A Gazeta do Rio de Janeiro sem assunto
A Gazeta do Rio de Janeiro sem assunto
Atualizado em 28/03/2011 às 20:03, por
Nelson Varón Cadena.
A Gazeta do Rio de Janeiro sem assunto
Faltava assunto na Gazeta do Rio De Janeiro , o nosso primeiro jornal, e isso mostra as dificuldades do editor de colocar na rua a publicação três vezes por semana. O problema era a escassez e morosidade das fontes e o seu conteúdo, às vezes avaliado pelo redator como desinteressante para os leitores. Naquele tempo as fontes da Gazeta eram exclusivamente correspondências e outras gazetas que vinham da Europa em navios que demoravam três meses no mínimo para aportar no porto do Rio de Janeiro. Quanto ao conteúdo, o tema predominante na Gazeta do Rio de Janeiro era a guerra Européia e Napoleão Bonaporte seu principal protagonista, tema único em todos os jornais do mundo, pertinente de acordo com as circunstâncias.A propósito, os historiadores da imprensa brasileira ate hoje insistem na tese do conteúdo insípido de nosso primeiro jornal pelo fato de apresentar apenas noticias estrangeiras. Sem atentar que era exatamente esse o conteúdo que o leitor desejava, em particular os assinantes da Gazeta que eram portugueses residentes "provisoriamente" no Rio de Janeiro com a expectativa de voltar para a sua terra natal, logo que re-estabelecida a paz. Não interessava a eles outro assunto senão aquele que dizia respeito a suas vidas, suas famílias e seus bens deixados para trás no velho continente, na pressa da fuga da família real e sua corte, rumo ao Brasil.
Enchendo as páginas
Faltava assunto na Gazeta e o editor não se constrangia em informar essa dificuldade operacional a seus leitores. Há exatamente 200 anos, em março/abril de 1.811, por alguma razão não esclarecida, provavelmente a logística da navegação em tempos de guerra acirrada, faltavam noticias. Em 23 de março o redator informava "entretanto que não chegam noticias certas dos vários fatos da península e da Europa nos vemos obrigados, para encher nossas páginas com alguma utilidade, a tirar do próprio país noticias que indiquem o seu estado atual", justificativa para publicar uma tabela da produção de café, algodão, feijão, farinha, milho e peixe na Ilha Grande.
Em 27 de março o editor publicava um extrato de noticias das folhas inglesas advertindo "as poucas noticias se reduzem às seguintes" para mais adiante, numa nota de rodapé opinar: "Nestas folhas que recebemos nada achamos de notável, relativo à nossa península; se houve-se nos lhe daríamos a preferência". Na semana seguinte a Gazeta prometia aos leitores apresentar em breve as noticias "em ordem cronológica e de um modo conciso", alegando que" só tinha folhas sobreditas que nos vieram de mãos avulsas". Em 03 de abril a não publicação dos extratos das gazetas européias era estratégica, política de estado, a julgar pela justificativa do redator ao publicar um breve resumo sobre o boicote ao comércio britânico imposto por Napoleão: "Os nossos leitores nos dispensarão de lhes ingerir esses artigos monotônicos de pesquisas, seqüestros e queimas".
Ordens superiores
Fora essa dificuldade da falta de assunto, o editor defrontava-se com as ordens de última hora, de instâncias superiores que o obrigavam a jogar fora, ou adiar matéria já paginada na caixa de tipos para atender os pedidos: "Interrompemos aqui o nosso resumo para apresentar, como nos foi mandado, duas tabelas que mostram a importância do algodão em Liverpool". A continuação do resumo da Gazeta de Lisboa ficava para outra edição, o editor tentava convencer os leitores sobre a validade da troca de matéria: "Estamos persuadidos que todo homem que tiver curiosidade, e principalmente o respeitável corpo do comércio, julgara que esta publicação é de nenhum modo indiferente".
Faltava assunto na Gazeta , mas também sobrava, quando transcrevia artigos inteiros dos jornais da Europa e nesse caso a matéria tinha continuidade na seguinte edição. O leitor nem sempre era avisado. Faltava tempo. A imprensa Regia tinha que produzir e distribuir dia sim, dia não, uma edição de 04 páginas com escasso material informativo e recursos técnicos limitados.






