A "contrarreforma" que não existiu

A "contrarreforma" que não existiu

Atualizado em 04/10/2007 às 18:10, por Angélica Pinheiro e Marlon Maciel.

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O que restou do acordo ortográfico, uma pauta que tomou conta dos jornais brasileiros em setembro, mas foi solenemente ignorada pelos demais países de língua portuguesa

A agonia do trema durou apenas 53 dias. Tempo entre a declaração do secretário executivo da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), Luís Fonseca à Radio ONU , em 24 de julho, - "2008 deve ser o ano da implementação da reforma ortográfica do português" - e a afirmativa do presidente da Colip (Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa), Godofredo de Oliveira Neto, ao O Estado de S. Paulo, em 15 de setembro, de que a unificação da língua "pode nunca entrar em vigor".

No Brasil, a notícia ganhou força quando, em 20 de agosto, a Folha de S. Paulo dedicou uma página e meia ao assunto no caderno Cotidiano . Sob o título "Brasil se prepara para a reforma ortográfica", a reportagem destacava que o Ministério da Educação já preparava a próxima licitação de livros didáticos com a nova ortografia.

Não demorou e outros veículos se debruçaram sobre a pauta. Os prós e contras das futuras regras foram temas de editoriais do Estadão. Na Veja , a matéria de capa "Falar e escrever certo", de 12 de setembro, dedicou nove páginas ao tema. Além do acordo, o repórter Jerônimo Teixeira foi buscar especialistas para falar sobre as transformações, ao longo do tempo, da "última flor do lácio".

Nenhuma linha - Mas enquanto a mídia brasileira dedicava páginas e páginas ao acordo, a mídia dos demais países falantes da língua de Camões passava ao largo do assunto. Consultados pela IMPRENSA jornais de Portugal, Moçambique, Cabo Verde, Angola - outros quatro países que compõem a CPLP junto com Brasil, Guiné Bissau, Timor Leste e São Tomé e Príncipe - ignorava o tema. O editor do jornal português Expresso , Fernando Madrinha, surpreendeu-se com o contato. "A imprensa portuguesa não deu uma linha nos últimos meses sobre esse tema. Envie-me as reportagens que estão sendo publicadas no Brasil", solicitou. Com a mesma surpresa, reagiu o repórter do jornal moçambicano Notícias , Antônio Monlam: "falta alguém para impulsionar o assunto na África".

O abismo entre a cobertura brasileira e a dos outros lusófonos pode ser, em parte, explicada pelos meandros políticos que cercam o acordo. Aprovado em dezembro de 1990, em Lisboa, o processo da unificação é marcado pela morosidade.

O documento final previa a adesão mínima de cinco integrantes da CPLP para que as mudanças entrassem em vigor dentro desses países. No entanto, um esforço diplomático comandado pelo Brasil baixou esse número para três e, desde janeiro de 2006, um mês após a entrega da carta de ratificação de São Tomé e Príncipe, os dois países mais Cabo Verde, que também assinou a exigência, poderiam ter iniciado a reforma.

O objetivo, porém, de acordo com a CPLP, é que a unificação seja aprovada por todos para que as mudanças possam ser aplicadas internacionalmente, em livros e documentos oficiais. "O nosso esforço é para que Portugal ratifique o acordo, levando consigo os demais países", diz o assessor da entidade, António Ilharco.

Para o editor do jornal on-line de Cabo Verde O Liberal , Nuno Rebocho, o país europeu está mais preocupado com as questões que envolvem a União Européia do que com um acordo que pode modificar 1,6% do vocabulário da terra. Defensor do acordo, pois, segundo ele, as regras facilitariam a comunicação dos cabo-verdianos nos demais países lusófonos, o editor mostra-se pessimista em relação à assinatura portuguesa. "Cabo Verde sofre uma grande diáspora. Estudantes do país migram para Portugal e Brasil e têm dificuldades para adequar suas ortografias quando chegam a esses países", explica.

A chamada "brasilificação", neologismo luso que significa "abrasileiramento", também surge como uma espécie de afronta contra a mãe-pátria. De fato, a unificação teria um impacto bem menor no português falado no Brasil. Atingiria apenas 0,5% do vocabulário brasileiro contra 1,6% do português. E há dificuldades políticas de implementação nos países africanos. "Essa questão está longe da ordem do dia na África", diz Rebocho.

Em artigo para o Estado de S. Paulo , em 15 de setembro, o embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, declara que o país passa por "uma reflexão mais amadurecida sobre os efeitos, em especial editoriais, das mudanças que o acordo implicaria". E disse, numa clara demonstração de que Portugal não tem pressa, que "uns anos a mais ou a menos" não serão problema para um "mundo que viveu sem ele (acordo) até agora".

Bastidores da notícia - A apuração que levou a Folha a cravar a manchete em agosto mostra que o governo já se mexia para a mudança da ortografia e que foi pego de surpresa pelos debates acerca dos efeitos da reforma. A autora da matéria, Daniela Tófoli, conta que, após ler a na internet a notícia veiculada na Rádio ONU , foi em busca da informação no governo. "Primeiro, procurei o MEC, que confirmou a história, e falou das licitações dos livros didáticos. Então, vimos que havia um movimento nas escolas para discutir o assunto", diz. O segundo passo foi ouvir a CPLP. "Pedimos uma entrevista e eles também confirmaram", lembra.

Em meados de setembro, a mesma Folha , tomou a dianteira ao publicar declarações do ministro da Educação, Fernando Haddad, em que admitia publicamente a possibilidade do Brasil adiar a adoção da medida. "Provavelmente, a reforma não sairá em janeiro [de 2008] (...) A idéia é conversar com Portugal até o final do ano para estabelecer a data", informou o jornal.

As mesmas informações foram obtidas pela reportagem da IMPRENSA dentro desse mesmo período. Logo após a matéria do jornal paulista, o assessor especial do MEC, Carlos Alberto Xavier, declarou: "[O acordo] Vai influenciar minimamente nas palavras e resolver 98% dos problemas ortográficos. É justamente por ser tão pequeno que ele pode existir". Em uma segunda conversa , após a declaração de Haddad , Xavier admitiu ser preciso ampliar o prazo para que o acordo vigore. "Tendo em conta a modernidade de hoje em dia e os países africanos serem jovens repúblicas, em que a população não fala o português, exceto os mais letrados, acho que poderíamos chegar a quatro anos, para a convivência entre as duas normas. Para nós, seria 2013".

O fato, porém, era que ninguém sabia ao certo quando o acordo entraria em vigor. Alguns arriscavam 2008. Outros apostavam em 2009 ou mais. Até que no sábado, dia 15 de setembro, o Estadão jogou um balde de água fria nessa história.

De acordo com o jornal, a unificação ortográfica, que se arrasta desde 1991, "pode nunca entrar em vigor", segundo o presidente da Comissão de Definição da Política de Ensino, Aprendizagem, Pesquisa e Promoção da Língua Portuguesa, Godofredo de Oliveira Neto: "Não faz sentido começar um acordo de unificação já desunido", completou.

Leia matéria completa da edição 228 de IMPRENSA (out/2007)