de opinião. E vejo que está muito difícil mudar tudo isso. É lamentável, mas a imagem do país do futebol e da praia persiste. Por outro lado, existem alguns fatores que fazem com que o Brasil não seja levado a sério, como a proximidade do país com Chávez e Almadinejad. Mas eles não levam em consideração que existe um Brasil sério, efervescente. Mas ainda é muito difícil para um alemão dar ao Brasil a importância que ele merece. Falam da Coreia do Sul, mas não do Brasil.
IMPRENSA - Pode apontar os principais equívocos?
Busch - São muitos estereótipos, isso eu acho até normal por ainda ser uma cultura distante dos alemães. Mas nos últimos anos surgiram tópicos relacionados a outros temas como economia, por exemplo, o tema do etanol, a discussão de deixar de produzir alimento para produzir combustível. Eu vejo que de certa forma existem lobbies aqui na Alemanha que de certa forma deixam um pouco tensa a relação com o Brasil, principalmente no que diz respeito a ambiente.
IMPRENSA - Saindo do livro e falando um pouco da imprensa na Alemanha?
Busch - O momento é muito complicado, estamos em um momento de intercâmbio do jornal impresso para o digital, nada diferente do que acontece no mundo. Na Alemanha, nenhum veículo, fora a revista Spiegel conseguiu ganhar dinheiro com internet. Essas empresas ainda não acharam caminho para ganhar dinheiro. Os jornais impressos mudaram de formatos tradicionais para tabloides e estão com menos texto, poucos anúncios. Está realmente muito difícil, os tempos mudaram.
IMPRENSA - O que lhe acrescentou a experiência do livro?
Busch - Eu acho que contribuiu para minha forma de escrever diariamente, já que em um livro, com tanta informação, você precisa fazer seleções e neste aspecto eu melhorei bastante.
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