A ilusão da independência

A ilusão da independência

Atualizado em 30/10/2009 às 15:10, por Lucia Faria.

Quando alguém decide partir para carreira-solo e virar empresário tem o sonho de se livrar de certas agruras da vida de funcionário. Nunca quis ter meu próprio negócio, nem mesmo aquela pousada numa praia paradisíaca. Após rodar em um corte feito por uma grande empresa de comunicação - época em que todas as boas casas do ramo passavam o facão sem dó e muito menos piedade - fiquei um tempinho como freelancer. E um dia, sem aviso prévio a mim mesma, resolvi arriscar. Posso dizer que hoje me sinto tão funcionária quanto antes. A vida de empresária é uma ilusão para quem sonha com a independência e um pouco mais de sossego. Sem falar que as horas extras não são remuneradas e nem pensar em férias de 30 dias.

Tudo começa com a prospecção de novos clientes. O processo é idêntico à entrevista de emprego. A gente vai bem arrumada, unhas feitas, maquiagem discreta e pronta para parecer a pessoa mais inteligente e emocionalmente equilibrada da Terra. O possível futuro cliente faz uma pergunta capciosa e, de bate pronto, você dá a resposta brilhante. Em dois segundos, sem vacilo. Se envergar a sobrancelha, num sinal de dúvida, começa o descrédito.

Em seguida, envia a proposta e torce por um retorno positivo. Sofre de ansiedade e fica se perguntando se deve ligar ou não para pedir resposta. Se ele escolher outra agência, que decepção. Afinal, como um candidato à vaga de emprego, você se acha a melhor opção possível. Não é falta de modéstia, é convicção mesmo. Mas o outro não achou o mesmo por razões infinitas. E lá vai você começar tudo de novo em outra freguesia.

Mas, e se você foi o escolhido? Chega em casa e conta para a família, festeja com os colegas. Só que a vida segue o rumo e nem sempre tudo se encaixa como deveria. As cobranças são muito semelhantes àquelas feitas pelos antigos chefes - só que agora, ao invés de um, há vários. Fundamental se adaptar aos diferentes perfis dos clientes, entender as diferenças de comportamento, de modelo de vida que cada um quer para si e para a empresa. Há aqueles que acham que fornecedor deve ser conduzido no chicotinho, outros entendem a importância do ganha-ganha. Já dispensei cliente que berrava constantemente com o atendimento da conta e, depois, comigo também. Afinal, se a intenção é ser feliz, não dá para aguentar esse tipo de comportamento.

Pensando bem, no passado suportei chefe que berrava e engoli seco por um bom tempo porque não tinha condições financeiras de ir embora sem outro emprego engatilhado. Se agora posso romper essa relação com o pretexto de ser feliz, até que não é ruim essa história de ser empreendedora.