A flor do cafezal
A flor do cafezal
Os primeiros acordes das sanfonas anunciaram o que se seguiria: a emoção em encontrar, ali no centro velho da megalópole paulistana, um ícone da minha infância, Inezita Barroso, a musa da vida no interior, onde passei meus primeiros 19 anos. Nunca tietei uma fonte, mais por pudores e menos por profissionalismo, aliás. Mas naquela quarta-feira, ao acompanhar os bastidores da gravação do "Viola, minha viola", foi inevitável. Saí da redação já preparado, com um CD (original) que comprei em uma das raras e remanescentes lojas de discos. O autógrafo, bem verdade, não era para mim, mas para meu pai, José, admirador de Inezita e que certamente ficará muito feliz quando eu lhe entregar o disco e o abraço por ela enviado.
Nos meus tempos de moleque, Inezita era a perfeita junção entre a realeza de quem ocupava um nobre lugar e a mulher brejeira do interior, de modos simples e fala caipira. A esse incrível paradoxo, chamávamos "garbo" e "viço", por meio dos adjetivos "garbosa" e "viçosa", em definições muito diferentes e mais complexas do que as dicionarizadas.
Naquela tarde, enquanto as duas centenas de espectadores se divertiam com as modas caipiras e músicas de São João, chorei discretamente, tentando disfarçar das assessoras de imprensa da TV Cultura minha fragilidade. Lá no interior, chamamos a quem tem esse tipo de recato de "caipira". Pois era o que eu sou, um caipira mesmo, que se descobre tanto mais capiau quanto arraigado no cimento e fumaça da cidade grande, longe cinco centenas de quilômetros da casa do pai, do pé de manga, do cheiro de mato e da consistente verdade cantada pelos bichos e pelas plantas.
Nunca fomos uma família musical. O rádio ocupava, envergonhado, um lugar discreto na cozinha - em cima da geladeira, para ser mais preciso - onde era escutado apenas pelas empregadas, seus Zezés, Lucianos, Leandros e Leonardos. Discos, lembro-me de dois: um LP de Clara Nunes, esquecido numa velha cômoda do quarto de casal (presente de um desavisado que nunca soube não termos um aparelho de som na sala) e um pequeno de Cascatinha e Inhana, de um lado "Flor do Cafezal" e de outro uma canção da qual nem me recordo mais. "Flor do Cafezal" foi, portanto, a música que me iniciou na escuta sistemática do mundo. Em meu quarto, uma vitrola alaranjada, que fechada se transformava numa maleta - era o iPod da época - e o disco repetido à exaustão. "Meu cafezal em flor / quanta flor, meu cafezal / Ai, menina, meu amor / minh / Era florada, lindo véu de branca renda / Se estendeu sobre a fazenda, qual um manto nupcial / E de mãos dadas fomos juntos pela estrada / Toda branca e perfumada, pel ".
Já Inezita aparecia nos dias santos, era uma janela aberta para dentro de nós mesmos. Naquela quarta da entrevista, Inezita abriu a janela para fora, para um mundo de que não me lembrava, mas morria de saudade. "Passa-se a noite vem o sol ardente e bruto / Morre a flor e nasce o fruto no lugar de cada flor / Passa-se o tempo em que a vida é todo encanto / Morre o amor e nasce o pranto, fruto amargo de uma dor".
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