"A história humana é a porta de entrada para o grande público", diz diretora da BBC Brasil

A palavra “badminton” ainda causa surpresa nos brasileiros. Pouco popular no país, a atividade é um misto de tênis e vôlei de praia jogado com uma peteca e uma raquete.

Atualizado em 10/08/2016 às 11:08, por Gabriela Ferigato.


A inaugurou a série “Heroes”, que conta a trajetória de cinco pessoas que superaram obstáculos por meio do esporte e que, agora, usam a atividade para transformar vidas. O projeto é uma das apostas da BBC Brasil para a cobertura global das Olimpíadas 2016. Também exibida no BBC World News, a série “Hidden Rio” revela aspectos menos conhecidos do Rio de Janeiro, como um antigo refúgio de escravos na área mais rica da cidade.
Crédito:divulgação O site da BBC Brasil atingiu 20,1 milhões de usuário únicos em junho de 2016 Durante todo o evento, os jornalistas da BBC Brasil, no Rio, farão a cobertura bilíngue para o público brasileiro. “É a BCC produzindo conteúdo em inglês para o mundo. Isso exige uma atenção especial. É uma coisa que acaba norteando o que a gente faz. Selecionar uma história e como seria essa história para o público estrangeiro”, diz Silvia Salek, diretora de redação.
Na última sexta-feira (5/8), a BBC Brasil também estreou o #BBCporaí, seu novo programa ao vivo e diário no Facebook, com histórias da cidade olímpica. Transmitido de segunda a sexta-feira, às 12h15, a iniciativa usará um novo software que permite edição em tempo real, inserções de diferentes repórteres e a participação do público, via aplicativos de mídias sociais, como Skype e WhatsApp.

As investidas tem a clara intenção de aumentar a proximidade com a audiência, principalmente por meio das mídias sociais. O site da BBC Brasil atingiu 20,1 milhões de usuário únicos em junho de 2016, segundo a ComScore. “A BBC Brasil faz parte do serviço mundial da BBC, com 27 línguas, e somos o país de maior audiência”. À IMPRENSA, Silvia falou sobre a cobertura das Olimpíadas e o jornalismo da BBC Brasil.

IMPRENSA - Qual o planejamento e preparação da BBC Brasil para as Olimpíadas 2016? Silvia Salek - Nossa preparação passa por diferentes aspectos. Um deles são as matérias pré-produzidas, séries especiais, como a “Hidden Rio” (“Rio Escondido”) e “Heroes” (“Heróis”). Tem também a nossa produção que vai acontecer lá [no RJ], com enviados especiais. Há equipe da BBC Brasil, BBC doméstica e também da BBC Internacional. Nossos repórteres têm um treinamento bilíngue. Essas sete pessoas que estarão no Rio vão produzir material para o resto da BBC. É a BCC produzindo conteúdo em inglês para o mundo. Isso exige uma atenção especial. É uma coisa que acaba norteando o que a gente faz. Selecionar uma história e como seria essa história para o público estrangeiro.

Como funciona essa dinâmica? Obviamente passamos por assuntos como a violência urbana, que é algo constante, corrupção, desigualdade. Nosso desafio é, não só revisitar um assunto com um prisma diferente, mas também ampliar a agenda do Brasil. Queremos ser relevantes. Por outro lado, o Brasil não é um país que já desperta um interesse tão óbvio para a Grã Bretanha - como países ex-colônias, a exemplo da Índia. Quando fizemos a série “Heroes”, nosso objetivo era trazer histórias que mostrassem não só tragédia, desigualdade, mas a superação. Histórias que quebram preconceitos. Isso tem um apelo universal. “Vender” o Brasil por meio do jornalismo.

Umas das novidades são as séries originais. Foi uma demanda nacional ou internacional? Na Copa do Mundo, em 2014, fizemos uma série inédita chamada “Soccer Cities”, sobre cinco das cidades-sede, mostrando o que tinha de interessante nessas regiões. Foi um imenso sucesso, conseguiram vender o material para vários lugares do mundo. Para as Olimpíadas, emplacamos duas séries e fizemos isso com mão de obra 100% brasileira – e não deixamos a desejar para as grandes produções da BBC. Provamos que não só somos capazes de fazer essa produção bilíngue, como também a qualidade técnica. A “Heroes” teve aproximadamente cinco meses de produção. A "Hidden" contou com a colaboração de um inglês que mora no Brasil, Gibby Zobel, que fez tudo sozinho.
Qual a principal intenção de vocês com as séries? Mostrar histórias humanas para, a partir delas, apresentar uma situação, uma realidade. A história humana é a porta de entrada para o grande público. Como a história de Sebastião Oliveira [que viveu dos 7 aos 18 anos na Fundação do Bem Estar do Menor (Funabem)] e que transformou uma favela do Rio em potência do esporte badminton.

Como vocês estão trabalhando a questão da relevância no mercado brasileiro? Há dois anos, fizemos uma reformulação em nossa forma de produzir jornalismo. Em uma matéria sobre um atentado, por exemplo, não vamos falar apenas a quantidade de mortos, mas buscar responder qual a próxima pergunta que os leitores fariam. Perguntas cruciais para que as pessoas entendam de fato as coisas, colocar em um contexto diversos pontos de vista. Na BBC Brasil, somos em quase trinta profissionais, não há custos para fazer todas as vertentes. Isso tem muito a ver com mídias sociais. Não é só comunicação imediata, mas um conteúdo com vida longa que possa alavancar audiência e ter mais folego.

Qual foi o retorno da aposta? Em janeiro de 2014, tínhamos 5,7 milhões de usuário únicos. No fim de 2015, passamos a 20 milhões. Mais do que triplicou a audiência em dois anos. Nos coloca na vanguarda da BBC, pela forma como trabalhamos com as mídias sociais. A BBC Brasil faz parte do serviço mundial da BBC, com 27 línguas, e somos o país de maior audiência. Mesmo não tendo o maior investimento, temos maior audiência.