A cultura popular não morrerá nunca / Por Eugênio Rego - UESPI

A cultura popular não morrerá nunca / Por Eugênio Rego - UESPI

Atualizado em 03/10/2005 às 12:10, por Por: Eugênio Rego e  estudante de jornalismo da Universidade Estadual do Piauí.



A afirmação é do jornalista e radialista Assis Ângelo, que há cerca de três décadas em São Paulo divulga a produção cultural nordestina para todo o País
Assis Ângelo é jornalista, escritor, compositor, pesquisador e estudioso da cultura popular. Foi editor, colunista e colaborador de veículos importantes de comunicação do País como os jornais a Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Pasquim, Jornal de Brasília além das tvs Globo e Manchete, entre outras.É autor de nove livros e foi consultor da gravadora BMG para o lançamento de LPs e CDs de Luiz Gonzaga e mais recentemente para a trilha sonora do filme "Pelé Eterno", entre vários outros trabalhos de destaque. Desde abril de 1998, produz e apresenta, na Rádio Capital, o programa "São Paulo, Capital Nordeste", que se tornou referência nacional e líder de audiência nas noites de sábados. Assis Ângelo foi um dos palestrantes do III Salão do Livro do Piauí, falando sobre "Cultura Popular"., Nesta entrevistam, entre outros temas, ele fala sobre a influência da cultura nordestina no Sudeste brasileiro.

Pra começar, faça um painel da influência nordestina na cultura popular do sudeste, principalmente São Paulo.
Sem dúvida, é muito forte a presença da briosa gente nordestina na cidade de São Paulo. e isso não é difícil de explicar e tampouco de entender, pois desde o começo do século passado São Paulo passou a ser considerado o "El Dorado" brasileiro.Ttambém uma espécie de Canaã (a cidade bíblica), um lugar mágico, como o país de São Saruê, em que tudo que se plantasse, dava a granel. E foi assim por muitos anos, e de certa forma assim continua, pois não é por acaso que São Paulo é considerada hoje a terceira ou a quarta maior cidade do mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas. O auge disso tudo foram os anos 70, se bem que nos anos 50 já era notável a presença determinante dos nordestinos na cidade que mais cresce no país e na américa do sul. Basta dizer que a mão-de-obra nordestina, que pôs a cidade de São Paulo para cima - literalmente falando -, foi a principal marca do seu quarto centenário, em 1954. Os primeiros grandes edifícios de são paulo começaram a surgir por essa época, nos 50. Então, com a chegada dos nordestinos, principalmente de baianos, pernambucanos, cearenses e paraibanos - os primeiros -, a cidade, já cosmopolita, ganha, com a mistura de cores e raças, um perfil multifacetado. A influência cultural nordestina no dia-a-dia de São Paulo é óbvia. Nessa cidade habitam cerca de 6 milhões de nordestinos e descendentes. A influência está na fala, no vestir, na alimentação, na música, nos folguedos juninos. Outro dia mesmo fui falar para crianças e adolescentes numa escola do bairro da Freguesia do Ó. o assunto: literatura de cordel. Há bairros inteiros habitados por maioria nordestinos, como o Brás e Santo Amaro, na zona leste e na zona sul, respectivamente. Santo Amaro é um bairro com mais de 1 milhão de habitantes. na verdade, os nordestinos estão espalhados na cidade inteira, de norte a sul...

Apesar de estarmos no século 21, em que o descartável vive seu melhor momento, a cultura popular permanece perene. Por que isso acontece?
Por uma razão simples: a cultura popular não morrerá nunca. E se isso acontecer, o mundo todo se acabará. Não esqueçamos: é o povo, a gente anônima, que dá identidade a um país. Há alguns anos promovemos, junto com a companhia paulista de trens metropolitanos (cptm) e metrô de são paulo, o primeiro e o segundo concursos paulistas de literatura de cordel. Detalhe: o vencedor do nosso segundo concurso foi um piauiense, o (cordelista) Pedro Costa.

O que acha do "forró universitário", feito atualmente por grupos como o Falamansa?
AA: Não foi o grupo nordestino-carioca Falamansa que fez ou criou o forró universitário em São Paulo, como tal é conhecida hoje essa bobagem. "Forró Universitário" é uma expressão surgida espontaneamente a partir das apresentações de um grupo musical nordestino, de Caruaru (PE), chamado Trio Virgulin, nos anos 80, no interior do estado. Logo esse grupo começou a se apresentar para estudantes da USP (Universidade de São Paulo) em barzinhos localizados na região universitária. dá pra entender? Esse grupo toca e canta o que há muito se convencionou chamar de forró pé de serra, mas como se apresentava na região universitária da cidade... daí, um passo! A expressão estava criada: forró universitário, cunhada por um repórter da revista "Istoé". que fique claro: "forró universitário" não é gênero musical, é apenas uma expressão mal usada, aplicada a um tipo de música malengembrada ou malamanhada, no caso, a meu ver, do Falamansa e outros grupos que fazem pular com letra besta e melodia idem, e que pode ser tudo menos forró nordestino. Ao contrário, (ícones como) Luiz Gonzaga! A sua música está aí, vivinha da silva. Arte é Arte. Popular ou Erudita. O que nos faz bem, não esquecemos.

De uns cinco ou seis anos para cá, o Nordeste ganhou mais visibilidade no cenário nacional com filmes, espetáculos de dança abordando sua cultura, especiais de tv, novelas. Como você vê isso?
Acho isso ótimo. É como se os brasileiros começassem a descobrir o Brasil. Aliás, já era tempo.Não faz muito, estive participando de um festival de cinema em Olinda (PE), com um curta metragem chamado "Boi". Foi uma coisa incrível o que vi lá. Um monte de filmes tratando das bonitezas infindáveis do nosso nordeste, através de quadrinhos baseados na xilogravura de um J. Borges, por exemplo. Os documentários nordeste da tv Cultura/Universitária/Educativa são ótimos. Os documentários de modo geral apresentados por outras tevês também. Gostaria que fossem apresentados com mais frequencia. Algumas novelas da plim-plim (Globo) são interessantes: muitas são situadas no nordeste, como seus personagens, mas parecem caricatas. Coisas da globalização Mas tem um detalhe: isso mostra a importância, a riqueza cultural da região. Enfim, não é à toa que a tv Globo está sempre de olho no nordeste, na gente, não é mesmo?

Ainda existe preconceito contra o nordestino no sudeste?
Infelizmente, sim. O preconceito é um cranco secular que só pode ser extirpado pela educação, pela cultura. Os governos têm culpa nisso. Aliás, curioso: a frase "o melhor do Brasil é o brasileiro" é do folclorist Lluís da Câmara Cascudo e aí vem o "governo estrelao" do momento e, sem mais nem menos, esconde a autoria da frase de tão importante brasileiro. Pode? Isso é ensinar pela metade. Será por que o cascudo era um cidadão nordestino nascido no belo estado do Rio Grande do Norte? Não quero crer, mas tudo é possível nestes tempos bicudos, infelizmente.

Um professor pesquisou que muitos nordestinos devotos de determinado santo acabam esquecendo seus credos e assimiliando outros quando vão morar em São Paulo. Na sua opinião, acha que a cultura popular do sudeste é mais forte do que as raízes do homem nordestino?
Não que a cultura sudestina seja mais forte ou menos forte que a nordestina. não é isso. Em São Paulo as culturas pululam, como as línguas, as raças, os sotaques. Em muitos casos há inversão de valores e perda de identidade. Mas não é geral. Essa inversão de valores e/ou perda de identidade parte da camada de uma população sem instrução, de uma quantidade infinda de brasileiros sem profissão definida, deserdada da vida e isso é ruim, é grave. O sujeito é analfabeto, por exemplo, pobre, sem dinheiro etc. Natural que queira se igualar às pessoas de nível social elevado e aí ele troca de santo, de religião, de amigo, de tudo, de pai e até de mãe numa tentiva vã de se igualar ao inigulável pelas circunstâncias. Ele vira uma caricatura de si mesmo

Na feira Piauí Sampa, que aconteceu em no mercado público de SP, percebi que as pessoas não conhecem nosso estado. Observei que essa falta de informação é que, na verdade, causa o afastamento...
Costumo dizer nas minhas palestras e nos meus programas de rádio, agora na alltv (www.alltv,com.br), que nós brasileiros não conhecemos o Brasil como deveríamos conhecer. Conhecemos o exterior, as fantasias dos outros países; quando o que precisamos, mesmo, em primeiro lugar, é conhecer a nossa casa, que é o nosso país, a nossa realidade. Depois, a casa dos outros, que são os outros países. O desconhecimento leva à ignorância. aliás devo dizer, também, que fiquei encantado com tudo que conheci há pouco no Piauí, desde o museu do ZéDidor (em Campo Maior), passando pelo Memorial do Jenipapo, onde é guardada a memória dos piauienses que lutaram pela independência do estado - e do Brasil -, até o encontro dos rios Parnaiba e Poti, no Parque Ambiental, onde é contada, através de um monumento feito por um artista nativo, a lenda mais representativa do estado, a do cabeça-de-cuia O Piauí é uma bela terra. onde tenho bons amigos, como o mestre Cineas Santos, Wilson Seraine, jornalista Zózimo Tavares e o desembargador Nildomar da Silveira Soares, de quem acabo de recebi um exemplar da "Constituição do Estado do Piauí - revista, atualizada e anotada".

Tenho notícias de que muitos nordestinos, depois de anos em SP, estão fazendo o caminho de volta para sua terra natal. Por que isso está acontecendo?
É verdade, e isso faz tempo. tem diminuido enormemente o número de nordestinos chegando a são paulo para ficar. o ideal é o homem ter condições de viver no seu lugar e viajar sempre, a passeio ou areconhecimento de área, quando as condições lhe permitirem.

Depois de entrevistar milhares de personalidades ligadas à cultura nordestina em seu programa de rádio, que imagem fica da nossa produção artística? O mercado ( o fonográfico) nos respeita?
A arte feita por nordestinos é uma das melhores do mundo, sem dúvida. todo mundo sabe disso. e seja qual for o campo das artes: música, cinema, literatura.Quanto à produção artística, o que se pode dizer é que não é pequena. Pequena é a divulgação que se faz das artes e dos artistas nordestinos no resto do país. Se o mercado fonográfico nos respeita? Não. Para o segmento não interessa arte musical no exato significado da expressão. Não interessa qualidade artística. Interessa vender seja o que for, como for. Para o mercado fonográfico, disco é como sabonete, ou seja: um produto como outro qualquer, que tem de ser vendido de forma rápida e na maior quantidade de unidades possível.

Existe algum novo ídolo na música nordestina que está despontando no sudeste na atualidade ou apenas aqueles que já sedimentaram sua carreira?
Existem muitos talentos nordestinos atuando no campo musical em São Paulo, alguns em ascensão outros ainda não. Os exemplos são muitos: Socorro Llira, uma cantora, compositora e instrumentista paraibana de grandes qualidades ainda à espera de reconhecimento; Pedro Osmar, de cujas oficinas musicais saiu chico césar; valdeck de ganhauns, um excepcional mestre de mamulengos; Olivinho Filho, um ótimo sanfoneiro nascido em terras baianas e por aqui sempre dando show; Costa Senna, um brincante cearense de qualidades muito próprias; Gereba, instrumentista nascida nas bandas de Canudos; Jarbas Mariz, que acompanha Tom Zé mundo a fora; Antônio Barros & Cecéu, Anastácia, Maria da Paz, Zé de Riba, e tantos e tantos.