"A ideia é trabalhar com diferentes níveis de investigação", diz editor do GDI
Inspirado no modelo consagrado pela equipe Spotlight, do jornal americano Boston Globe, o Grupo RBS lançou, no início do mês, o Grupo de Investigação (GDI), que reúne jornalistas premiados para apurar em profundidade fatos que influenciam a vida da população.
Atualizado em 13/12/2016 às 15:12, por
Alana Rodrigues.
equipe Spotlight, do jornal americano Boston Globe , o Grupo RBS lançou, no início do mês, o Grupo de Investigação (GDI), que reúne jornalistas premiados para apurar em profundidade fatos que influenciam a vida da população.
A primeira mostrou os caminhos dos agrotóxicos até o prato dos gaúchos. A série revela que parcela das verduras e dos legumes vendidos na Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), maior entreposto de hortifrutigranjeiros do Estado, tem agrotóxicos acima do recomendável, inadequados para determinadas culturas ou proibidos no país. O grupo é formado por nove repórteres e um editor, todos com experiência em investigação jornalística. Integram a equipe os repórteres de Zero Hora Adriana Irion, Carlos Rollsing, Humberto Trezzi e José Luís Costa. Do Diário Gaúcho , Jeniffer Gularte, da Gaúcha, Cid Martins, e, da RBS TV, Giovani Grizotti, Jonas Campos e Fábio Almeida.
À frente do GDI, o jornalista Carlos Etchichury, também editor-chefe do Diário Gaúcho , detalhou à IMPRENSA os objetivos do projeto, o processo de produção da primeira reportagem e falou sobre o jornalismo investigativo no Brasil hoje. Confira:
Crédito:Mateus Bruxel Carlos Etchichury, editor do GDI e editor-chefe do Diário Gaúcho
IMPRENSA: Quando surgiu a ideia de lançar o Grupo de Investigação? Carlos Etchichury: Zero Hora já tinha um grupo de investigação, assim como a RBS TV. Por uma provocação de líderes da empresa, especialmente Andiara Petterle, vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS, e do CEO do Grupo, Cláudio Toigo, surgiu a ideia em maio deste ano de criar um grupo ainda mais forte, multimídia e integrado, formado pelos mais experientes repórteres dos jornais Zero Hora e Diário Gaúcho , da Rádio Gaúcha e da RBS TV. Há cerca de três meses os repórteres começaram a trabalhar na primeira reportagem e, agora, o grupo foi lançado. – Vocês se inspiraram no Spotlight, do Boston Globe? Quais aspectos da equipe são refletidos no trabalho do GDI? O Grupo RBS tem larga tradição em jornalismo investigativo. Mas é inegável que o time Spotlight, do Boston Globe, retratado de forma espetacular no filme vencedor do Oscar, serviu de inspiração para o GDI. Como no Globe, temos uma equipe exclusiva de repórteres e um editor. A diferença é que, mesmo em uma ilha mais isolada, o GDI permanecerá dentro da redação e contará com profissionais da RBS TV e da Rádio Gaúcha, além de repórteres da Zero Hora e do Diário Gaúcho . - A equipe é formada por nove repórteres. Pretendem ampliar o número de jornalistas? Como será a rotina de trabalho de vocês? Também vão cobrir hardnews? Não há previsão de aumentar o número de repórteres. A ideia é trabalhar com diferentes níveis de investigação: apostas de médio e longo prazo sobre assuntos que impactam profundamente vida das pessoas.
Crédito:Divulgação Selo do Grupo de Investigação
- Qual foi o investimento da RBS para formar o Grupo? Vocês podem falar em números? É difícil falar em números, mas é caro manter profissionais experientes e consagrados fora do dia a dia em uma redação. O GDI permanecerá focado, quase que exclusivamente, em assuntos espinhosos e de alta repercussão. Em um cenário desfavorável para as redações dos grandes jornais, o Grupo RBS mostra que não abre mão da qualidade. - Vocês têm algum patrocínio específico? Não há patrocínio. Na verdade, temos a convicção de que o GDI será "patrocinado" por leitores cada vez mais exigentes e dispostos a pagar por conteúdo de qualidade e diferenciado. - Como foi o processo de produção da primeira reportagem? vocês já pensam em outros assuntos? Podem adiantar algum? Produzimos uma extensa série de reportagens sobre resíduos de agrotóxicos acima do permitido pela lei (alguns, inclusive, proibidos no país) em hortifrutigranjeiros vendidos na Ceasa do Estado. Usamos dados via Lei de Acesso à Informação e mandamos analisar alimentos vendidos na Ceasa em um laboratório da Universidade Federal de Santa Maria (os custos dos testes foram pagos pelo Grupo RBS). Foi um apuração longa e extenuante, como costumam ser as grandes investigações jornalísticas. Ainda não temos definido a próxima matéria, mas o foco do GDI é fiscalizar o poder público e privado e os serviços que afetam diretamente a vida da população. – Como você vê o jornalismo investigativo no Brasil hoje? Acredita que falta investimento na área? Vejo um esforço grande de empresas e de jornalistas em apostar no jornalismo investigativo. Evoluímos na análise de dados públicos via Lei de Acesso à Informação, o que representa uma conquista para sociedade. Há inúmeras matérias investigativas consistentes e de alto impacto nos veículos tradicionais, nos últimos anos, a partir da lei. Além disso, o surgimento da Abraji, que nasce no Brasil para ser o que a IRE representa para os repórteres dos EUA, a realização de eventos como o Festival Piauí/GloboNews, a criação de agências como a Pública e Lupa, que colocam a investigação no centro de suas atenções, são indicativos de que estamos amadurecendo. Mas nem tudo são flores. A cobertura da Operação Lava Jato, por exemplo, nos mostra o quanto ainda precisamos evoluir. O grosso de tudo que é publicado versa sobre investigação alheia, realizada por órgão oficiais como MPF e PF. Pelo volume de informações produzidas e tornadas públicas, talvez não tenha como ser diferente. Não sei. O fato é que, sob o ponto de vista da investigação jornalística stricto sensu, somos coadjuvantes na cobertura do maior esquema de corrupção do país. É um ponto de reflexão.
A primeira mostrou os caminhos dos agrotóxicos até o prato dos gaúchos. A série revela que parcela das verduras e dos legumes vendidos na Centrais de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa), maior entreposto de hortifrutigranjeiros do Estado, tem agrotóxicos acima do recomendável, inadequados para determinadas culturas ou proibidos no país. O grupo é formado por nove repórteres e um editor, todos com experiência em investigação jornalística. Integram a equipe os repórteres de Zero Hora Adriana Irion, Carlos Rollsing, Humberto Trezzi e José Luís Costa. Do Diário Gaúcho , Jeniffer Gularte, da Gaúcha, Cid Martins, e, da RBS TV, Giovani Grizotti, Jonas Campos e Fábio Almeida.
À frente do GDI, o jornalista Carlos Etchichury, também editor-chefe do Diário Gaúcho , detalhou à IMPRENSA os objetivos do projeto, o processo de produção da primeira reportagem e falou sobre o jornalismo investigativo no Brasil hoje. Confira:
Crédito:Mateus Bruxel Carlos Etchichury, editor do GDI e editor-chefe do Diário Gaúcho
IMPRENSA: Quando surgiu a ideia de lançar o Grupo de Investigação? Carlos Etchichury: Zero Hora já tinha um grupo de investigação, assim como a RBS TV. Por uma provocação de líderes da empresa, especialmente Andiara Petterle, vice-presidente de Jornais e Mídias Digitais do Grupo RBS, e do CEO do Grupo, Cláudio Toigo, surgiu a ideia em maio deste ano de criar um grupo ainda mais forte, multimídia e integrado, formado pelos mais experientes repórteres dos jornais Zero Hora e Diário Gaúcho , da Rádio Gaúcha e da RBS TV. Há cerca de três meses os repórteres começaram a trabalhar na primeira reportagem e, agora, o grupo foi lançado. – Vocês se inspiraram no Spotlight, do Boston Globe? Quais aspectos da equipe são refletidos no trabalho do GDI? O Grupo RBS tem larga tradição em jornalismo investigativo. Mas é inegável que o time Spotlight, do Boston Globe, retratado de forma espetacular no filme vencedor do Oscar, serviu de inspiração para o GDI. Como no Globe, temos uma equipe exclusiva de repórteres e um editor. A diferença é que, mesmo em uma ilha mais isolada, o GDI permanecerá dentro da redação e contará com profissionais da RBS TV e da Rádio Gaúcha, além de repórteres da Zero Hora e do Diário Gaúcho . - A equipe é formada por nove repórteres. Pretendem ampliar o número de jornalistas? Como será a rotina de trabalho de vocês? Também vão cobrir hardnews? Não há previsão de aumentar o número de repórteres. A ideia é trabalhar com diferentes níveis de investigação: apostas de médio e longo prazo sobre assuntos que impactam profundamente vida das pessoas.
Crédito:Divulgação Selo do Grupo de Investigação
- Qual foi o investimento da RBS para formar o Grupo? Vocês podem falar em números? É difícil falar em números, mas é caro manter profissionais experientes e consagrados fora do dia a dia em uma redação. O GDI permanecerá focado, quase que exclusivamente, em assuntos espinhosos e de alta repercussão. Em um cenário desfavorável para as redações dos grandes jornais, o Grupo RBS mostra que não abre mão da qualidade. - Vocês têm algum patrocínio específico? Não há patrocínio. Na verdade, temos a convicção de que o GDI será "patrocinado" por leitores cada vez mais exigentes e dispostos a pagar por conteúdo de qualidade e diferenciado. - Como foi o processo de produção da primeira reportagem? vocês já pensam em outros assuntos? Podem adiantar algum? Produzimos uma extensa série de reportagens sobre resíduos de agrotóxicos acima do permitido pela lei (alguns, inclusive, proibidos no país) em hortifrutigranjeiros vendidos na Ceasa do Estado. Usamos dados via Lei de Acesso à Informação e mandamos analisar alimentos vendidos na Ceasa em um laboratório da Universidade Federal de Santa Maria (os custos dos testes foram pagos pelo Grupo RBS). Foi um apuração longa e extenuante, como costumam ser as grandes investigações jornalísticas. Ainda não temos definido a próxima matéria, mas o foco do GDI é fiscalizar o poder público e privado e os serviços que afetam diretamente a vida da população. – Como você vê o jornalismo investigativo no Brasil hoje? Acredita que falta investimento na área? Vejo um esforço grande de empresas e de jornalistas em apostar no jornalismo investigativo. Evoluímos na análise de dados públicos via Lei de Acesso à Informação, o que representa uma conquista para sociedade. Há inúmeras matérias investigativas consistentes e de alto impacto nos veículos tradicionais, nos últimos anos, a partir da lei. Além disso, o surgimento da Abraji, que nasce no Brasil para ser o que a IRE representa para os repórteres dos EUA, a realização de eventos como o Festival Piauí/GloboNews, a criação de agências como a Pública e Lupa, que colocam a investigação no centro de suas atenções, são indicativos de que estamos amadurecendo. Mas nem tudo são flores. A cobertura da Operação Lava Jato, por exemplo, nos mostra o quanto ainda precisamos evoluir. O grosso de tudo que é publicado versa sobre investigação alheia, realizada por órgão oficiais como MPF e PF. Pelo volume de informações produzidas e tornadas públicas, talvez não tenha como ser diferente. Não sei. O fato é que, sob o ponto de vista da investigação jornalística stricto sensu, somos coadjuvantes na cobertura do maior esquema de corrupção do país. É um ponto de reflexão.





