"A imagem dos EUA ficou bastante arranhada", diz professor, sobre ataques de 11/9

Em entrevista exclusiva à IMPRENSA, o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, fez uma análise sócio-política do cenário após os ataques de 11 de setembro.

Atualizado em 25/08/2011 às 13:08, por Pamela Forti.

O professor comentou os prejuízos para a imagem dos Estados Unidos, a relação sobre o Oriente e as imprecisões cometidas pela imprensa em geral. A seguir, o primeiro trecho da entrevista, que será publicada em duas partes; o segundo trecho entra no ar nesta sexta-feira, dia 26. Arquivo pessoal :

IMPRENSA - Como ficou a imagem dos Estados Unidos após os ataques de 11 de setembro?

Nasser - De uma forma geral os EUA, obtiveram o apoio dos governos europeus. Houve plena adesão do mundo na sua alegada guerra contra o terror, especificamente no Afeganistão. Por outro lado, os EUA também viram sua imagem bastante arranhada, na medida que ao empreender essa luta contra o terrorismo, passaram a utilizar de métodos arbitrários contra os direitos humanos, como a tortura, prisões e detenções ilegais, e escutas telefônicas, sob a justificativa de empreender a guerra ao terror. Tudo isso desgastou muito a imagem dos EUA, principalmente perante a opinião pública mundial e em parte a opinião pública norte-americana, num segundo momento. Eu falo num segundo momento porque, apesar das críticas, o Bush acabou sendo reeleito, mas no final sua popularidade caiu demasiadamente. Então, eu diria que essa legitimidade foi parcial no mundo, e em algumas regiões principalmente. Agora no Oriente Médio, na África, e em boa parte da Ásia, houve um descrédito quase que absoluto em relação à ação dos EUA.

IMPRENSA - Como foi a atuação da imprensa na cobertura desse tema?

Nasser - Acho que ela teve um papel importante, mas se fôssemos fazer um balanço - estamos falando de forma bem genérica, e óbvio, não vamos englobar toda a imprensa - mas eu diria a grande imprensa internacional, incluindo aí a imprensa norte-americana, o Washington Post , o NYT , a imprensa européia, o El Pais e etc... Eu acho que eles se pautaram de duas formas. De um lado acredito que foram bastante complacentes com os EUA, no que se refere à guerra do Afeganistão e sobretudo quanto à guerra do Iraque. Eu lembro que jornalistas respeitados do NYT publicaram matérias dizendo que havia mesmo armas de destruição no Iraque, quase que cumprindo um papel de porta-voz oficial do governo norte-americano e depois veio todo o desmentir. Mas naquele momento a imprensa cumpriu um papel importante para os EUA, que, na verdade, dependia muito da opinião pública e do apoio do congresso pra autorizar o presidente a ir à guerra contra o Iraque, na medida em que não havia passado pela ONU .


IMPRENSA - A hegemonia dos EUA ficou abalada?

Nasser - Já está abalada. Se concebermos o que significa hegemonia, hegemonia diria que é uma dominação que tem um visto. É uma combinação de força e de consenso, de poder e de legitimidade. É preciso, para que um poder se torne hegemônico, que as pessoas tenham minimamente a crença que ele é correto. Se a gente pensar nisso, a hegemonia dos EUA está seriamente abalada. Porque embora ele seja o país mais poderoso militarmente do mundo, de um lado ele não consegue ainda dominar efetivamente os ataques no Afeganistão e no Iraque. E de outro lado, a opinião pública mundial cada vez mais descrente dos EUA. Então, sim, a hegemonia dos EUA está cada vez mais abalada. Seja por isso, seja pelos últimos fatores no que se refere à questão econômica e, mais efetivamente, financeira.

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