A história do historiador, por Rodrigo Viana
“O Paschoal não está bem, vamos vê-lo?”, combinei no início da semana com dois amigos. Não deu tempo. Na quarta-feira, data-limite da entreg
Atualizado em 03/12/2014 às 15:12, por
Rodrigo Viana.
Crédito:Leo Garbin a desta coluna, Paschoal perdeu a luta contra o câncer e morreu.
Paschoal Gonçalves da Rocha era dono do maior relicário fotográfico e documental do esporte do interior de São Paulo e, talvez, do Brasil. Torcedor apaixonado da Ferroviária de Araraquara, tradicional time do interior paulista, há mais de trinta anos mantinha um acervo com mais de 40 mil fotos, flâmulas, troféus, camisas, livros, revistas e toda a sorte de documentos sobre a equipe.
Mas o “museu” ou “sala de reminiscências” como ele mesmo gostava de chamar, não se restringia apenas à história da Ferroviária: havia relíquias de todos os esportes da cidade e, principalmente, dos outros clubes grandes de São Paulo e da Seleção Brasileira. Detalhe: todo o material ficava dentro de casa. Oito cômodos de pura devoção e cuidado. Paschoal morava num museu de esportes. Ou, mais correto, um museu de esportes morava dentro do Paschoal.
Por isso tudo e por usar sempre uma camisa da Ferroviária que, segundo ele mesmo, só tirava pra ir dormir e tomar banho, tinha o apelido de “Papa Afeano”. E era mesmo um peregrino e missionário das coisas da equipe grená. Até quando ia à igreja, vestia-se com a camisa do time do interior.
Phil Graham, um dos grandes editores do Washington Post do meio do século passado, dizia que “o jornalismo é o primeiro rascunho da história”. Acrescento a isso que não se constrói uma narrativa, seja ela jornalística, literária ou de qualquer outro gênero, sem o fio condutor da história.
Seu Paschoal, que nem formação superior tinha, guardou muito da história do esporte dentro de sua casa. E a visitação, pública, gratuita, podia ocorrer a qualquer momento. Muitas vezes fui à casa do Paschoal e, maravilhado, ficava olhando as paredes contornadas de fotografias e velhos documentos. Fotografia de todos, menos dele mesmo. Paschoal não recebia nada pra fazer o que fazia. Apenas guardava e restaurava tudo, com o maior esmero do mundo.
Não dá pra explicar muito essa obsessão dele. Talvez tenha vindo de uma lembrança afetiva da infância, do pai ferroviário, ou de quando ele e os seis irmãos, ainda meninos, iam de trem para São Paulo. Talvez ele fazia o que todos devíamos fazer. Talvez.
Tenho pra mim que, certo mesmo, é preciso que escrevamos mais artigos sobre os Paschoais dos rincões deste Brasil, que guardam a história sem ego, sem preço, sem vaidade. E vão embora assim, sem alarde, quietinhos, mas deixando um legado enorme, monstruoso e sem precedentes.

Paschoal Gonçalves da Rocha era dono do maior relicário fotográfico e documental do esporte do interior de São Paulo e, talvez, do Brasil. Torcedor apaixonado da Ferroviária de Araraquara, tradicional time do interior paulista, há mais de trinta anos mantinha um acervo com mais de 40 mil fotos, flâmulas, troféus, camisas, livros, revistas e toda a sorte de documentos sobre a equipe.
Mas o “museu” ou “sala de reminiscências” como ele mesmo gostava de chamar, não se restringia apenas à história da Ferroviária: havia relíquias de todos os esportes da cidade e, principalmente, dos outros clubes grandes de São Paulo e da Seleção Brasileira. Detalhe: todo o material ficava dentro de casa. Oito cômodos de pura devoção e cuidado. Paschoal morava num museu de esportes. Ou, mais correto, um museu de esportes morava dentro do Paschoal.
Por isso tudo e por usar sempre uma camisa da Ferroviária que, segundo ele mesmo, só tirava pra ir dormir e tomar banho, tinha o apelido de “Papa Afeano”. E era mesmo um peregrino e missionário das coisas da equipe grená. Até quando ia à igreja, vestia-se com a camisa do time do interior.
Phil Graham, um dos grandes editores do Washington Post do meio do século passado, dizia que “o jornalismo é o primeiro rascunho da história”. Acrescento a isso que não se constrói uma narrativa, seja ela jornalística, literária ou de qualquer outro gênero, sem o fio condutor da história.
Seu Paschoal, que nem formação superior tinha, guardou muito da história do esporte dentro de sua casa. E a visitação, pública, gratuita, podia ocorrer a qualquer momento. Muitas vezes fui à casa do Paschoal e, maravilhado, ficava olhando as paredes contornadas de fotografias e velhos documentos. Fotografia de todos, menos dele mesmo. Paschoal não recebia nada pra fazer o que fazia. Apenas guardava e restaurava tudo, com o maior esmero do mundo.
Não dá pra explicar muito essa obsessão dele. Talvez tenha vindo de uma lembrança afetiva da infância, do pai ferroviário, ou de quando ele e os seis irmãos, ainda meninos, iam de trem para São Paulo. Talvez ele fazia o que todos devíamos fazer. Talvez.
Tenho pra mim que, certo mesmo, é preciso que escrevamos mais artigos sobre os Paschoais dos rincões deste Brasil, que guardam a história sem ego, sem preço, sem vaidade. E vão embora assim, sem alarde, quietinhos, mas deixando um legado enorme, monstruoso e sem precedentes.






