A Ética das Montanhas

A Bolívia é um dos países mais pobres e menos desenvolvidos da América Latina. As pessoas, no entanto, têm uma riqueza afetiva enorme.

Atualizado em 02/05/2013 às 16:05, por Rodrigo Viana.

A Bolívia é um dos países mais pobres e menos desenvolvidos da América Latina. As pessoas, no entanto, têm uma riqueza afetiva enorme. Alguns, mais ao Norte, têm as características de seus antepassados cicatrizadas em seus rostos. Antes da colonização europeia, a região fazia parte do histórico e lendário Império Inca.
É possível ver, por todos os lados, montanhas sem fim. A Cordilheira dos Andes, da qual o país faz parte, é imensa. São aproximadamente oito mil quilômetros de extensão, na maior cadeia montanhosa do mundo.
Ainda na ida, no avião, uma senhora de meiaidade – de traços firmes – aconselhou-me a falar sempre com muito respeito com seu povo: “Habla por favor siempre”, disse ela com ternura. E foi assim, com gentileza, calma e muita dor no coração que conversei com os pais, amigos e com toda sorte de gente que presenciou a morte do garoto boliviano Kevin Beltran Espada.
O menino foi morto no último dia 20 de fevereiro, em Oruro, no oeste boliviano. Ele foi atingido por um sinalizador de navio que partiu da torcida corintiana num jogo da Taça Libertadores da América do Corinthians contra o San Jose, equipe local. Doze torcedores corintianos foram presos e estão esperando, num presídio, a conclusão das investigações da Justiça boliviana, que prevê até dois anos de prisão preventiva.
Há uma gritaria geral da mídia, aqui no Brasil, contra a prisão dos torcedores. Condições subumanas, demora na apuração do crime e inocência são alguns dos argumentos de nossos jornalistas. Argumenta-se também que um menor, de 17 anos, se entregou assumindo o crime.
Mas é preciso dizer que, além de ser menor, o rapaz só resolveu falar, em uma entrevista a um programa dominical de televisão, quando já estava em segurança no Brasil. É preciso dizer também que nossa constituição proíbe a transferência a um país estrangeiro para ser julgado por um eventual crime.
Incomoda-me a postura de alguns mídias brasileiros, que tratam o caso como se fosse a continuidade de uma partida de futebol, ou seja, com emoção e sem razão. Mas incomoda-me ainda mais a lembrança persistente da dor dos pais do garoto morto. Toda vez que lembro da conversa que tive com os dois, começo a chorar. Penso que todos os meus colegas jornalistas que falaram com eles devem sentir o mesmo. Acho que devemos o mínimo de gentileza, conforto e justiça a estes afetivos e respeitosos bolivianos.
Torço para que os jornalistas possamos olhar o caso de cima das cordilheiras da ética. Sem clubismos ou paixonites de última hora. Com a isenção que o fato merece.

é repórter, professor de Pós-graduação em jornalismo esportivo e mestre em Semiótica e Literatura