"A comunicação muito além do produto ", por Paulo Nassar

"A comunicação muito além do produto ", por Paulo Nassar

Atualizado em 18/11/2004 às 14:11, por Paulo Nassar*.

Nova pagina 1


Fonte: Panorama Editorial

Foi meu primeiro livro: uma Bíblia de capa preta, título em letras douradas, elegantes e inclinadas. Meus dedos, ainda pequenos, tocavam as folhas de papel muito fino - delicadas, com sua constelação dos tipos, minúsculos, a contar o Velho e do Novo Testamento -, defendidas pela capa grossa que imitava couro. Isso faz muito tempo, mas, trago na memória o tato, o cheiro, a visão do lugar de destaque que ela ocupava na casa de meus pais. De lá para cá, cada trecho da vida, pode ser pontuado por títulos que tocam e marcam a alma. Dos tempos da meninice e da adolescência, distantes, mas nítidos na sua força, os de Monteiro Lobato, Antoine de Saint-Exupery, Castro Alves. Mais tarde, Ernest Heminguay, os modernos brasileiros, e, meu Deus, centenas e centenas de livros técnicos. Os livros foram e continuam importantes, hoje, quase 50 anos depois, em minha casa eles estão espalhados por todos os cantos, ao alcance das mãos. Eu gostaria de lembrar, da mesma forma, de livreiros e livrarias, de editores e editoras, que foram importantes na minha formação de professor e de cidadão. É uma pena, mas não me lembro. E, olha, sem eles meus primeiros livros não teriam chegado até Bela Vista do Paraíso, pequena cidade do Norte do Paraná, onde eu nasci. Naquele tempo, editores e livreiros que criavam, por meio dos livros, laços entre pessoas, sociedades e culturas, o faziam de maneira invisível, como se a atividade tivesse pouca ou nenhuma importância.

E aqui está: a comunicação vai muito além do livro, cuja matéria-prima, a identidade, é compartilhar informações de todo o tipo, com cada homem e mulher alfabetizado, que tenha a curiosidade de olhar o passado, refletir sobre o presente e imaginar o futuro. Por essa capacidade de fazer-nos sentir o tempo em todas as suas dimensões, o livro precisa ser percebido como ser vivo, que abriga uma criação e respira o seu criador e seu editor, extrapola os limites do produto/serviço, sua distribuição e preço. O setor livreiro precisa se dar conta da importância da comunicação para além do livro. Nós, os leitores, queremos conhecer os bastidores da criação, as sagas que, começam nos sonhos dos escritores, materializam-se nas mãos dos editores, e chegam aos leitores pelas mãos dos livreiros e dos bibliotecários. Quantos valores, crenças, tecnologias, trabalho e paixão na história de cada livro, cada editora, cada editor, cada distribuidor, cada livraria. O mundo do livro tem um conjunto de atributos que se constitui em um exército invisível e poderoso que valoriza - diante da sociedade e dos seus inúmeros públicos - a obra impressa, os que a criam e as transformam em produto. É preciso, é urgente, comunicá-los. Nesses tempos bicudos, nada é pior para um setor econômico que ser percebido apenas como produtor ou negociante, ainda que de livros.

* Paulo Nassar - Professor da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP), presidente-executivo da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE)