A descoberta do "ser" jornalista

A descoberta do "ser" jornalista

Atualizado em 04/02/2009 às 16:02, por Thaís Naldoni.

Na manhã desta quarta-feira, ao ler os jornais e conferir os principais sites de notícias, fui lembrada pelos colegas de imprensa que o dia 04 de fevereiro marca o "Dia Mundial do Câncer". Nas matérias, me chamou atenção o tema escolhido para 2009: "Controle do peso na infância", que segue um amplo projeto previsto para que dure até o ano 2012, que incentiva hábitos saudáveis desde a infância para a prevenção do câncer.

Segundo informa a União Internacional de Controle do Câncer (UICC), a obesidade, o sobrepeso, o sedentarismo e a alimentação inadequada são causas de cerca de 30% dos casos de câncer nos países ocidentais. Trata-se, ainda de acordo com a UICC, a segunda maior causa considerada evitável de câncer, atrás apenas do tabagismo.

A campanha e o envolvimento do tema infantil me devolveram à faculdade de Jornalismo. Nos primeiros anos de curso, um lindo garotinho chamado Gabriel, próximo à minha família, enfrentava um câncer. Ele tinha apenas oito anos e morava em Poços de Caldas (MG). Acompanhando sua história, seu tratamento, o sofrimento de sua família, fechei o assunto e o formato do meu Trabalho de Conclusão de Curso (o famoso TCC): câncer infantil em um livro-reportagem.

No período de desenvolver o projeto, comecei a entender o que, de fato, era ser uma jornalista e, mais que isso, descobri o motivo dessa profissão estar alocada no chapéu de "Comunicação Social". Entendi que o jornalista deve se desprender totalmente de suas amarras, seus pré-conceitos e, ainda que esteja com a sensibilidade à flor da pele, deve manter seus sentimentos em compartimento anexo, para que as emoções não afetem seu discernimento na hora de apurar e redigir um texto. Entendi também, que isso é mais complicado do que se imagina.

Naquele período, me mudei para a cidade de Campinas (SP) e passei alguns meses fazendo visitas diárias à Associação de Pais e Amigos da Criança com Câncer e Hemopatias (APACC) e o Instituto Boldrini (centro de referência em combate ao câncer infantil) para acompanhar o dia-a-dia, o tratamento das crianças, as dificuldades dos pais e os impactos daquele tratamento e da doença na criança e na família.

Percebi naqueles meses em que estive totalmente focada no projeto e nas histórias daquelas pessoas, que muito mais que relatar o que ouvia e o que via, precisaria estudar a fundo a realidade sócio-econômica daquelas famílias, a máquina pública que mantém hospitais de tratamento especializado, sendo que mais de 80% das internações, tratamento e medicamentos são mantidos pelo sistema público de saúde. Além disso, precisaria conhecer a fundo cada tipo de tratamento disponibilizado, os efeitos colaterais, as dificuldades psicológicas e importância de se estimular o envolvimento da sociedade na questão, sob a forma de apoio voluntário.

Imaginem tanta novidade na cabeça de uma estudante de 21 anos? Foi então que percebi que nós, jornalistas, nunca publicamos nem falamos tudo o que sabemos que temos que falar. Que, às vezes, são tão poucos os dados disponíveis e tão pouca gente querendo ajudar. Mas, ao mesmo tempo, nossa profissão nos dá a oportunidade de abrir portas, iluminar a consciência, instruir quem quer saber mais.

Aprendi mais em minha primeira grande reportagem: que se soubermos aproveitar as oportunidades, as conversas e as informações podemos ser agentes sociais cada vez mais efetivos, esclarecedores e, por que não dizer, nos tornarmos pessoas melhores.

Lá em Campinas (SP), minha convivência com Luís, Marcela, Sarah, Carol e tantas outras crianças me deu histórias para que escrevesse um livro para cada uma. Umas tiveram bons finais: crianças curadas e de volta para casa, escrevendo os demais capítulos de um livro que tende a ser naturalmente longo e feliz. Outras, infelizmente, tiveram suas folhas arrancadas antes que pudessem concretizar aquele planejamento minucioso feito pelos seus pais quando nasceram. E partiram.

O fato é que, com informação, todos podem ajudar a redigir essas histórias com linhas mais felizes, menos pesadas, menos duras, menos solitárias. Um exemplo: tinham crianças em tratamento contra a leucemia que, ao voltarem para a escola nos intervalos das internações - e carequinhas - eram evitadas por alguns colegas, porque existiam pais que tinham medo de que a doença fosse contagiosa... isso não tem outro nome que não "desinformação".

O lindo Gabriel, que mencionei na coluna e que foi o grande estímulo para o meu trabalho, infelizmente, teve sua trajetória interrompida em 10 de fevereiro de 2001, aos dez anos de idade. A ele e a toda a sua família, meus eternos agradecimentos.

PS : O Dia Mundial do Câncer é divulgado no Brasil pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA). Para mais informações, .