A estudante de Jornalismo que fez tremer os EUA

A estudante de Jornalismo que fez tremer os EUA

Atualizado em 23/09/2009 às 15:09, por Silvia Dutra.

A estudante de jornalismo Hannah Giles, de 20 anos, aluna da Florida International University aqui em Miami, resolveu passar as férias escolares percorrendo o país junto com seu amigo, o estudante de Direito James O'Keefe, para investigar uma organização não governamental que existe aqui nos Estados Unidos chamada Acorn.

O que começou como uma brincadeira de verão de dois jovens universitários acabou virando um escândalo nacional, causando a demissão e investigação pela Polícia de funcionários da Acorn, e botando lenha na fogueira das rivalidades entre republicanos e democratas, enquanto Obama tenta alcançar algum consenso entre representantes dos dois partidos para aprovar seu plano de reforma do sistema de saúde pública.


Fundada em 1970 no Arkansas, um dos estados mais pobres do país, a Acorn é uma entidade que luta pela elevação do salário mínimo, programas de habitação mais barata para as classes pobres e maior participação popular nas eleições. Também provê serviços de encaminhamento de pessoas carentes a programas sociais patrocinados pelo governo. Embora não tenha afiliação partidária, é considerada uma entidade que apóia os ideais e objetivos dos democratas e rejeita os dos conservadores republicanos.

Aqui, votar é um ato voluntário, não obrigatório. Ninguém tem título de eleitor. Quem deseja votar em alguma eleição deve antes se registrar em entidades cadastradas pelo governo para esse fim.

Nas eleições de 2008 a Acorn foi acusada de forjar o cadastramento de eleitores fantasmas. Semana passada, em Miami, 11 de seus representantes foram presos quando as autoridades acharam provas de que eles haviam submetido aproximadamente 200 registros falsos.

Vestindo roupas provocantes e se apresentando como uma prostituta, a futura jornalista Hannah Giles visitou durante dois meses vários escritórios da Acorn, acompanhada por O'Keefe, igualmente caracterizado como seu gigolô. Ambos registraram em vídeo orientações ilegais e imorais que receberam de representantes da Acorn. E depois, evidentemente, colocaram o vídeo no YouTube e ficaram de camarote, vendo o baile pegar fogo.

Funcionários da entidade em Baltimore, Washington, New York e San Bernardino, Califórnia, ofereceram conselhos de como o casal poderia conseguir dinheiro fácil para comprar uma casa utilizando um dos programas de ajuda aos sem teto. E depois da casa comprada como eles poderiam evitar pagar impostos começando um serviço de prostituição, contratando para o "trabalho" menores vindas de países pobres da América Central. Outra funcionária foi filmada dizendo que já havia gerenciado um bordel e que inclusive havia assassinado o próprio marido. Há depoimentos tão absurdos que são quase inacreditáveis.

O pior é que são legítimos. E assim que caíram na Internet provocaram o fechamento temporário de todos os escritórios da Acorn pelos Estados Unidos para o "retreinamento" do staff. Os funcionários gravados no vídeo foram demitidos e serão investigados pela Polícia. Quinta passada o Congresso, por 345 votos contra 75, negou o repasse de mais verbas federais para financiar as operações da Acorn.

A mídia conservadora elevou o casal Giles - O'Keefe à condição de "heróis", por ter exposto os podres de uma ONG relacionada com os democratas. Enquanto outros segmentos da mídia e oficiais dos altos escalões da Acorn desdenham do vídeo e acusam o casal de fazer parte de uma campanha republicana para distrair a população da discussão da reforma no sistema de saúde pública. Bertha Lewis, uma das diretoras da Acorn, disse que o casal passou meses visitando vários escritórios da entidade até conseguir as respostas que estavam procurando. E não incluíram no vídeo as orientações legais que receberam de bons funcionários da Acorn em muitos outros escritórios visitados.

Não vou entrar aqui no mérito do que motivou dois estudantes universitários a passar as férias de verão gastando suas economias investigando mais profundamente uma ONG. Hannah Gilles é filha de Doug Gilles, pastor presbiteriano, fundamentalista, que tem um show de rádio numa cidade aqui do sul da Flórida e inequívoca simpatia pelos ideais republicanos. É bem provável que pai e filha compartilhem dos mesmos ideais.

Seu parceiro de aventura, George O'Keefe, é um ativista contrário ao aborto, outra bandeira dos republicanos. Que, diga-se de passagem, também são contrários às pesquisas sobre células tronco, o ensino da teoria evolucionista e educação sexual nas escolas, entre outras coisas.

Não sou cidadã americana, só residente. Portanto não voto. Se votasse, jamais seria apoiando os republicanos, que deram ao País presidentes da estatura moral, inteligência e honradez de Abrahaam Lincoln . E, mais recentemente, também o fiasco que foi George W. Bush. Mas não posso deixar de admirar os esforços investigativos dos dois jovens. E o serviço que eles acabaram prestando à nação, expondo os podres dessa ONG e evitando que mais dinheiro público fosse mal empregado. E tudo isso também me faz ficar ainda mais apaixonada pelo Jornalismo. Porque nenhuma outra profissão, no meu entender, exige de quem a segue uma boa dose de ousadia, criatividade, coragem e gosto pela aventura.

Há vários segmentos sobre as aventuras de Gilles e O'Keefe no YouTube. Esse é um deles: