A crise na mídia atingiu o mercado de charges, revelam cartunistas
Nos anos 70 e no começo dos 80, a charge era tradição na imprensa brasileira, especialmente aquelas ilustrações recheadas de críticas. Se perguntado a um profissional na época quais eram suas perspectivas, melhores impossíveis.
Atualizado em 21/02/2014 às 16:02, por
Christh Lopes.
O tempo passou e as expectativas da profissão mudaram.
À IMPRENSA, Quinho, Carlos Latuff, José Spacca e Orlando Pedroso apresentam um panorama do mercado nacional de charges nos dias de hoje.
O chargista é dependente José Spacca de Oliveira começou cedo na profissão. Aos 15 anos, se tornou ilustrador da agência Young&Rubicam. Em 1985, teve a oportunidade de participar de um concurso na Folha de S. Paulo , para novos talentos, o qual ganhou. Nos dez anos no grande jornal, produziu charges políticas e participou da "Folhinha". Atualmente, Spacca retrata o chargista como um "dependente". “O chargista é um humorista bastante dependente da notícia e dos conhecimentos disponíveis naquele momento. É uma espécie de história instantânea. Ele está a reboque daquilo que é debatido. Ele faz parte disso”.
Crédito:Arquivo pessoal José Spacca
Sobre a função desempenhada pelo profissional, ele diz que o chargista atua como um “comentarista daquilo que é trazido à tona pela edição do jornal ou pelos acontecimentos". No entanto, às vezes depende tanto das decisões editoriais, quanto daquilo que a cultura do momento está dando relevância.
Sem rotatividade e com a crise midiática, o mercado se tornou acirrado. “Não tem muitos lugares. Se o chargista quer visibilidade, depende de um lugar que lhe dê isso”. Para o ilustrador, a internet deixou tudo mais acessível, porém o desafio agora é outro: o financiamento do trabalho.
O cartunista lembrou da primeira vez em que foi perguntado sobre a liberdade de expressão. A questão surgiu após uma charge de um jovem tunisiano com a caricatura do profeta Maomé. Na ocasião, a ilustração teve como resposta ataques terroristas. “Eu sempre me questionei se era lícito que os jornalistas, de maneira geral, defendessem a tal ponto a liberdade de imprensa ou que também a própria liberdade de expressão sem freios qualquer tipo de criação. Eu tenho impressão que não”.
Para Spacca, uma pressão de fora para limitar essa comunicação não seria positiva, porém o próprio profissional deveria se limitar de acordo com a consciência da consequência de seu desenho. “Mais que isso, a liberdade de criticar, analisar e brincar exige a contrapartida dele se informar a respeito. Ou seja, o compromisso com a verdade, se inteirar profundamente daquilo que irá falar. Essa é a condição para que ele tenha liberdade”.
Com as variações no mercado de ilustradores, houve uma facilidade na produção. E com a disposição de ferramentas excelentes de trabalho, as oportunidades ficaram mais restritas àqueles que detêm este conhecimento. Para o chargista, há pontos positivos e negativos com as inovações presentes na área, “aumenta a concorrência e a nossa capacidade de produzir melhor e mais rapidamente. Ao mesmo tempo, valoriza-se a imagem porque todo mundo quer, mas também a banaliza, pois é muito acessível”. Com isso, há pessoas que não são ilustradores, modificam uma imagem e aquilo se torna uma ilustração.
Pessoalmente, Spacca vive outro momento. Há dez anos, passou a publicar livros para a Companhia de Letras, ( Santô e os pais da aviação — A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil, entre outros ), ele conseguiu uma situação bastante confortável. “Eu tenho outra escala de tempo. Meus livros são feitos ao longo dos anos, o último demorou quatro anos para fazer. Então, eu tenho um mercado diferente. Apesar de ainda atender ilustração”.
Ameaças pelo trabalho O chargista Carlos Latuff usou a internet para desenvolver seu trabalho. Começou em agência de propaganda, atua com entidades sindicais e também é defensor da causa palestina. Foi com isso que ele conseguiu ficar em segundo lugar em Concurso Internacional de Caricaturas sobre o Holocausto, organizado em 2006 no Irã. Para ele, “única maneira de ter liberdade é fazer por conta própria e publicar nas redes sociais. Alias, defendo que o chargista não tem de ser necessariamente um profissional. O chargista deve, acima de tudo, expressar seu ponto de vista, independente se vai ganhar ou não por isso”.
Crédito:Divulgação
Carlos Latuff
Segundo Lattuf, não há liberdade plena em nenhum veículo. “Se você trabalha para alguém e recebe por este trabalho, segue uma linha editorial”. Sobre os limites da profissão, ele acredita que “o bom senso é sempre bom. Desenhar o profeta Maomé como um homem-bomba como fez Kurt Westergaard ou mesmo como um cachorro como fez Lars Vilks nada tem a ver com reflexão ou mesmo crítica, é pura ofensa gratuita”.
O uso do humor como crítica direta faz parte do trabalho de Latuff. “Faço charges para serem levadas a sério, e são. No meu caso levadas muito a sério pela polícia, pela extrema-direita, pelos sionistas. Costumo dizer que no Brasil o chargista tem quase uma obrigação de ser engraçado". O profissional alega que não tem essa obrigação com o humor. "Minha inspiração é o trabalho de figuras como Naji Al Ali, Louis Raemaekers, John Heartfield, Joe Sacco, que não têm o compromisso com o riso fácil”.
A liberdade de expressar uma argumentação por meio das charges foi encontrada na internet. Para o chargista, a rede é uma ótima oportunidade aos profissionais que não encontram espaço nos grandes meios. “Creio que a Internet tem se revelado uma plataforma interessante para os cartunistas que não trabalham no mainstream media ”.
O desafio é a falta de espaço Para Orlando Pedroso, chargista e conselheiro da SIB (Sociedade Brasileira de Ilustração), falta espaço para os profissionais atuarem. “Na verdade, só os principais grandes jornais dos estados têm espaços para as charges. Outros como O Estado de S. Paulo praticamente nem tem mais a ilustração”.
Crédito:Arquivo pessoal
Orlando Pedroso
Segundo ele, não há mais páginas de humor nos veículos de comunicação. “Grande parte dos jornais e revistas simplesmente aboliu isso. E se for pensar que essa era uma tradição no país, e que qualquer coisa em dois minutos vira piada... era algo que girava e funcionava muito e era bom para o leitor, era um mercado de trabalho. Os próprios veículos ganhavam com isso. E foi uma coisa que simplesmente se esqueceu”.
Com as novas tecnologias, houve uma migração para a rede, porém, “não dá para sobreviver disso”. “Ainda tem muita gente fazendo quadrinhos e charges e cartoons e publicando na web, mas aí publica ‘no seu próprio jornal’. Daí para ser rentável tem uma distância”, conclui.
Para Pedroso, a facilidade de produção gráfica e o boom dado pelo governo ao mercado de quadrinhos, onde a editora ganha um selo só de quadrinhos, não é suficiente para atender à demanda de profissionais. “Você não tem venda suficiente no Brasil para gerar lucro para o autor, para a editora e para todo mundo, infelizmente”.
O ilustrador acha positivo que as pessoas criem seus próprios livros. Entretanto, a questão comercial sempre será uma barreira. “Como é que a gente faz para fazer isso aqui virar dinheiro?”.
Com a necessidade de inovar o mercado, Pedroso diz que “adoraria que tivesse uma renovação para que a charge voltasse a ter o seu espaço na tradição do povo brasileiro”. E como ainda há chargistas fazendo trabalhos, mesmo que sejam voltados à internet, uma hora a solução poderá ser encontrada.
"O bom senso faz com que os chargistas saibam qual terreno minado que estão trabalhando: precisa ser bem informado e ter repertório.Todo o negócio tem vínculo com os anunciantes. Então, acho que o chargista deve ter a liberdade preservada e não deve fazer o trabalho com medo, mas ele deve ter o bom senso de entender qual é o trabalho dele e a que serve isso”.
Possibilidade para se comunicar Marcos de Souza, chargista, caricaturista, cartunista e ilustrador, realizou trabalhos para O Estado de Minas e há mais de 15 anos atua no grupo Diários Associados. Sob o pseudônimo Quinho, ele faz todos os dias novas charges em seu perfil nas redes sociais.
Crédito:Marcos de Souza
Para ele, com a multiplicação de espaços na internet “qualquer pessoa pode emitir sua opinião através de charges ou cartuns, sem que para isso seja necessário desenhar, como é o caso dos memes. Os memes são a linguagem mais moderna e inovadora das charges na atualidade”. No que tange à censura, ele acredita que não há dificuldades. “Existe hoje uma independência muito grande nesse sentido”.
“Qualquer artista compreende que não deve assinar uma opinião da qual discorda. Não aceita ser pautado e nunca deve aceitar. A maioria dos chargistas possuem um senso comum, o que é bem interessante. E muitas vezes, apesar da congruência de ideias, trabalham em veículos de posturas políticas divergentes”, completa.
A essência do chargista, segundo Quinho, está “mais na habilidade de interpretar os fatos do cotidiano, de construir boas metáforas e saber trabalhar sob condições adversas, quando necessário”. De acordo com ele, mesmo em épocas onde a liberdade não era garantida, o bom profissional conseguia realizar seu trabalho. “Durante os famigerados anos de chumbo, por exemplo, os grandes chargistas não podiam exercer essa liberdade plenamente. No entanto, usavam manobras perspicazes para emitirem uma ideia, enganar os censores e se manterem vivos”.
Quinho relata que nunca recebeu processos por seu trabalho. Porém, diz esperar “ansioso pelo grande dia". “Uma peça sob a classificação de HUMOR nunca deve ser considerada como se fosse algo 100% sério, a ponto de merecer ‘punições exemplares’. Além de estar sob a legenda do humor, há sempre o forte ingrediente do absurdo numa charge e, por pior que seja, sempre deve ser levado em conta. Se não houvesse o absurdo, seria puramente um argumento ideológico”.
Otimista, o chargista diz que no Brasil sempre teve uma terra fértil para os profissionais da área. “A cada dia, surgem novos profissionais que se destacam. Estamos numa época brilhante, num campo vasto. Graças à internet, creio que os chargistas, amadores ou profissionais, irão se proliferar e desempenharão um papel cada vez mais significativo neste tempo conturbado de mudanças sociais", conclui. Leia também -
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À IMPRENSA, Quinho, Carlos Latuff, José Spacca e Orlando Pedroso apresentam um panorama do mercado nacional de charges nos dias de hoje.
O chargista é dependente José Spacca de Oliveira começou cedo na profissão. Aos 15 anos, se tornou ilustrador da agência Young&Rubicam. Em 1985, teve a oportunidade de participar de um concurso na Folha de S. Paulo , para novos talentos, o qual ganhou. Nos dez anos no grande jornal, produziu charges políticas e participou da "Folhinha". Atualmente, Spacca retrata o chargista como um "dependente". “O chargista é um humorista bastante dependente da notícia e dos conhecimentos disponíveis naquele momento. É uma espécie de história instantânea. Ele está a reboque daquilo que é debatido. Ele faz parte disso”.
Crédito:Arquivo pessoal José Spacca
Sobre a função desempenhada pelo profissional, ele diz que o chargista atua como um “comentarista daquilo que é trazido à tona pela edição do jornal ou pelos acontecimentos". No entanto, às vezes depende tanto das decisões editoriais, quanto daquilo que a cultura do momento está dando relevância.
Sem rotatividade e com a crise midiática, o mercado se tornou acirrado. “Não tem muitos lugares. Se o chargista quer visibilidade, depende de um lugar que lhe dê isso”. Para o ilustrador, a internet deixou tudo mais acessível, porém o desafio agora é outro: o financiamento do trabalho.
O cartunista lembrou da primeira vez em que foi perguntado sobre a liberdade de expressão. A questão surgiu após uma charge de um jovem tunisiano com a caricatura do profeta Maomé. Na ocasião, a ilustração teve como resposta ataques terroristas. “Eu sempre me questionei se era lícito que os jornalistas, de maneira geral, defendessem a tal ponto a liberdade de imprensa ou que também a própria liberdade de expressão sem freios qualquer tipo de criação. Eu tenho impressão que não”.
Para Spacca, uma pressão de fora para limitar essa comunicação não seria positiva, porém o próprio profissional deveria se limitar de acordo com a consciência da consequência de seu desenho. “Mais que isso, a liberdade de criticar, analisar e brincar exige a contrapartida dele se informar a respeito. Ou seja, o compromisso com a verdade, se inteirar profundamente daquilo que irá falar. Essa é a condição para que ele tenha liberdade”.
Com as variações no mercado de ilustradores, houve uma facilidade na produção. E com a disposição de ferramentas excelentes de trabalho, as oportunidades ficaram mais restritas àqueles que detêm este conhecimento. Para o chargista, há pontos positivos e negativos com as inovações presentes na área, “aumenta a concorrência e a nossa capacidade de produzir melhor e mais rapidamente. Ao mesmo tempo, valoriza-se a imagem porque todo mundo quer, mas também a banaliza, pois é muito acessível”. Com isso, há pessoas que não são ilustradores, modificam uma imagem e aquilo se torna uma ilustração.
Pessoalmente, Spacca vive outro momento. Há dez anos, passou a publicar livros para a Companhia de Letras, ( Santô e os pais da aviação — A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar, Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil, entre outros ), ele conseguiu uma situação bastante confortável. “Eu tenho outra escala de tempo. Meus livros são feitos ao longo dos anos, o último demorou quatro anos para fazer. Então, eu tenho um mercado diferente. Apesar de ainda atender ilustração”.
Ameaças pelo trabalho O chargista Carlos Latuff usou a internet para desenvolver seu trabalho. Começou em agência de propaganda, atua com entidades sindicais e também é defensor da causa palestina. Foi com isso que ele conseguiu ficar em segundo lugar em Concurso Internacional de Caricaturas sobre o Holocausto, organizado em 2006 no Irã. Para ele, “única maneira de ter liberdade é fazer por conta própria e publicar nas redes sociais. Alias, defendo que o chargista não tem de ser necessariamente um profissional. O chargista deve, acima de tudo, expressar seu ponto de vista, independente se vai ganhar ou não por isso”.
Crédito:Divulgação
Carlos Latuff Segundo Lattuf, não há liberdade plena em nenhum veículo. “Se você trabalha para alguém e recebe por este trabalho, segue uma linha editorial”. Sobre os limites da profissão, ele acredita que “o bom senso é sempre bom. Desenhar o profeta Maomé como um homem-bomba como fez Kurt Westergaard ou mesmo como um cachorro como fez Lars Vilks nada tem a ver com reflexão ou mesmo crítica, é pura ofensa gratuita”.
O uso do humor como crítica direta faz parte do trabalho de Latuff. “Faço charges para serem levadas a sério, e são. No meu caso levadas muito a sério pela polícia, pela extrema-direita, pelos sionistas. Costumo dizer que no Brasil o chargista tem quase uma obrigação de ser engraçado". O profissional alega que não tem essa obrigação com o humor. "Minha inspiração é o trabalho de figuras como Naji Al Ali, Louis Raemaekers, John Heartfield, Joe Sacco, que não têm o compromisso com o riso fácil”.
A liberdade de expressar uma argumentação por meio das charges foi encontrada na internet. Para o chargista, a rede é uma ótima oportunidade aos profissionais que não encontram espaço nos grandes meios. “Creio que a Internet tem se revelado uma plataforma interessante para os cartunistas que não trabalham no mainstream media ”.
O desafio é a falta de espaço Para Orlando Pedroso, chargista e conselheiro da SIB (Sociedade Brasileira de Ilustração), falta espaço para os profissionais atuarem. “Na verdade, só os principais grandes jornais dos estados têm espaços para as charges. Outros como O Estado de S. Paulo praticamente nem tem mais a ilustração”.
Crédito:Arquivo pessoal
Orlando Pedroso Segundo ele, não há mais páginas de humor nos veículos de comunicação. “Grande parte dos jornais e revistas simplesmente aboliu isso. E se for pensar que essa era uma tradição no país, e que qualquer coisa em dois minutos vira piada... era algo que girava e funcionava muito e era bom para o leitor, era um mercado de trabalho. Os próprios veículos ganhavam com isso. E foi uma coisa que simplesmente se esqueceu”.
Com as novas tecnologias, houve uma migração para a rede, porém, “não dá para sobreviver disso”. “Ainda tem muita gente fazendo quadrinhos e charges e cartoons e publicando na web, mas aí publica ‘no seu próprio jornal’. Daí para ser rentável tem uma distância”, conclui.
Para Pedroso, a facilidade de produção gráfica e o boom dado pelo governo ao mercado de quadrinhos, onde a editora ganha um selo só de quadrinhos, não é suficiente para atender à demanda de profissionais. “Você não tem venda suficiente no Brasil para gerar lucro para o autor, para a editora e para todo mundo, infelizmente”.
O ilustrador acha positivo que as pessoas criem seus próprios livros. Entretanto, a questão comercial sempre será uma barreira. “Como é que a gente faz para fazer isso aqui virar dinheiro?”.
Com a necessidade de inovar o mercado, Pedroso diz que “adoraria que tivesse uma renovação para que a charge voltasse a ter o seu espaço na tradição do povo brasileiro”. E como ainda há chargistas fazendo trabalhos, mesmo que sejam voltados à internet, uma hora a solução poderá ser encontrada.
"O bom senso faz com que os chargistas saibam qual terreno minado que estão trabalhando: precisa ser bem informado e ter repertório.Todo o negócio tem vínculo com os anunciantes. Então, acho que o chargista deve ter a liberdade preservada e não deve fazer o trabalho com medo, mas ele deve ter o bom senso de entender qual é o trabalho dele e a que serve isso”.
Possibilidade para se comunicar Marcos de Souza, chargista, caricaturista, cartunista e ilustrador, realizou trabalhos para O Estado de Minas e há mais de 15 anos atua no grupo Diários Associados. Sob o pseudônimo Quinho, ele faz todos os dias novas charges em seu perfil nas redes sociais.
Crédito:Marcos de Souza
Para ele, com a multiplicação de espaços na internet “qualquer pessoa pode emitir sua opinião através de charges ou cartuns, sem que para isso seja necessário desenhar, como é o caso dos memes. Os memes são a linguagem mais moderna e inovadora das charges na atualidade”. No que tange à censura, ele acredita que não há dificuldades. “Existe hoje uma independência muito grande nesse sentido”.
“Qualquer artista compreende que não deve assinar uma opinião da qual discorda. Não aceita ser pautado e nunca deve aceitar. A maioria dos chargistas possuem um senso comum, o que é bem interessante. E muitas vezes, apesar da congruência de ideias, trabalham em veículos de posturas políticas divergentes”, completa.
A essência do chargista, segundo Quinho, está “mais na habilidade de interpretar os fatos do cotidiano, de construir boas metáforas e saber trabalhar sob condições adversas, quando necessário”. De acordo com ele, mesmo em épocas onde a liberdade não era garantida, o bom profissional conseguia realizar seu trabalho. “Durante os famigerados anos de chumbo, por exemplo, os grandes chargistas não podiam exercer essa liberdade plenamente. No entanto, usavam manobras perspicazes para emitirem uma ideia, enganar os censores e se manterem vivos”.
Quinho relata que nunca recebeu processos por seu trabalho. Porém, diz esperar “ansioso pelo grande dia". “Uma peça sob a classificação de HUMOR nunca deve ser considerada como se fosse algo 100% sério, a ponto de merecer ‘punições exemplares’. Além de estar sob a legenda do humor, há sempre o forte ingrediente do absurdo numa charge e, por pior que seja, sempre deve ser levado em conta. Se não houvesse o absurdo, seria puramente um argumento ideológico”.
Otimista, o chargista diz que no Brasil sempre teve uma terra fértil para os profissionais da área. “A cada dia, surgem novos profissionais que se destacam. Estamos numa época brilhante, num campo vasto. Graças à internet, creio que os chargistas, amadores ou profissionais, irão se proliferar e desempenharão um papel cada vez mais significativo neste tempo conturbado de mudanças sociais", conclui. Leia também -
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