A comédia da política

A comédia da política

Atualizado em 19/11/2010 às 16:11, por Silvia Dutra.

Nelson Rodrigues dizia que brasileiro tem complexo de vira-lata. Cada vez que visito o Brasil e escuto parentes e amigos reclamando inflamadamente das coisas absurdas, estúpidas, sem lógica, justiça ou sentido que acontecem aí -- como se elas só acontecessem aí -- chego a conclusão de que o Nelson acertou na mosca.
Por exemplo: aí como aqui, recentemente tivemos eleições. E campanhas políticas, para diferentes cargos: vereadores, juízes, chefes de polícia, senadores, deputados e até governadores. Graças a Deus já acabou, porque era um sofrimento, todos os dias, aguentar a enxurrada de propaganda (na televisão, nas rádios, em placas pelas ruas) dos candidatos. Que, sem exceção -- pelo menos aqui na Florida --, só utilizaram o tempo de exposição na mídia para atacar seus oponentes ou dizer jargões vazios de significado, sem apresentar uma proposta política consistente e crível.
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De modo geral todos diziam as mesmas coisas: vou criar mais empregos, vou reduzir os impostos, vou melhorar a educação, a saúde, os transportes, aumentar as aposentadorias, os salários dos professores, dos policiais etc. Sempre as mesmas promessas, sem o detalhamento de como tais milagres poderiam ser alcançados. Pelo menos no Brasil o candidato Tiririca foi sincero: confessou não saber o que um deputado federal faz, "mas vote em mim que eu te conto". Como se isso não fosse suficiente para tornar as campanhas um espetáculo deprimente, teve até um sujeito em New York, Jimmy McMillan que foi ainda mais longe: fundou um partido (pasmem!) para concorrer ao cargo de governador na eleição que terminou semanas atrás. O nome do partido é "O aluguel tá danado de alto". Não acredita? Visite o site aqui: http://www.rentistoodamnhigh.org/.
E o nome dos candidatos então? Você votaria numa candidata a deputada que se chamasse Bola de Cristal (Crystal Ball)? Ou elegeria Bond, James Bond? Entre Frank Babaca (Frank Schmuck) ou Pinto Doce (Dick Swett*), com quem você ficaria? E que tal ter como xerife um sujeito que se chama Bom de Tiro (Timothy Shotwell)? Ou uma juíza com o sobrenome "Sem Lei" (Janelle Lawless)? Falando sério, daria para confiar as finanças de um estado a um sujeito chamado "Jovem Bebum" (Young Boozer)?
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Parece brincadeira, mas esses são nomes reais de candidatos americanos a cargos políticos que participaram de eleições. Portanto, a próxima vez que seu sangue ferver com os aumentos de salários que os políticos daí - e daqui também - se concedem ou sua urticária ficar insuportável com o mistério da novela "Afinal Tiririca sabe ou não ler e escrever?", respire fundo, tome um copo de água e procure se acalmar. Lembre-se que política e políticos são iguais, no mundo inteiro. E que atitude, assim como perspectiva, são tudo nessa vida. Nada como o conhecimento de outras realidades para que nossa visão de mundo fique mais ampla e um pouco menos passional.
* A grafia correta da palavra "doce" é "sweet", mas no caso do nome do candidato a pronúncia é a mesma, daí o infame trocadilho.