A graça são os outros

A graça são os outros

Atualizado em 07/12/2009 às 18:12, por Igor Ribeiro.

No final de 2008 começou a circular na internet um texto contendo uma troca de e-mails estranha, mas engraçadíssima, entre um pretenso designer e sua quiroprata. Ela cobrava dele uma quantia devida após algumas consultas e, na tentativa de enrolar, o paciente ofereceu um de seus desenhos como pagamento: uma ilustração infantilizada de uma aranha sorridente com sete pernas. Após a quiroprata (que, segundo o designer, não é médico de verdade) recusar o pagamento alternativo, ele pediu a imagem de volta - tudo por e-mail - e se desculpou por ter enviado uma aranha com sete pernas. Corrigiu e retornou o desenho do bicho, agora com oito patas, novamente recusado. A conversa completa pode ser lida neste , em inglês, bem como todas as outras traquinagens digitais de David Thorne, o tal designer.

O site de Thorne é, antes de tudo, politicamente incorreto do começo ao fim. Aos mais sensíveis, portanto, não se recomenda a leitura. Àqueles que se interessaram minimamente até aqui, vamos em frente.

Thorne é um anarquista digital. Não se trata, até onde eu sei, de um hacker ou um ativista. Sua verve cômica simplesmente não leva em consideração autoridades e convenções, ironizando-as de modo instigante. Quase sempre por meio de e-mails, o designer australiano consegue expor o ridículo da sociedade sem ser desrespeitoso ou polêmico - muitas vezes se inserindo como o próprio motivo de piada.

Em outra situação, Thorne troca mensagens com a síndica de seu condomínio, que lhe chama atenção sobre denúncias de animais em casa - uma infração do regulamento interno. Em algumas respostas, o designer chega a divagar sobre sua vida e cria teorias insanas para as reclamações dos vizinhos. Diz que tem um peixe num aquário com água congelada, um pato criado na banheira e uma dúzia de cachorros com os quais pretende montar um time de dog sledding. A síndica - uma pessoa real, como todos seus interlocutores, diga-se - fica assustadíssima com as explicações do morador que são, obviamente, mentiras completamente surreais.

A piada mais recente do designer relata uma proposta de trabalho enviada por um sujeito chamado Simon, pedindo de Thorne a criação gratuita de um logo e alguns gráficos, visando um projeto digital que renda dinheiro futuramente. Calejado sobre a falta de comprometimento do respectivo contato em experiências anteriores, Thorne passa a responder às investidas com gráficos pizza com temas como "Entusiasmo de David em trabalhar de graça para Simon", entre opções como "Prefiro me perder na floresta"; "Muito pequenininha"; e "O que será que está passando na TV?". Também merecem destaque as historietas das quais participam seu filho, muitas vezes chamado de "desova" - numa delas o menino pede absorventes íntimos de Natal, confundidos com crayons.

David Thorne é, sem-querer ser, a melhor representação de um tipo de humor legítimo que demora a encontrar seu espaço na grande mídia brasileira. Difícil de rotular, sua graça vem de uma inconseqüência anárquica mas polida, surreal mas reflexiva, petulante mas respeitosa. Basta abstrair as dezenas de dedos médios, "fucks" e outros palavrões que populam seu site para perceber que é uma simples sátira do mundo moderno, quando muitas vezes o coloquialismo do dia-a-dia é substituído pelo proselitismo tecnológico. Assim ele ironiza, por exemplo, a colega de trabalho que reclama por e-mail da quantidade de xícaras de café abandonadas na copa esperando por lavagem. Thorne sugere que ela faça uma planilha e estabeleça metas para que os funcionários estabeleçam um método de lavagem das próprias xícaras.

Ao dizer que a candidatura carioca conquistou os Jogos Olímpicos de 2016 com "50 strippers e meio quilo de pó", Robbin Williams usou um pouco dessa ironia "incorreta", provocadora dos ânimos alheios, mas também carregada em seu cerne de uma questão séria: a realização de um evento numa sociedade tomada por violência e narcotráfico. É hipocrisia dizer que esse humor é fantasioso. O fato é que a acidez da piada feriu a gastrite da culpa, quando antes deveria ter queimado nossa consciência. A baderna generalizada na final do Campeonato Brasileiro, que viu grandes conflitos entre polícia e torcedores em três capitais, nos faz pensar se a piada de Williams não tem um fundo de verdade.

Em vez de perseguir comediantes mundo afora, as pessoas que não veem tanta graça deveriam olhar para dentro de si e tentar entender porque se sentem incomodadas. Como eu, pessoalmente, costumo dar risada desse tipo de piada, ou sou muito canalha ou estou em conta com minhas culpas.

Provavelmente, sou muito canalha.