A corrida do atacante - José Antônio Lima/Mackenzie
A corrida do atacante - José Antônio Lima/Mackenzie
Em 1848, James Marshall achou ouro em um rio da Califórnia, a notícia se espalhou e acabou provocando um dos eventos mais comentados até hoje: a corrida do ouro no oeste dos EUA. No futebol, algo semelhante vem acontecendo, claro que guardadas as devidas proporções. É a "corrida do atacante". Assim como os colonos da América do Norte fizeram no século XIX, os times de futebol menosprezam aquilo que se tem por perto e vão em busca do brilho de outros lugares. Todos sabem que o futebol está cada vez mais globalizado e que o número de estrangeiros nos clubes cresce a cada ano, mas apesar desse fenômeno atingir todos os setores do gramado, o que acontece com os atacantes é diferente. O astro principal do esporte, aquele que faz a bola entrar no gol, geralmente chama mais a atenção da torcida e da mídia, e sendo estrangeiro, parece que brilha ainda mais.
Para se ter uma idéia da importância do atacante estrangeiro, pode-se analisar a tabela de artilharia dos principais campeonatos europeus. Nos torneios de Alemanha, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália, e Portugal, apenas em um o artilheiro era nascido no país em que atuava. O milagre se deu na França, onde Djibril Cisse (agora no Liverpool) foi o artilheiro jogando pelo Auxerre.
Na Alemanha e na Espanha, os brasileiros Aílton e Ronaldo foram os melhores atacantes; na Itália, brilhou o ucraniano Andriy Shevchenko; na Holanda, o sérvio-montenegrino Mateja Kezman e em Portugal, o sul-africano Benny McCarthy.
Na Premieship, que não tem um artilheiro inglês desde Kevin Phillips (1999/2000), o francês Thierry Henry foi quem mais fez gols. O dado curioso é que entre os dez primeiros na tabela de artilheiros da liga inglesa, apenas dois - Alan Shearer e Michael Owen - eram ingleses.
Na segunda rodada da liga européia, disputada no final de novembro, das 32 equipes que entraram em campo, apenas quatro apresentavam um ataque 100% nacional. Era o caso de Roma (Antonio Cassano e Francesco Totti), Sparta Praga (Tomas Jun e Milan Pacanda), e de Lyon (Sidney Govou) e Rosenborg (Frode Johnsen), que só tinham um jogador fixo no ataque.
Nos outros 28 times, havia pelo menos um estrangeiro tentando marcar gols. O caso mais claro da "corrida do atacante" foi o do Monaco, que atuou com três jogadores de frente, sendo todos estrangeiros: Javier Saviola (Argentina), Mohamed Kallon (Serra Leoa) e Emmanuel Adebayor (Togo).
O Monaco é também uma das equipes que não têm nenhum atacante nacional. No banco, aparecem Souleymane Camara (Senegal), Ernesto Chevantón (Uruguai) e Shabani Nonda (Congo).
E o atual vice-campeão europeu não é o único com 100% de atacantes estrangeiros. O Chelsea tem quatro atacantes, um da Romênia (Adrian Mutu), um da Costa do Marfim (Didier Drogba), um da Sérvia e Montenegro (Mateja Kezman) e outro da Finlândia (Eidur Gudjohnsen).
O conterrâneo Arsenal tem dois holandeses (Dennis Bergkamp e Robin van Persie), um espanhol (Jose Antonio Reyes), um francês (Thierry Henry) e um italiano (Arturo Lupoli). O Barcelona tem Ludovic Giuly (França), Henrik Larsson (Suécia) e Samuel Etoo (Camarões), além de Ronaldinho Gaúcho, que alguns consideram atacante.
Os resultados disso são bons para os clubes que contratam, mas péssimos para as seleções nacionais, cada vez mais fracas, e para os clubes que vendem os jogadores, que é o papel interpretado pelos times do Brasil.
Vendo o Brasileirão, é fácil perceber que essa busca desenfreada por atacantes está devastando uma das mais férteis áreas do nosso futebol. A média de gols é de apenas 2,71 por partida e praticamente todos técnicos reclamaram a presença de um "atacante finalizador" durante o torneio.
O problema é que todos os "matadores" estão na Europa. Dos 64 brasileiros inscritos na Liga dos Campeões, 16 são atacantes. Se meio-campistas ofensivos (Kaká, Diego, Alex, etc.) forem separados dos defensivos (Edu, Gilberto Silva, Kléberson, e etc.), o ataque fica com a maior fatia entre os brasileiros na competição.
Atualmente, a Uefa estuda um meio de frear a dominação de estrangeiros e provavelmente vai estipular um número mínimo de jogadores do próprio país por elenco. Para os times brasileiros, essa medida pouco vai adiantar e todos ligados ao futebol precisam se mexer para que o futebol no Brasil não acabe, como aconteceu com o ouro da Califórnia.






