A Cracolândia é qualquer lugar

A Cracolândia é qualquer lugar

Atualizado em 28/09/2009 às 08:09, por Igor Ribeiro.

Vi muita coisa feia quando fui repórter policial do jornal Agora São Paulo . Apesar do pouco tempo, deu para se acostumar com a cobertura de "desgraças", como diz o parceiro Marco de Castro, ex-colega de redação e atual editor-assistente do Diário de S.Paulo . Normalmente a gente fazia o chamado "dia", mas com frequência cobríamos o plantão da madrugada, numa equipe também formada pelo fotógrafo Eduardo Lazzarini, pelo repórter Luciano Cavenaghi - o oficial da posição - e pelos motoristas Batman e o falecido PC.

Era uma equipe muito boa de se trabalhar e o jornalismo policial de então era, de modo geral, um clube de amigos: todo mundo se conhecia, conversava sobre as pautas e ia tomar café da manhã junto no bar Estadão (leia-se Coca-Cola com sanduíche de pernil). O grupo incluía o pessoal do Notícias Populares , do Diário Popular , do Jornal da Tarde e, eventualmente, alguma TV, principalmente a Record. A concorrência não era necessariamente no furo, mas no melhor texto do dia seguinte. Por isso a cordialidade reinava.

A quantidade de defuntos vistos, delegacias visitadas, criminosos entrevistados, parentes reconfortados e lama pisoteada foi imensa. Mas a matéria que fiz e mais me marcou dizia respeito a um adolescente, 16 anos, prestes a ir para a Febem, atual Fundação Casa. Viciado, o garoto havia roubado utensílios domésticos da casa dos próprios avós para comprar pedras de crack. O problema é que os velhinhos tentaram impedir o neto que, inconformado, matou-os a tesouradas. Terrível.

O crime não ocorreu num cortiço qualquer da Cracolândia ou da periferia paulistana, mas num bairro de classe média de São Caetano, a cidade com maior IDH da região metropolitana. O jovem, descendente de japoneses, era bonito e tinha tudo que precisava: família, amigos, educação. Apesar da cara de possuído que mostrava de dentro das grades do DP, parecia ser inteligente. "O barato do crack é a paranoia", me disse, literalmente, ao explicar porque não conseguia parar com a droga.

Esta frase virou o título do box sobre o adolescente, que retrancava a matéria maior sobre o crime. Sempre tive plena consciência de que distúrbios do gênero, desde cleptomania até alcoolismo, são sempre algo devastador, não importando se o sujeito é pobre ou rico, homem ou mulher, jovem ou velho, feio ou bonito. Mas a cena me marcou especialmente por mostrar o poder de letalidade do crack. Além de ter abreviado tragicamente a história de um casal de imigrantes japoneses no Brasil, a vida do próprio rapaz estava acabada - a Febem passava pelo seu pior momento naqueles finais de anos 1990.

A imagem daquele garoto endemoniado me volta à cabeça constantemente desde que a prefeitura de São Paulo resolveu criar o bairro da Nova Luz. Entre outras atrocidades da atual administração, está a de achar que esse problema é urbano. O caso de São Caetano é um bom exemplo disso. Uma ótima matéria da Rolling Stone nº 34 (abril), também mostra como o crack se alastrou entre os jovens de Campina Grande, interior da Paraíba. Não é algo que se resolve geograficamente, portanto, como faz pensar as ações da prefeitura de São Paulo - como tem se comprovado com a simples abertura do raio de ação dos "noias" pela cidade.

Diante dos esforços recentes de equipes da prefeitura no acolhimento e na tentativa de recuperação de viciados, esse engano parece ter sido parcialmente superado, mas me pergunto se a essência do problema será, algum dia, de fato combatida. A preocupação com a construção de uma cidade parece estar sempre à frente da construção de bons indivíduos. Afinal, são as pessoas que escolhem jogar lixo na rua, comprar mais um carro, ter filhos, assaltar um banco, fumar crack. Fatores sócio-econômicos influem, mas cidadania se constrói de dentro para fora, ponto.

Essa espécie de correção me lembra uma reflexão muito coerente de Augusto Nunes em entrevista à revista IMPRENSA de julho, . Ele diz que "o ombudsman é o diretor de redação. Se o diretor não souber avaliar os erros do jornal, ele está perdido". Sou completamente a favor da instituição de ouvidorias, mas também entendo quando Nunes reforça a necessidade de e, principalmente, de correção pelas bases, pelo início e não pelo fim. Isso exige uma estrutura que reforce ensino; pesquisa; esporte e cultura. O resto é perfumaria: viadutos novos; duplicações de ruas, avenidas e marginais; mais piscinões; menos outdoors; banimento de fumantes. Nesse contexto, bairros planejados como a Nova Luz, por mais lindos que pareçam no projeto, também são superficiais. Tendem a ser oásis cercados por Cracolândias em todo o resto da cidade. Sem citar São Caetano, Campina Grande e onde mais reinar a ineficácia do poder público.