"A cobertura de conflito não é sobre os que se atacam", destaca Hugo Bachega

A discussão em torno do exercício desse tipo de jornalismo ainda está presente nas redações.

Atualizado em 15/07/2014 às 11:07, por Alana Rodrigues*.


“Para fazer um bom jornalismo, você precisa estar no local dos fatos e ver de perto o que está acontecendo”. A frase de Klester Cavalcanti, jornalista baseado na Síria, parece valer para todo repórter, mas ganha um significado especial quando o assunto é cobertura de guerra.


Crédito:SXC Jornalistas revelam as dificuldades da cobertura jornalística em zonas de conflito

No entanto, o grande motivo para arriscar a própria vida por uma boa notícia parece ser a busca para narrar o lado humano dessas histórias.


Em maio de 2012, o jornalista Klester Cavalcanti foi registrar a realidade da guerra civil na Síria iniciada um ano antes. Partiu para Beirute, no Líbano, com toda a documentação em ordem e um contato esperando-o na cidade de Homs, epicentro do conflito entre as forças do ditador Bashar al-Assad e os rebeldes do Exército Livre da Síria.


Ele planejava acompanhar por alguns dias a ação dos rebeldes. No entanto, foi preso pelas tropas oficiais, torturado e encarcerado por seis dias numa cela que dividia com mais de 20 detentos. A experiência é narrada pelo jornalista no livro “Dias de Inferno na Síria”. “Eu fui para lá porque eu queria ver o que estava acontecendo de verdade. As notícias são muito frias e numéricas. Ninguém mostra o lado humano da guerra”, ressalta.


Recentemente, o jornalista Hugo Bachega ficou cerca de sete horas detido no Egito por policiais em meio à crise política no país. Ele foi preso quando deixava a Praça Ramsés, um dos pontos de conflito no Cairo. A detenção do brasileiro ocorreu em meio a um clima hostil para os profissionais estrangeiros, que deixaram vários mortos.


Bachega conta que cobrir o conflito no Egito foi uma experiência diferente pelo fato de já morar no país e poder acompanhar de perto o cotidiano dessas pessoas que, há meses, estavam cercadas por um estado de decepção com a crise econômica e política.


Para ele, uma das coisas que mais impressionou foi a falta de comoção. "Essa é uma parte do mundo acostumada a conflitos, violência e mortes. Mesmo assim, me espantou a naturalidade com a qual o país enfrentou isso – no dia seguinte, a vida já havia praticamente voltado ao normal", diz.


Humberto Trezzi, da Zero Hora , fez diversas coberturas criminais no Rio de Janeiro e São Paulo, investigando ações do Comando Vermelho e do PCC, além de acompanhar a inundação de 2008 em Santa Catarina. Como repórter especial, atuou em coberturas internacionais no Paraguai, Uruguai, México, Equador, Colômbia, Angola, Timor Leste e Haiti. Em 2011, o repórter conferiu de perto a sangrenta guerra civil na Líbia.


Ele relata na obra “Em Terreno Minado – Aventuras de um repórter brasileiro em áreas de guerra e conflito”, os bastidores de uma série de reportagens produzidas ao redor do mundo. "Foi uma das mais fascinantes experiências de minha vida. Quando os rebeldes iniciaram a revolta, eu estive lá. E quando ganharam a capital, também", avalia Trezzi.


No país, o repórter acompanhou guerrilheiros no cerco a uma refinaria, em Ras Lanuf, localizado no Golfo de Sidra. Na ocasião, eles foram expulsos a tiros de canhão, bombardeio de aviões e navios. Na fuga, um carro caiu numa cratera de bomba e o veículo em que Trezzi estava também bateu nele. O jornalista foi ferido no olho esquerdo e salvo por guerrilheiros num jipe. Em seguida, colocaram-no numa ambulância, que também foi alvo de tiros. "Uma corrida louca, mas sobrevivi. Meses depois, vi a OTAN bombardeando (com aviões) a capital", acrescenta.


Desafios


Na prisão, o grande desafio de Klester foi tentar manter a sanidade para conseguir encarar a situação. Segundo ele, a angústia por não saber o que iria acontecer nos próximos dias era imensa. Apesar do clima hostil, ele diz que ainda há sentimentos que revelam a empatia da população. “O que mais me impressionou foi ver que mesmo num ambiente de guerra e pavor, é possível encontrar pessoas boas, generosidade, carinho, amizade e amor”, explica.


Bachega afirma que no Egito as autoridades deixaram claro a insatisfação com a cobertura da imprensa. Para eles, a mídia havia adotado um tom favorável aos simpatizantes islâmicos, o que atingiu também a população, que se voltou contra os correspondentes. “Esses dias foram os mais problemáticos para se trabalhar nas ruas”, confessa.


Ele ressalta a importância de estar preparado fisica e psicologicamente. “Cobrir conflitos é muito mais do que estar fisicamente preparado – significa ter a capacidade psicológica de atravessar momentos difíceis e sombrios”, diz.


Trezzi pontua que o desafio de cobrir uma guerra é fazê-lo com segurança. É preciso levar equipamento protetor, manter contato permanente com a redação e com embaixadas amigas no país, além de ter um fixer (guia, tradutor e produtor) de confiança. "Acho que quem vai é porque gosta de aventura ou gosta de assunto internacional ou é curioso sobre como é avida no limite. Gosto de tudo isso", avalia.


Segundo ele, uma das coisas que mais o impressionou foi bombardeio. "Sou um cara vivido, já estive em muitos tiroteios, mas bombardeio eu nunca tinha vivenciado, até porque no Brasil não tem disso.Assistia as bombas caindo, desde a janela do meu quarto. Impressionante. Eassustador, porque tu não tens muito onde se esconder, quando a bomba vem para teu lado", explica.


A cobertura


Segundo Klester, os veículos são passiveis de dados que não podem verificar. O repórter diz que a experiência só reforçou sua visão do jornalismo. “Para fazer um bom jornalismo, você precisa estar no local dos fatos e ver de perto o que está acontecendo”, diz.


De acordo com Bachega, o principal desafio é traduzir um cenário complexo à maioria das pessoas que não acompanham os conflitos. “Para mim, cobertura de conflito não é sobre os que se atacam, mas são as centenas de histórias daqueles que se veem envolvidos”, completa.


Trezzi pondera que a cobertura da mídia nos conflitos, como o da Síria, estava muito boa no início da guerra, mas que se desfez em decorrência dos frequentes sequestros de jornalistas. “Até entendo que os jornais tenham deixado de enviar gente para lá (as TVs brasileiras nunca foram). Eu não estive lá, nem meus colegas. O jornal achou muito arriscado", conta.


Para ele, os cursos de preparação para repórteres que pretendem ir a uma área de conflito são uma boa opção. Segundo Trezzi, o jornalista aprende a ter noções de como se livrar de armadilhas da profissão, evitar franco-atiradores, que roupa usar, como falar, com quem falar, quando falar, como não mexer em objetos suspeitos, andar em terreno minado e a maneira que se deve proceder quando se é sequestrado.



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* Com supervisão de Vanessa Gonçalves