A ganância e o silêncio andam engordando as nossas crianças
A ganância e o silêncio andam engordando as nossas crianças
Atualizado em 08/09/2010 às 15:09, por
Wilson da Costa Bueno.
Dados do IBGE, divulgados no final de agosto de 2010, apenas confirmam o que todos já sabíamos: nossas crianças estão cada vez mais obesas e a tendência é que este cenário se torne mais dramático com o passar dos anos. A proporção de crianças incluídas nestas estatísticas é de um para 3, ou seja, uma em cada 3 crianças brasileiras está acima do peso.
O sobrepeso e a obesidade impactam significativamente a qualidade de vida das nossas crianças e contribuem para que elas se tornem adultos doentes no futuro.
As razões? São muitas e infelizmente pouco temos feito, como cidadãos, como pais e educadores, como Governo, como mídia, para reverter o panorama, que já é sentido também em outros países, inclusive os desenvolvidos como os Estados Unidos.
Em primeiro lugar, as famílias não têm estado dispostas ou não têm sido orientadas para proporcionar às crianças uma alimentação sadia. Os papais andam omissos, eles próprios se alimentando mal, e, com isso, relegam a segundo plano o cuidado necessário com seus filhos. As crianças, largadas ao "deus dará", acabam sendo seduzidas por guloseimas, salgadinhos, sanduíches gordurosos e ganham quilos inconvenientes.
Em segundo lugar, as escolas não têm sido um espaço adequado para a educação alimentar e, na maioria dos casos, abrem espaço para que, em suas cantinas ou barzinhos, sejam vendidos livremente produtos não saudáveis. Há denúncias comprovadas de que, em festas escolares (como as juninas, por exemplo), colégios considerados de prestígio acabam conseguindo inclusive patrocínio de empresas de fast-food, liberando a venda de todo o tipo de porcaria para os seus alunos. A educação alimentar passa pela conscientização de professores, pela inclusão de temas associados à boa alimentação nas salas de aula e pelo comprometimento das famílias.
Em terceiro lugar, o Governo não tem adotado políticas públicas que priorizem a alimentação das nossas crianças (e também dos nossos adultos) e é por isso que as nossas laranjas (somos grande produtores), a preço baixo, acabam sendo desviadas para se transformarem em suco para alimentar jovens e adultos de outros países. As nossas merendas escolares são pobres, de baixa qualidade, quando não objeto de ações criminosas de quadrilhas (como aconteceu no Estado de S. Paulo recentemente) que as utilizam para desviar recursos, penalizando as nossas crianças. É aterrador perceber que mesmo em instituições que deviam preservar pela qualidade da saúde falta sensibilidade suficiente para evitar o envolvimento com empresas predadoras da saúde. Não é que até há pouco tempo (será que a situação ainda persiste?) órgãos e institutos vinculados ao Ministério da Saúde integravam o mutirão para o "dia feliz" do McDonald´s, legitimando a adesão à empresa do palhaço? Será que o Governo não pode disponibilizar recursos para as crianças com câncer em vez de aderir a campanhas que apenas servem para limpar a imagem de empresas do chamado "junk food"?
Em quarto lugar, falta cidadania a agências de comunicação/publicidade, assessorias e anunciantes que, movidos pelo alto lucro das vendas de produtos não saudáveis, entopem os meios de comunicação (jornais, revistas, rádio, TV , Internet, cinema etc) com anúncios de alimentos gordurosos, refrigerantes e todo tipo de substitutos nocivos à alimentação de qualidade. Além disso, de forma criminosa e irresponsável, a indústria de alimentos e de bebidas invade os games, cria espaços coloridos e animados na web, ocupa as salas e as ante-salas dos cinemas, tentando vender a todo custo produtos que fazem mal, que engordam, que adoecem as nossas crianças.
Finalmente, o que dizer dos empresários da comunicação que se tornam cúmplices desta investida e que objetivam apenas engordar, como todos os elos desta cadeia gordurosa, os seus lucros?
A sociedade, as pessoas responsáveis, as famílias precisam repudiar esta atitude predadora, nefasta, exigindo das autoridades maior atenção ao problema porque, como sinaliza o levantamento do IBGE, ele assume proporções aterradoras.
Devemos engrossar, dar apoio, a iniciativas louváveis como a do Instituto Alana e do IDEC, que, de maneira cidadã, denunciam abusos, promovem debates, mobilizam pessoas para a resistência necessária ao lobby formidável de anunciantes, agências de propaganda e meios de comunicação.
Precisamos participar mais ativamente desta campanha contra a alimentação não saudável, contra palhaços que promovem a gordura, contra autoridades e governos omissos, contra escolas que não cumprem o seu papel e incentivam o consumo não consciente.
Já passou a hora de desmascararmos o argumento cínico de todos aqueles que, em nome da ganância, andam avançando sobre a mente e a saúde das nossas crianças e que resistem a qualquer tipo de regulação (a auto-regulação da indústria de alimentos e de bebidas é uma piada de mau gosto!), alegando que ela atenta contra a liberdade de expressão.
As nossas crianças não podem ficar a mercê de empresários irresponsáveis, comunicadores comprometidos com a sua empregabilidade e seus lucros fabulosos e autoridades que temem colocar o dedo na ferida e ficam, hipocritamente, acenando com medidas cosméticas que não conseguem (não são para isso, não é verdade?) equacionar este grave problema.
A luta contra a obesidade das nossas crianças deve ser de todos nós. Aceitar passivamente que palhaços, super-heróis, embalagens vistosas e anúncios sedutores atentem contra a saúde de nossos filhos e netos representa uma omissão imperdoável.
Vamos dar um basta a todos aqueles que fazem a apologia da gordura e que encaram nossas crianças apenas como consumidores, descartando qualquer compromisso com a qualidade de vida.
O IBGE deu o alerta. Agora, chegou a nossa vez de arregaçar as mangas. Temos a obrigação de fazermos a nossa parte e de exigir que educadores, agências de propaganda, anunciantes e a mídia deixem em paz os nossos filhos.
Vamos botar a boca no trombone. Nosso silêncio também ajuda a engordar as nossas crianças.

O sobrepeso e a obesidade impactam significativamente a qualidade de vida das nossas crianças e contribuem para que elas se tornem adultos doentes no futuro.
As razões? São muitas e infelizmente pouco temos feito, como cidadãos, como pais e educadores, como Governo, como mídia, para reverter o panorama, que já é sentido também em outros países, inclusive os desenvolvidos como os Estados Unidos.
Em primeiro lugar, as famílias não têm estado dispostas ou não têm sido orientadas para proporcionar às crianças uma alimentação sadia. Os papais andam omissos, eles próprios se alimentando mal, e, com isso, relegam a segundo plano o cuidado necessário com seus filhos. As crianças, largadas ao "deus dará", acabam sendo seduzidas por guloseimas, salgadinhos, sanduíches gordurosos e ganham quilos inconvenientes.
Em segundo lugar, as escolas não têm sido um espaço adequado para a educação alimentar e, na maioria dos casos, abrem espaço para que, em suas cantinas ou barzinhos, sejam vendidos livremente produtos não saudáveis. Há denúncias comprovadas de que, em festas escolares (como as juninas, por exemplo), colégios considerados de prestígio acabam conseguindo inclusive patrocínio de empresas de fast-food, liberando a venda de todo o tipo de porcaria para os seus alunos. A educação alimentar passa pela conscientização de professores, pela inclusão de temas associados à boa alimentação nas salas de aula e pelo comprometimento das famílias.
Em terceiro lugar, o Governo não tem adotado políticas públicas que priorizem a alimentação das nossas crianças (e também dos nossos adultos) e é por isso que as nossas laranjas (somos grande produtores), a preço baixo, acabam sendo desviadas para se transformarem em suco para alimentar jovens e adultos de outros países. As nossas merendas escolares são pobres, de baixa qualidade, quando não objeto de ações criminosas de quadrilhas (como aconteceu no Estado de S. Paulo recentemente) que as utilizam para desviar recursos, penalizando as nossas crianças. É aterrador perceber que mesmo em instituições que deviam preservar pela qualidade da saúde falta sensibilidade suficiente para evitar o envolvimento com empresas predadoras da saúde. Não é que até há pouco tempo (será que a situação ainda persiste?) órgãos e institutos vinculados ao Ministério da Saúde integravam o mutirão para o "dia feliz" do McDonald´s, legitimando a adesão à empresa do palhaço? Será que o Governo não pode disponibilizar recursos para as crianças com câncer em vez de aderir a campanhas que apenas servem para limpar a imagem de empresas do chamado "junk food"?
Em quarto lugar, falta cidadania a agências de comunicação/publicidade, assessorias e anunciantes que, movidos pelo alto lucro das vendas de produtos não saudáveis, entopem os meios de comunicação (jornais, revistas, rádio, TV , Internet, cinema etc) com anúncios de alimentos gordurosos, refrigerantes e todo tipo de substitutos nocivos à alimentação de qualidade. Além disso, de forma criminosa e irresponsável, a indústria de alimentos e de bebidas invade os games, cria espaços coloridos e animados na web, ocupa as salas e as ante-salas dos cinemas, tentando vender a todo custo produtos que fazem mal, que engordam, que adoecem as nossas crianças.
Finalmente, o que dizer dos empresários da comunicação que se tornam cúmplices desta investida e que objetivam apenas engordar, como todos os elos desta cadeia gordurosa, os seus lucros?
A sociedade, as pessoas responsáveis, as famílias precisam repudiar esta atitude predadora, nefasta, exigindo das autoridades maior atenção ao problema porque, como sinaliza o levantamento do IBGE, ele assume proporções aterradoras.
Devemos engrossar, dar apoio, a iniciativas louváveis como a do Instituto Alana e do IDEC, que, de maneira cidadã, denunciam abusos, promovem debates, mobilizam pessoas para a resistência necessária ao lobby formidável de anunciantes, agências de propaganda e meios de comunicação.
Precisamos participar mais ativamente desta campanha contra a alimentação não saudável, contra palhaços que promovem a gordura, contra autoridades e governos omissos, contra escolas que não cumprem o seu papel e incentivam o consumo não consciente.
Já passou a hora de desmascararmos o argumento cínico de todos aqueles que, em nome da ganância, andam avançando sobre a mente e a saúde das nossas crianças e que resistem a qualquer tipo de regulação (a auto-regulação da indústria de alimentos e de bebidas é uma piada de mau gosto!), alegando que ela atenta contra a liberdade de expressão.
As nossas crianças não podem ficar a mercê de empresários irresponsáveis, comunicadores comprometidos com a sua empregabilidade e seus lucros fabulosos e autoridades que temem colocar o dedo na ferida e ficam, hipocritamente, acenando com medidas cosméticas que não conseguem (não são para isso, não é verdade?) equacionar este grave problema.
A luta contra a obesidade das nossas crianças deve ser de todos nós. Aceitar passivamente que palhaços, super-heróis, embalagens vistosas e anúncios sedutores atentem contra a saúde de nossos filhos e netos representa uma omissão imperdoável.
Vamos dar um basta a todos aqueles que fazem a apologia da gordura e que encaram nossas crianças apenas como consumidores, descartando qualquer compromisso com a qualidade de vida.
O IBGE deu o alerta. Agora, chegou a nossa vez de arregaçar as mangas. Temos a obrigação de fazermos a nossa parte e de exigir que educadores, agências de propaganda, anunciantes e a mídia deixem em paz os nossos filhos.
Vamos botar a boca no trombone. Nosso silêncio também ajuda a engordar as nossas crianças.






