"A crônica sempre perdura", diz jornalista sobre o espaço do gênero nos jornais diários
A jornalista Jeana Laura da Cunha Santos fala sobre o novo livro, “Crônicas das cidades partidas”, e aborda os meandros do gênero no país.
Atualizado em 20/06/2014 às 14:06, por
Christh Lopes*.
Em entrevista à IMPRENSA, Jeana diz estar feliz pelo reconhecimento, que lhe dá coragem para seguir apostando no gênero. Esta não é sua primeira experiência com as crônicas. Seu trabalho de Doutorado, que abordou a faceta jornalística de Machado de Assis, e sua inserção nos jornais na virada do século XIX para o XX foi transformado no livro “O colecionador de histórias miúdas: Machado de Assis e o jornal”.
Para a jornalista, mesmo nos dias de hoje, a crônica ainda permanece relevante na sociedade, pois atinge a todos. “ Apesar de todas as modificações pelas quais passa o jornal contemporâneo, a crônica sempre perdura. (...) Muitas ainda bebem do tom irônico, de conversa fiada, exercida naquele tempo, por Machado, por Bilac. Outras enveredam por um tom mais analítico ou sentimental. Mas sempre há um cantinho para elas nos jornais ou revistas atuais ”.
IMPRENSA: Do que se trata "Crônicas das cidades partidas"? Jeana Laura: São 36 crônicas que se inspiram em acontecimentos cotidianos da vida nas cidades, ou da vida familiar. Para conseguir essa imersão nas pequenas histórias, muitas foram produzidas durante viagens, quando o tempo se desacelera e quando tudo que é visto, é percebido pela primeira vez. Outras crônicas são uma viagem no tempo, como na infância, quando o olhar também vê as coisas do mundo como se fosse a primeira vez. Algumas são autobiográficas, outras, a partir de um fato qualquer, enveredam-se pelo caminho ficcional e imitam um pouco a estrutura do conto.
Crédito:Divulgação Como prêmio de concurso de crônicas, jornalista publicou sua obra Como foi o processo de produção dos textos? Jeana Laura: Sempre gostei de escrever, embora não tivesse muita coragem de expor o que escrevia. As impressões de viagem, os acontecimentos triviais que de repente tomam alguma proporção, sensações, nostalgias, tudo isso era matéria para a minha escrita, mas que acabava indo parar nas gavetas. Quando a Editora da UFSC lançou o prêmio de crônicas Maura da Sena Pereira, resolvi arriscar e concorrer. Acabei tirando o primeiro lugar e a premiação era justamente lançar em livro minhas 36 crônicas, o que me deixou muito feliz e, de certa forma, me encorajou a continuar a escrever.
Quando começou sua relação com a crônica? Jeana Laura: Minha relação foi primeiramente como leitora. Depois, desenvolvi um trabalho de Doutorado, que acabou virando livro (“O colecionador de histórias miúdas: Machado de Assis e o jornal”), abordando a faceta jornalística de Machado de Assis, sua inserção nos jornais na virada do século XIX para o XX. Numa época em que ainda não havia as técnicas jornalísticas tal como se conhece hoje, a crônica era o gênero de passagem entre o livro e o jornal. Era uma escrita moderna, com os olhos voltados para os acontecimentos que a rua produzia e por isso se “aclimatou” tão bem ao jornal, esse veículo que também “percorria” a cidade.
Como avalia o mercado para o gênero? Jeana Laura: Apesar de todas as modificações pelas quais passa o jornal contemporâneo, a crônica sempre perdura. No Brasil, começou na época de Machado e sobrevive até hoje. Muitas ainda bebem do tom irônico, de conversa fiada, exercida naquele tempo, por Machado, por Bilac. Outras enveredam por um tom mais analítico ou sentimental. Mas sempre há um cantinho para elas nos jornais ou revistas atuais. E, quase sempre, são lançadas em livro e, embora muitas vezes datadas, atingem uma durabilidade maior no tempo.
Quais dicas pode dar para quem gostaria de aspirar a carreira de cronista? Jeana Laura: A dica de sempre: ler muito. Os escritores clássicos de crônica são sempre uma grande aula: Machado de Assis, Olavo Bilac, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino e por aí vai. É importante também exercitar a observação das coisas que vão pelo mundo. Desde coisas externas como tipos, hábitos, costumes, comportamentos, como as sensações internas, o que sentimos etc. Cada um pode forjar o seu estilo, alguns se tornarão mais satíricos, outros mais analíticos, outros mais sentimentais. Tudo isso cabe na crônica. E nada impede que se comece uma crônica de forma sisuda e de repente termine-a leve e bem humorada. Porque a crônica é assim mesmo: fragmentária, caleidoscópica...
* Com supervisão de Danúbia Paraizo.





