A ética condenável da Big Pharma ataca de novo

A ética condenável da Big Pharma ataca de novo

Atualizado em 14/07/2010 às 16:07, por Wilson da Costa Bueno.

Não tem jeito mesmo. O negócio é ampliar, sempre que possível, as denúncias sobre a postura ética de inúmeros laboratórios farmacêuticos que insistem em penalizar os consumidores em prol de um lucro ganancioso, irresponsável.
Depois de tantas denúncias já levantadas (e comprovadas) contra a Big Pharma (expressão utilizada lá fora para designar os maiores laboratórios), a Folha publicou no dia 14 de julho de 2010 (p.C9) mais uma, absolutamente contundente, reproduzindo reportagem assinada por Gardiner Harris, do New York Times, com o título "Laboratório ocultou os riscos de medicamento para diabetes".
Os dados são estarrecedores e envolvem a SmithKline Beecham. Vamos a eles, começando pelo lead da matéria da Folha de S. Paulo:
" Em 1999, a farmacêutica SmithKline Beecham lançou, em segredo, um estudo para descobrir se seu remédio Avandia, para diabetes, era mais seguro para o coração que o rival Actos, da Takeda. Os resultados do estudo, completado no mesmo ano, foram desastrosos. O Avandia não era melhor que o Actos e, pior, provocada ainda mais riscos cardíacos. Em vez de publicar os resultados, contudo, a empresa passou os 11 anos seguintes tentando acobertá-los, segundo revelam documentos aos quais o 'New York Times' teve acesso."
É suficiente para revelar a intenção nefasta da empresa ou você, que nos lê, quer mais? Pois então, acrescentemos, ainda baseados na reportagem reproduzida no caderno Cotidiano da Folha: um executivo da empresa, nome Martin I. Freed, em e-mail de 29 de março de 2001, dizia categoricamente: "atendendo a pedido da direção da empresa, esses dados não devem ser vistos por ninguém de fora". Ou seja, houve intenção deliberada de ocultar tudo, de impedir o acesso a informações que comprovavam os prejuízos causados pelo medicamento e, desde que o remédio passou a ser comercializado, tudo foi feito para que ninguém soubesse de coisa alguma.
Como mentira tem perna curta (ainda que tantos anos de venda de um medicamento perigoso representa um prazo longo demais), um dia, a farsa se desfez. Um cardiologista da clínica Cleveland, em 2007, conforme a reportagem, denunciou o fato e pouco a pouco as evidências do risco de consumo do Avandia se tornaram maiores. Agora, uma comissão da FDA (agência que regula medicamentos nos EUA) estuda (precisa estudar com tantos dados sobre a postura não ética, não transparente do laboratório?) proibir a sua comercialização.
Vários ensinamentos podemos tirar de mais este episódio envolvendo a Big Pharma. Em primeiro lugar, não se pode confiar nela porque, em nome dos lucros vultosos, é capaz de tudo, inclusive de ludibriar os consumidores e colocar sua vida em risco. Em segundo lugar, a tal da FDA "pisa na bola" com freqüência e há casos recorrentes de suspensão de venda de remédios depois que eles já comprometeram a saúde dos pacientes. Há quem garanta que o FDA é ineficaz, cúmplice pela sua própria inoperância. Em terceiro lugar, é preciso suspeitar dos estudos pretensamente científicos realizados sob o patrocínio de laboratórios porque eles são, em geral, sabidamente tendenciosos. Finalmente, os comunicadores da saúde e os jornalistas deveriam ser menos ingênuos e não insistirem na divulgação de releases da indústria farmacêutica, sem qualquer espírito crítico.
Já indicamos algumas vezes a leitura do livro "A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos: como somos enganados e o que podemos fazer a respeito", de Marcia Angell, aqui publicado pela Record. A autora foi editora de uma das mais prestigiadas publicações especializadas em Medicina/ Saúde do mundo (New Engalnd Journal of Medicine) e foi considerada uma das 25 pessoas mais influentes nos EUA pela revista Time. Integra também o Departamento de Medicina Social da Harvard Medical School. Logo, não está sob suspeita e devemos levar suas denúncias e reflexões a sério.
O livro de Marcia Angell é, todo ele, revelador, mas vale a pena sobretudo ler os capítulos 7 (Venda agressiva... Chamarizes, subornos e propinas), 8 (Marketing disfarçado de informação educativa) e 9 (Marketing disfarçado de pesquisa) porque eles dizem respeito a estratégias safadas de comunicação/marketing com o intuito de "ferrar" o consumidor.
Não pretendemos generalizar para todos os laboratórios farmacêuticos, mesmo porque seria irresponsabilidade da nossa parte, e não devemos ignorar que investimentos em pesquisa e na fabricação de novos fármacos contribuem para aumentar a qualidade de vida e têm salvado vidas ao longo dos anos. Mas o importante é que fique o alerta: desconfie sempre da Big Pharma porque ela costuma, com a maior cara de pau, colocar os lucros acima do interesse público.
A imprensa (com menos intensidade do que deveria, mas é fundamental saudar a Folha de S. Paulo pelas reportagens recentes e elucidativas sobre a falta de postura ética da Big Pharma), as entidades da área médica e pesquisadores independentes têm denunciado com vigor a relação espúria entre laboratórios, profissionais de saúde e farmácias no sentido de estimular o consumo de medicamentos, alguns de eficácia duvidosa e muitos de alto risco para consumidores, especialmente de determinados segmentos (idosos, crianças, grávidas, pessoas com problemas gástricos, renais, diabéticos, hipertensos etc etc).
Já explicitamos também - e devemos insistir neste ponto sempre - a relação não ética entre congressos e a Big Pharma, com intervenção direta na programação de palestras e na divulgação de estudos como esse realizado pela SmithKline Beechan sobre o Avandia.
Como comunicadores e jornalistas, comprometidos com a ética, a transparência e o interesse público, recomendamos a não utilização, sob qualquer hipótese, de material oriundo de laboratório farmacêutico sobretudo para divulgação de medicamentos porque não temos, necessariamente, conhecimento suficiente para discernir a sua legitimidade. Devemos também descartar qualquer tentativa de associar laboratórios não éticos com responsabilidade social, mas, assim como acontece com as agroquímicas, empresas de tabaco etc, o discurso tem sempre esta intenção manipuladora.
Temos que continuar chamando a atenção das autoridades para o uso de material informativo publicado por farmácias para a divulgação de medicamentos, o acesso facilitado a remédios nos balcões e a venda (você viu a reportagem de capa da Veja SP desta semana sobre as farmácias?) indiscriminada e irresponsável de medicamentos, mesmo daqueles que exigem prescrição médica.
Estamos diante de uma verdadeira indústria da saúde, nefasta, mesquinha, e as exceções, que nem são muitas, confirmam a regra. Como consumidor, fique atento sempre e desmascare a ação de muitos representantes das farmacêuticas (não vamos generalizar também para não sermos injustos) que freqüentam com desenvoltura os consultórios, oferecendo vantagens para profissionais não éticos (os éticos repudiam este assédio escandaloso, felizmente).
Repudie, com veemência, a ação de balconistas vestidos com jalecos de laboratórios e que, em muitos casos, como já presenciei, fora dos balcões distribuem folhetos de medicamentos, induzindo pessoas incautas ao consumo.
Preste atenção a uma nova realidade: a aquisição de fabricantes de genéricos por grandes laboratórios como forma de evitar a concorrência, visto que muitos genéricos (não confie também em muitos laboratórios que vendem estes produtos) têm preços sensivelmente menores dos que os de marca.
Sejamos críticos, espertos, comprometidos com a educação para a saúde e não poupemos empresas não éticas que atentam contra o consumidor, o cidadão.
Diga não à ganância da indústria da saúde, exija das autoridades (mas cuidado porque muitas delas fazem parte do esquema, por má intenção ou negligência explícita) punição exemplar para aqueles que insistem em sobrepor os lucros à defesa da saúde e não acredite que apenas com medicamentos é possível melhorar a qualidade de vida.
Desconfie sempre porque nessa área o jogo nem sempre é limpo, apesar das roupas impecavelmente brancas. A sujeira não costuma estar na superfície, mas no caráter , no DNA de empresas socialmente irresponsáveis.
Para não dizer que sou injusto ou radical (radical vem de raiz e é necessário não perder o vínculo com o interesse público), meu reconhecimento e meus cumprimentos efusivos às empresas que levam a ética e a transparência ao pé da letra e que, infelizmente, acabam sendo contaminadas pela postura daquelas que apostam na ingenuidade e na falta de vigilância de todos nós.
Cuidado: A Big Pharma pode fazer muito mal para a nossa saúde.