“A democracia é o espaço da dissonância”, diz chefe da SECOM à IMPRENSA

Na galeria imaginária dos Secretários de Comunicação Social da Presidência da República, com status de ministro ou não, há muito não era nomeado uma cabeça jovem.

Atualizado em 30/09/2016 às 16:09, por Sinval de Itacarambi Leão.

Mais tarde chegou o fotógrafo Orlando Brito, que também participou da sabatina.
A pièce de résistance foi a EBC, nó górdio que inaugurou o governo de Michel Temer. Não faltaram outros, como a Internet e questões pontuais tendo em vista que se falou do papel do porta-voz da presidência e rupturas do pensamento único, inimigo da democracia. Crédito:Orlando Brito

“Nosso objetivo é dar padrões mais eficazes à comunicação, melhorar as condições de produção. E, para isso, precisamos fazer aportes financeiros para recuperar a empresa desse ‘sucateamento’ e tirar a sua questão ideológica. Ela tem que ter resultados expressivos para o cidadão brasileiro”, diz Freitas sobre a EBC.
Gorgulho e eu levamos perguntas de outros jornalistas. Pedro Dória, de O Globo , Ethevaldo Siqueira, do blog Telequest, Denise Rothenburg, do Correio Braziliense , e Sebastião Nery, um dos decanos do jornalismo brasileiro.
Mineiro de Manhumirim, Freitas militou durante a ditadura na “República de Juiz de Fora”. Trabalhou nos jornais Tribuna de Minas, Hoje em Dia e Jornal do Brasil . Foi assessor do presidente Temer desde 2008, na Câmara dos Deputados. Também foi diretor de comunicação do Instituto Teotônio Vilela, do PMDB, e diretor de comunicação da vice-presidência da República de 2010 a 2016.
Confira abaixo o “pinga fogo” com Márcio de Freitas.
Sinval Leão – Como o governo Temer irá lidar com a EBC?
Márcio Freitas – A EBC estava ganhando um caráter político, partidário, aí tivemos que retirar esse caráter da empresa. Ela tem que atender a quem? Ao povo brasileiro. Tem que levar informações de utilidade pública às pessoas. Tem que ter um sentido de atender ao cidadão que está pagando efetivamente por isso. Nosso objetivo é dar padrões mais eficazes à comunicação, melhorar as condições de produção. E, para isso, precisamos fazer aportes financeiros para recuperar a empresa desse “sucateamento” e tirar a sua questão ideológica. Ela tem que ter resultados expressivos para o cidadão brasileiro. Para melhorar a comunicação e atender essas demandas, vamos ter que fazer uma reformulação. Temos um presidente que tem experiência, é um jornalista reconhecido, o Laerte Rímoli, e esperamos que rapidamente ele assuma o controle da empresa e comece a definir esses novos padrões.
Sinval Leão - A modelagem dessa reformulação seria em que padrões? Existe um consenso de que a melhor televisão pública que existe é a BBC, mas existem também padrões de outras televisões públicas que são feitas por fundações, na linha da arte, da educação etc. Qual dessas modelagens o Governo Temer acha que seria importante?
Márcio Freitas - Há diversas tevês públicas em todo o mundo. A Europa tem muita tradição, a BBC é um modelo excepcional, até pela qualidade técnica, pelo sistema de financiamento, pelo seu histórico. A gente ainda está muito distante disso. A BBC hoje não é uma TV só da Inglaterra, é um patrimônio mundial. Hoje a EBC ainda não tem efetivamente nenhuma comunicação com o público brasileiro, um share. A audiência da atualmente é muito baixa, então a reformulação nos pede um pé no chão nesse sentido. Desculpe a palavra, tem que recuperar o sucateamento, viabilizar a empresa financeiramente, fazer parcerias inclusive com outras tevês. A própria EBC tem produtos voltados para determinados segmentos que hoje não estão na linha de produção da grande mídia. Mas nós temos que fazer um desenho que seja mais comedido, mais de acordo com nossas limitações financeiras e ter o pé na realidade. Acho que o modelo que vejo é de parceria com outras emissoras. Temos canais aqui que podemos desenvolver e que já estão desenhados, como a TV Escola. Muitas vezes vemos carência de conteúdo pedagógico, educacional, de esclarecimentos sobre saúde, voltado para o segmento cultural. Isso tem que ser feito unindo forças.
Ethevaldo Siqueira, blog Telequest - Como as parcerias que a EBC pode fazer com universidades, emissoras universitárias, tevês de outros estados, levarão mais serviços e outros tipos de operações para a população, principalmente na linha da educação?
Márcio Freitas - Objetivamente, para construir isso, temos que sentar à mesa, conversar. Em primeiro lugar, gerar a produção de conteúdo e diminuir custos. Isso é fundamental para uma emissora que hoje tem dificuldade em pagar mais funcionários, de gerar mais produtos. Então, se tem essa limitação dentro da sua casa, tem que buscar com quem tem condições de fazer. Você pode fazer parcerias com as tevês legislativas para debates políticos que estejam tratando de reformas essenciais, políticas públicas que possam ser melhoradas e aprimoradas, que leve isso para um debate mais amplo. Pode discutir com a TV Justiça modelos de esclarecimento, de acesso à Justiça. Estamos completamente abertos a parcerias. Quando falamos das questões de faculdades ou de outros estados, fazemos uma imersão na diversidade do país. O Brasil é um país muito amplo, que tem características múltiplas. Ouvir esses parceiros que estão em determinados estados, que trazem características culturais diferentes, uma linguagem diferente, um sotaque mais rico, complementa a cultura brasileira. Não podemos ficar só centrado em Brasília, São Paulo, tem que abrir para o Rio Grande do Sul, para Pernambuco, para o Norte do país. Se tem um parceiro, uma faculdade, um centro pedagógico que tem uma condição interessante para nós, vamos conversar, trazer isso e ver como a gente desenvolve. Crédito:Orlando Brito Silvestre Gorgulho, ex-secretário de Cultura do DF, perguntando por Sebastião Nery, autor sobre o folclore político brasileiro - Passei oito anos dentro do pensamento único da igreja Católica. Depois passei oito anos dentro do pensamento único do Partido Comunista. Democracia é não aceitar pensamento único. Hoje o grande problema do pensamento cultural e político brasileiro é acabar de livrar-se do pensamento único do PT. O que o Governo vai fazer para manter o Ministério da Cultura, o Ministério da Educação, EBC e os demais órgãos culturais e de comunicação longe da praga do pensamento único?
Márcio Freitas – Estamos abertos justamente para ouvir as diferenças. Seja na cultura, na educação ou em outras áreas, inclusive na economia, porque na economia a gente vê muito que há o pensamento único. Muitas vezes você precisa discordar, precisa debater. Uma característica que a gente tem no Governo, até porque o presidente Temer ficou por tantos anos no Parlamento, é que ele é aberto ao debate. É uma pessoa que busca o consenso, trazendo as pessoas para a mesa para dialogar. Isso é fundamental. Então se você tem uma crítica, ele não tem problema em reconhecer, por exemplo, quando erra. Tanto é que no caso do Ministério da Cultura que ele extinguiu e depois, conversando com amigos, ouvindo a crítica que foi feita pela mídia, foi lá e falou “vou rever minha posição” e recriou o Ministério da Cultura.
Silvestre Gorgulho - Não tem compromisso com o erro?
Márcio Freitas - Que é a frase que ele usou. Tem uma frase do Juscelino Kubitschek que usou inclusive num de seus primeiros discursos aqui no Palácio justamente por isso. Ele realmente não tem compromisso com o erro. Se há a consciência de que você está errado, você precisa rever seu modelo. Em outro sentido, se tem um pensamento muito autoritário, um pensamento único que tenta impingir, acaba sendo um verdadeiro ditador. Essa posição numa democracia não tem espaço nenhum. A democracia é o espaço da dissonância, do debate, da discordância, mas sempre procurando fazer isso com educação e com uma certa elegância. Outra coisa que o presidente é aberto é ouvir a mídia. Lembro que das decisões do Governo que acho uma das mais significativas sobre como funciona a cabeça do Governo atual foi tomada em função de uma reportagem do jornal O Globo que mostrava que diversos órgãos estavam sendo perdidos para transplante porque não havia disponibilidade para o transporte. Quando o presidente tomou conhecimento disso, uma das ideias que foi levantada foi que uma aeronave da FAB ficasse à disposição para fazer esse transporte e imediatamente, a partir daí, no primeiro mês foram mais de 50 órgãos transportados. O papel da mídia é importante por isso, porque aponta os erros e o Governo tem que estar aberto a reconhecer esses erros, equívocos e omissões para corrigir os problemas. Isso é fundamental na democracia. É por isso que existe o poder do povo e a imprensa vocaliza o que a população pensa, então o Governo tem que estar atento aos seus representantes, sejam os eleitos, sejam aqueles que são instituídos como a imprensa.
Denise Rothenburg, Correio Braziliense - O fato do Governo estar operando com dois Ministérios políticos, você tem informação às vezes demais e pouca informação de qualidade saindo simultaneamente. A questão do porta-voz não resolveria esse problema?
Márcio Freitas - Na verdade, você tem vários, porque é um Governo com características parlamentares. Quem fala pela saúde é o ministro da saúde, não mais um parlamentar. Isso está gerando uma certa multiplicidade de posicionamentos. Eu não sei se é ruim. É um governo que é incentivado a falar, mas isso tem gerado problemas de interpretações de posicionamentos. Até brinquei que muitas vezes a posição não é do presidente, é de algum ministro. Não há uma definição sobre esse assunto, mas acaba acontecendo o seguinte: passa essa impressão que é uma posição do governo. Então o ministro fala sobre um assunto e aquilo ali fica uma posição do presidente, quando não é. Muitas vezes o ministro expressa uma posição, o presidente expressa outra e prevalece, claro, a posição do presidente. Isso gerou várias interpretações de que houve recuo do governo em determinados assuntos. Até brinquei com um grupo de jornalistas aqui que parece que o governo já recuou tanto, que quando ele viajou a China, achei que a narrativa seria assim: “o presidente deixou o Brasil, foi a China e recuou de volta para o Brasil”. Porque tantas vezes o governo tem sido chamado pela imprensa de um governo que recua. Isso é um debate que tem sido feito hoje internamente, se realmente vale a pena ter alguém que rotineiramente, diariamente explique a posição oficial do presidente da República para a mídia como um todo.
[Atualização: No dia 28/9, a Secretaria de Comunicação Social informou que o diplomata Alexandre Guido Parola será o porta-voz do governo do presidente Michel Temer]
Pedro Doria, do O Globo - Estamos numa era em que acesso à internet tornou-se essencial. Comércio exterior não funciona sem. Nenhuma indústria pode prescindir. Não bastasse, o setor de TI é uma indústria extremamente rentável e com baixa barreira de entrada. Acesso à internet já é um dos itens que reforça desigualdades no Brasil. Crianças criadas com acesso pleno têm uma vantagem inegável na largada perante as que não convivem com o digital. O Brasil precisa de uma infraestrutura de melhor qualidade e a preços mais baixos. Quais as políticas do governo Temer para lidar com o alto custo e a baixa qualidade da infraestrutura de internet no Brasil?

Márcio Freitas - Esse é um assunto que passa pelo Ministério das Comunicações. Confesso que quando a gente trata de um assunto de outra pasta, prefiro que o ministro dela, no caso o da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, que é o Gilberto Kassab, trate do assunto. Mas acho que assim, a gente tem que procurar trabalhar para a redução desses custos. Realmente, no Brasil hoje você tem, por exemplo, só de usuários de celulares, pessoas que têm acesso a redes sociais, mais de cem milhões. Isso tem um custo, claro, se procurar diminuir esse custo vai melhorar a condição de acesso dessas pessoas. Quanto mais rápido o governo fizer isso, mais terá disseminação de conhecimento. Você tem que fugir do modelo que foi feito nos anos 1980 de reserva de mercado, aquilo não deu certo. O Brasil perdeu muito tempo com aquele modelo, tentava preservar fechando o país para o acesso de computadores estrangeiros. Até o jornalista Elio Gaspari brincava que era mais fácil importar cocaína do que computadores.

Sinval Leão - A secretaria terá uma preocupação muito grande nessa cesta de formatos de comunicação com a cidadania de usar a internet. Esse tipo de ação está subordinado a ação da secretaria aqui. O que você tem a curto prazo previsto para aumentar ou incentivar esse tipo de ações de comunicações com a cidadania?
Márcio de Freitas - O governo tem que ter uma linguagem mais uniformizada para conversar. Hoje o próprio governo nas redes sociais tem uma dificuldade de relacionamento consigo mesmo. Ministérios não conversam com outros ministérios, com outros órgãos. A gente tem um projeto de fazer uma comunicação mais integrada. Buscar fazer parcerias, seja uma relação convencional de assessoria de imprensa, de estratégia de publicidade, mas trazer isso também para as redes sociais. A partir desse momento, a gente está lançando alguns projetos justamente para isso. Melhorar a nossa relação social com as nossas redes internas e, a partir disso, se comunicar mais e mais eficiente com o povo brasileiro. Isso precisa ser corrigido, se você não se comunicar internamente bem, não vai falar com as pessoas lá fora de uma forma eficiente. Isso é ponto pacífico. Se você não trabalhar imediatamente para arrumar a casa vai ser difícil fazer isso para fora.