"A democracia independe dos benefícios tecnológicos", diz o jornalista Eugênio Bucci
"A democracia independe dos benefícios tecnológicos", diz o jornalista Eugênio Bucci
No Painel de Encerramento do II Fórum Liberdade de Imprensa e Democracia, realizado pela Imprensa Editorial na última segunda-feira (04), o jornalista Eugênio Bucci iniciou a discussão citando um trecho da entrevista concedida pelo jornalista norte-americano Gay Talese ao jornal O Estado de S. Paulo no último domingo (03).
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| Eugênio Bucci |
Para Bucci, o valor de um profissional de mídia é construído em torno dessa ideia. Com a questão da Internet - considerada por muitos uma ameaça à mídia tradicional - ele acredita que é preciso enfrentar o problema "da qualidade da informação a que temos acesso. Ter tudo disponível não significa que tudo é verdadeiro".
No entanto, Bucci afirmou que o que faz a diferença sempre foi a credibilidade, não importa em qual meio de comunicação. "Precisamos de profissionais com competência para legitimar o público e vigiar o poder. Porque todos fazem a mesma indagação: 'em quem afinal de contas posso confiar?'".
Na palestra, Bucci afirmou que o jornalista tem como único dever o cultivo da liberdade; ela deve ser encarada como uma cotidiano da atividade jornalística. "O questionamento diário do profissional deve ser: 'estou sendo livre?'. Exercer a liberdade de imprensa é forçar limites de sua própria liberdade. Se isso não ocorre, a verdade dos fatos não se revelará".
A credibilidade na era digital, disse ele, passará pelo primado da liberdade e pelo primado de tornar transparente a composição da reportagem. Ninguém do público cobra a perfeição, mas a boa fé e a transparência no negócio da informação. "O jornalismo, afinal de contas, é uma atividade discursiva que faz sentido na subjetividade. São pessoas que conversam com pessoas para falar sobre pessoas para outras pessoas. A objetividade na imprensa só é possível como inter-subjetividade", explicou.
Questionado sobre a obrigatoriedade do diploma, Bucci declarou que a possibilidade de isso restringir a liberdade do jornalista "é muito séria. Acredito que no caso brasileiro a exigência do diploma contribuiu para melhorar a profissão, exerceu um papel civilizador, mas talvez esse já seja um papel encerrado. Mas o que separa uma boa de uma má escola de jornalismo não tem a ver com a exigência do diploma".
Sobre a democratização da informação com a Internet, o jornalista afirmou que não gosta de dizer que ela é um meio de comunicação. "É um mercado, é um lugar para as pessoas namorarem, jogarem; é a vida acontecendo virtualmente. A Internet incorpora várias atividades, entre elas os meios de comunicação. Esses têm mais propensão ao diálogo, por isso tendem a ser mais democráticos, mas não sei se isso é suficiente para caracterizar um veículo. Existem jornais convencionais que são mais democráticos - fiéis ao compromisso de relatar o que é importante e cumprir o seu papel. A democracia independe dos benefícios tecnológicos", concluiu.
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