A corrida pelo furo e a perda da credibilidade
A corrida pelo furo e a perda da credibilidade
Há bastante tempo venho me questionando sobre o que há de interesse público em determinadas coberturas, em determinadas conclusões a que chegam jornais e veículos de comunicação, em determinados "chutes" que dão alguns jornalistas em busca de um furo. Ao invés disso, o que conseguem, de fato, é disseminar não uma novidade, mas uma informação furada, que pode influenciar negativamente a vida do envolvido.
Um chute mal dado de um jornalista espalhou aos quatro ventos que o cantor Milton Nascimento, em 1997, estava prestes a morrer. Magro, muito magro, o cantor fez uma participação em um programa chamado "Sai de Baixo", especial de Natal, exibido aos domingos pela TV Globo na época. Bastou a aparição para que os jornais do dia seguinte estampassem a manchete.
| Divulgação |
| Milton Nascimento |
Em meio a esse turbilhão, o cantor - que havia descoberto um diabetes - piorou. A magreza era explicada pela anorexia causada por um medicamento, que o deixava completamente sem fome e com ânsias a cada vez que comia qualquer coisa. Com o stress causado pela situação, e ao ver fotógrafos que subiam em árvores para tentar uma foto de seu quarto no hospital, o cantor, que já estava em recuperação, teve um grave recaída. "Quase morro mesmo", disse.
Milton não morreu. Aprendeu a controlar o diabetes, ganhou peso, apareceu novamente com saúde. "Os jornalistas ouviam médicos que nunca tinham chegado a 500 metros de mim, que confirmavam um diagnóstico falso de HIV. Os meus médicos davam entrevistas, apresentaram exames que confirmavam o diabetes e os jornalistas nem ligavam. Foi uma das piores coisas que a imprensa já fez", afirmou o cantor, em entrevista a esta jornalista que vos escreve, em dezembro de 2007, exatos dez anos após o episódio. Até hoje não houve uma retratação convincente. "Conforme eu fui melhorando, a imprensa foi deixando o caso de lado", comentou.
Depois do caso de Milton, muitas outras coberturas bombásticas e um tantinho mal feitas, por assim dizer, aconteceram. Force sua imaginação que bem rápido você se lembrará de alguma. Mais recentemente, a mídia portuguesa e alguns veículos da mídia inglesa acusaram veementemente os pais de Madeleine McCann de participação no sumiço da filha, sem qualquer prova, baseados em informações supostamente vazadas pela investigação da polícia. Muitos desses veículos foram condenados a indenizar a família, além de pedir desculpas publicamente.
No início deste mês, o pai de Madeleine, Gerry McCann, disse em depoimento à comissão permanente do Parlamento inglês para os assuntos de Cultura, Esporte e Comunicação Social, que a imprensa destruiu sua família e prejudicou as buscas a sua filha. "... a nossa família foi o foco de alguns dos conteúdos mais sensacionalistas, falsos, irresponsáveis", afirmou. "Se não fosse pelo amor e pelo apoio tremendo da nossa família, amigos e público em geral, esta conduta vergonhosa - particularmente nas circunstâncias trágicas em que nos vimos - poderia ter conduzido à completa destruição da nossa família", acrescentou, segundo informou a BBC.
Já Milton decidiu por não processar ninguém. Com tudo o que havia acontecido, o que ele queria é "manter distância" da mídia. Segundo ele, depois do episódio, deixou de ler vários jornais e revistas, mas prefere nem citar o nome. "Não vou dar esse gostinho". Embora ainda guarde muitas mágoas, o cantor acredita que tem tido sorte. "Desde então, tenho tido a sorte de ser entrevistado por bons jornalistas, jornalistas corretos, que reproduzem exatamente o que eu disse". Isso não deveria ser sorte, deveria ser regra.
Quando me encontro com estudantes de Jornalismo, em eventos e palestras nas faculdades, quase sempre cito o caso de Milton Nascimento. Acredito que seja um exemplo emblemático da irresponsabilidade da mídia em algumas situações, em busca do furo, da novidade. Mas a que preço? Será que um furo vale quando ele próprio é "furado"? Acho que não... a velha máxima de se ouvir todos os lados de uma história pode até "atrasar" o furo, mas garante o maior valor existente em nossa profissão: a credibilidade.






