A convite de IMPRENSA, Mauro Beting fala sobre o legado e as conquistas do pai
Atualizado em 07/01/2013 às 13:01, por
Mauro Beting e a convite de IMPRENSA.
Joelmir José Beting (1936-eterno) foi o melhor contador de histórias que conheci. Das factuais, das verossímeis, das improváveis, das impossíveis. Meu Babbo (como o chamei de 1966 a 1998) foi um excelente jornalista e um gigantesco ficcionista. Nosso Nonno (desde quando nasceu o primeiro neto, em 1998) tinha um sonho de um dia desenvolver a “história do cachorro dos olhos vermelhos”. Para o bem de sua credibilidade como um dos pioneiros do Jornalismo Econômico, melhor assim ter deixado essa obra em uma gaveta do escritório caótico.
Mas é dever dizer como caçula: nunca vi um pai de dois filhos e um avô de quatro netos tão criativo para inventar e histórias, tão brilhante para narrar histórias, tão envolvente para reescrever roteiros de cinema e situações do cotidiano.
Não poucas vezes o Mimi de Tambaú dourou pílulas e problemas de chumbo de nossas vidas e artes. Talvez por isso tenha sido um otimista que não merecia ser corrigido nesses tantos anos de jornal (iniciados em 1957 e terminados em 2003), rádio (até os últimos cochichos antes de deixar órfãos milhões de coleguinhas), de TV (desde 1970), de site desde 2000, de palestras há mais de 40 anos, de Palestra Itália desde sempre.
Nem sempre concordei com suas opiniões a respeito de tudo – até de Palmeiras. Também por isso acabei não o ajudando a escrever seu último texto. Seria a respeito da queda do Palmeiras para a Série B em 2013. Pedido da Folha de S.Paulo que foi negado pelas condições físicas dele. Ele não queria ser uma Nana Gouvêa palestrina, que só reaparecia na mídia com a tragédia consumada. Foi ainda pior: o respeitabilíssimo colega que o substituiu foi um quintacolunista brilhante que externou no mesmo espaço que havia virado casaca e traído o Palmeiras com o Barcelona. Deixando prostrado o nosso time rebaixado, o meu pai enfermo, e o real torcedor de coração despedaçado.
Com meu pai não aprendi Jornalismo. Apenas a tentar ser não o melhor no ofício. Mas o mais feliz. Para ser um bom profissional é preciso ser uma grande pessoa. Infelizmente, conheci várias que burlaram a tese. Mas, pelas manifestações que abundaram de todo o país quando ele nos deixou, aprendi que realmente ele é o melhor pai que um jornalista pode ser. E o melhor jornalista que o filho pode ter como pai.
Foram mais de 40 anos invadindo os lares brasileiros fazendo agrado no árido noticiário. Ele virou alguém de casa, da família. Não o cunhado chato. Mas o tiozão legal. O vovô gente fina. O cara que ensina. Um professor. Sua maior vocação e paixão.
Quando vi Fidel, Dilma, Lula, Suplicy, Serra, Alckmin, FHC, Delfim, Sarney, Maluf falando (e alguns chorando) dele e por ele, vi que os 55 anos de jornalismo foram muito bem feitos. Quando vi gente que não o conhecia e chorava como se fosse íntimo, vi que meu pai (a quem nunca vi como super-herói) é um humano super. Um cara que me deu forças para ler a carta que eu escrevera a ele ao microfone da Rádio Bandeirantes, cinco minutos depois de saber que mais nada poderíamos fazer. Dando ao mundo a notícia que nenhum filho quer ou pode dar. Mas que um filho do rádio nada mais fez que a obrigação.
Meus pais se conheceram na Rádio 9 de Julho paulistana. Sou filho do rádio. Tinha mais de fazer do veículo o canal para expressar o que não tem palavra. O que aqui também não soube escrever. Tudo que Joelmir sabia se expressar em 40 segundos para dizer o que era o dia a dia da economia eu não conseguirei em cinco mil toques.
Até por que ele não era de dar esses toques. Nunca interferiu nas escolhas e nas escolas do meu irmão publicitário e do caçula jornalista, chefiados pela Lucila (a única que realmente entendia de Economia na casa do meu pai). O que aprendi com ele nunca me foi dito. Saquei que quem pensa o que fala não pensa no que fala. Palavras devem ser pensadas. As sentidas nem sempre devem ser ditas.
O humor cáustico do Jô de todas as horas o fazia sair pela tangente nos problemas familiares e nas questões macroeconômicas. Nem todo sujeito bem -humorado é inteligente. Mas toda pessoa que vive com inteligência tem o bom humor do meu pai. Dos irmãos dele. Da família que ele sempre prezou. E defendeu sem precisar atacar ninguém.
Como eu o defendi como pai (não como jornalista) quando aceitou fazer comercial de um banco. Fui contra. Mas ele conseguiu fazer de algo negativo uma discussão positiva. A credibilidade que ele conquistou não foi maculada pelos 30 segundos de propaganda. Os agora 55 anos de Jornalismo foram maiores. São enormes. São eternos.
O maior legado para o Jornalismo de Joelmir Beting não é só a capacidade de comunicação. O fazer- se entender – e com humor e sabor. É o de ser um cara legal. É o de ser justo.
Um mito que também se foi em 2012 foi Millôr. Ele só deixou um exagero que foi levado ao extremo: “Jornalismo é oposição”. Não é. Não pode ser sempre. Jornalismo tem de ser plural. Singular. Cheio de cores e credos. Buscando sempre a melhor versão possível dos fatos. Sem aversão. Sem A Versão Definitiva e Verdadeira. Jornalismo precisa de alguém que se atenha aos fatos, e tenha força e fé para tentar entendê-los, explicá-los, externá-los.
Precisamos de mais de um Joelmir Beting em nosso Jornalismo. Como eu preciso apenas de meu pai em minha vida para sempre.
Mauro Beting tem 46 anos, foi colega de ofício do pai por 25 anos, e só foi trabalhar com Joelmir nos últimos nove anos, no Grupo Bandeirantes. Mas sempre vai ter quem ache que ele é comentarista e apresentador de TV aberta e fechada, rádio, colunista de jornal, revista e internet, escritor de livros, diretor de documentários e comentarista de videogame por ser filho de quem é: de um mito inimitável
Não poucas vezes o Mimi de Tambaú dourou pílulas e problemas de chumbo de nossas vidas e artes. Talvez por isso tenha sido um otimista que não merecia ser corrigido nesses tantos anos de jornal (iniciados em 1957 e terminados em 2003), rádio (até os últimos cochichos antes de deixar órfãos milhões de coleguinhas), de TV (desde 1970), de site desde 2000, de palestras há mais de 40 anos, de Palestra Itália desde sempre.
Nem sempre concordei com suas opiniões a respeito de tudo – até de Palmeiras. Também por isso acabei não o ajudando a escrever seu último texto. Seria a respeito da queda do Palmeiras para a Série B em 2013. Pedido da Folha de S.Paulo que foi negado pelas condições físicas dele. Ele não queria ser uma Nana Gouvêa palestrina, que só reaparecia na mídia com a tragédia consumada. Foi ainda pior: o respeitabilíssimo colega que o substituiu foi um quintacolunista brilhante que externou no mesmo espaço que havia virado casaca e traído o Palmeiras com o Barcelona. Deixando prostrado o nosso time rebaixado, o meu pai enfermo, e o real torcedor de coração despedaçado.
Com meu pai não aprendi Jornalismo. Apenas a tentar ser não o melhor no ofício. Mas o mais feliz. Para ser um bom profissional é preciso ser uma grande pessoa. Infelizmente, conheci várias que burlaram a tese. Mas, pelas manifestações que abundaram de todo o país quando ele nos deixou, aprendi que realmente ele é o melhor pai que um jornalista pode ser. E o melhor jornalista que o filho pode ter como pai.
Foram mais de 40 anos invadindo os lares brasileiros fazendo agrado no árido noticiário. Ele virou alguém de casa, da família. Não o cunhado chato. Mas o tiozão legal. O vovô gente fina. O cara que ensina. Um professor. Sua maior vocação e paixão.
Quando vi Fidel, Dilma, Lula, Suplicy, Serra, Alckmin, FHC, Delfim, Sarney, Maluf falando (e alguns chorando) dele e por ele, vi que os 55 anos de jornalismo foram muito bem feitos. Quando vi gente que não o conhecia e chorava como se fosse íntimo, vi que meu pai (a quem nunca vi como super-herói) é um humano super. Um cara que me deu forças para ler a carta que eu escrevera a ele ao microfone da Rádio Bandeirantes, cinco minutos depois de saber que mais nada poderíamos fazer. Dando ao mundo a notícia que nenhum filho quer ou pode dar. Mas que um filho do rádio nada mais fez que a obrigação.
Meus pais se conheceram na Rádio 9 de Julho paulistana. Sou filho do rádio. Tinha mais de fazer do veículo o canal para expressar o que não tem palavra. O que aqui também não soube escrever. Tudo que Joelmir sabia se expressar em 40 segundos para dizer o que era o dia a dia da economia eu não conseguirei em cinco mil toques.
Até por que ele não era de dar esses toques. Nunca interferiu nas escolhas e nas escolas do meu irmão publicitário e do caçula jornalista, chefiados pela Lucila (a única que realmente entendia de Economia na casa do meu pai). O que aprendi com ele nunca me foi dito. Saquei que quem pensa o que fala não pensa no que fala. Palavras devem ser pensadas. As sentidas nem sempre devem ser ditas.
O humor cáustico do Jô de todas as horas o fazia sair pela tangente nos problemas familiares e nas questões macroeconômicas. Nem todo sujeito bem -humorado é inteligente. Mas toda pessoa que vive com inteligência tem o bom humor do meu pai. Dos irmãos dele. Da família que ele sempre prezou. E defendeu sem precisar atacar ninguém.
Como eu o defendi como pai (não como jornalista) quando aceitou fazer comercial de um banco. Fui contra. Mas ele conseguiu fazer de algo negativo uma discussão positiva. A credibilidade que ele conquistou não foi maculada pelos 30 segundos de propaganda. Os agora 55 anos de Jornalismo foram maiores. São enormes. São eternos.
O maior legado para o Jornalismo de Joelmir Beting não é só a capacidade de comunicação. O fazer- se entender – e com humor e sabor. É o de ser um cara legal. É o de ser justo.
Um mito que também se foi em 2012 foi Millôr. Ele só deixou um exagero que foi levado ao extremo: “Jornalismo é oposição”. Não é. Não pode ser sempre. Jornalismo tem de ser plural. Singular. Cheio de cores e credos. Buscando sempre a melhor versão possível dos fatos. Sem aversão. Sem A Versão Definitiva e Verdadeira. Jornalismo precisa de alguém que se atenha aos fatos, e tenha força e fé para tentar entendê-los, explicá-los, externá-los.
Precisamos de mais de um Joelmir Beting em nosso Jornalismo. Como eu preciso apenas de meu pai em minha vida para sempre.
Mauro Beting tem 46 anos, foi colega de ofício do pai por 25 anos, e só foi trabalhar com Joelmir nos últimos nove anos, no Grupo Bandeirantes. Mas sempre vai ter quem ache que ele é comentarista e apresentador de TV aberta e fechada, rádio, colunista de jornal, revista e internet, escritor de livros, diretor de documentários e comentarista de videogame por ser filho de quem é: de um mito inimitável





