A despeito de solidez econômica e democrática, crise do jornalismo se acentua na Europa
Focado em 32 países, dos quais 27 integram a União Europeia e cinco pleiteiam fazê-lo, o Monitor de Pluralismo da Mídia do European University Institute, cuja edição 2024 acaba de ser lançada, indicou um cenário de declínio da liberdade de imprensa e do exercício da atividade jornalística na região.
Atualizado em 23/07/2024 às 11:07, por
Redação Portal IMPRENSA.
Levando em consideração quatro eixos de análise (Proteção Fundamental, Pluralidade de Mercado, Independência Política e Inclusão Social), o trabalho é baseado em 20 indicadores e 200 variáveis.
De acordo com a metodologia empregada, pressões e interesses comerciais e políticos comprometeram a integridade das redações e dos profissionais de imprensa, num quadro que põe em risco a independência editorial da imprensa europeia. Crédito: Reprodução No geral, a viabilidade da mídia na região foi classificada como de médio risco. Considerando a solidez econômica e democrática na região, o resultado é tido como preocupante.
Além da queda no pluralismo da indústria de notícias, numa tendência decorrente da formação de grandes conglomerados de mídia, o trabalho corrobora a ideia de que as transformações digitais e, sobretudo, o avanço do Google e da Meta sobre as verbas publicitárias que antes financiavam a produção jornalística colocaram em xeque a sustentabilidade financeira e a independência editorial da imprensa europeia.
Big techs
O estudo também destaca os desafios legais para que as big techs remunerem as empresas de notícias, num cenário em que jornais locais estão mais e mais vulneráveis. Com isso, os chamados desertos de notícias avançaram na região.
Quanto à proteção legal da liberdade de expressão, o estudo ressalva que, embora todos os países analisados tenham instrumentos para salvaguardá-la, a aplicação prática dessas ferramentas tem sido assimétrica e nem sempre harmônica.
O problema afligiria até países bem avaliados em outros rankings de liberdade de imprensa. Caso da França, que ostenta a 21ª posição na edição 2024 do Global Press Freedom Index da Repórteres Sem Fronteiras. Na lupa do European University Institute, por lá a pontuação de risco no quesito liberdade de expressão aumentou de 24% para 32%. A piora é atribuída a episódios de violência, espionagem e prisões arbitrárias de jornalistas.
Além de ressaltar a dificuldade quanto à moderação de conteúdos e ao combate à desinformação online, o estudo destacou a questão da precarização do mercado de trabalho dos jornalistas, apontando que é cada vez maior o número de freelancers ou colaboradores regulares sem vínculo nas empresas de notícias dos países avaliados.
Outro ponto destacado foi o aumento do assédio judicial contra jornalistas. Tal método de intimidação é conhecido na Europa pela sigla SLAPP (Strategic Litigation Against Public Participation, ou Ações Estratégicas Contra a Participação Pública), que remete à palavra “tapa” em inglês.
As prisões de jornalistas também são apontadas como preocupantes, num fenômeno que tampouco pouparia países bem classificados no ranking da RSF, como Holanda e Espanha.
Em termos de igualdade de gênero, a situação seria ainda pior, com pontuação de risco de 64%. Neste caso, o estudo afirma que mulheres são subrepresentadas e estereotipadas na mídia europeia.





