A circularidade da pauta e a criatividade no jornalismo

A circularidade da pauta e a criatividade no jornalismo

Atualizado em 18/08/2008 às 12:08, por Kátia Zanvettor.

Quem se lança na empreitada de acompanhar, em dia qualquer, os noticiários do dia ou parte deles em diferentes emissoras termina o desafio com certa sensação de frustração. A impressão de "déjà vu" é inevitável e, com raríssimas exceções, fica evidente a falta de criatividade que assola o jornalismo brasileiro.

Além de revisitar a mesma notícia, o telespectador parece ouvir o mesmo texto, as mesmas imagens e às vezes até o comentário é o mesmo. Mas este jogo do tudo igual não é algo novo e podemos até nomeá-lo como o efeito de "circularidade da pauta", isto é, os jornais pautam a si próprio e também são pautados uns pelos outros, criando um efeito circular em que as informações são repetidas infinitamente.

Este efeito surge por uma necessidade legítima do jornalismo, quer dizer, para evitar o furo e garantir que a sua cobertura não fique devendo para a cobertura da concorrência os jornalistas se informam, lêem, vêem e reproduzem o trabalho de outros jornalistas. Além disso, há àquelas matérias que de fato merecem uma cobertura ampla e irrestrita e, inevitavelmente, devem estar em todos os jornais sérios e preocupados com a informação.

Contudo, ainda assim, tem alguma coisa de lugar comum neste processo e acho que a culpa de tudo é a falta de criatividade. Sem querer defender muito o mercado de jornalismo, tenho que reconhecer que a culpa desta falta não está necessariamente nas redações, ao contrário, acredito que ela começa nas escolas de comunicação e no formato do ensino de jornalismo. Se a própria universidade, local para experimentação e inovação, está cheia de lugares comuns e "repetecos" que consagram a falta de imaginação, não é estranho que o mercado seja esmagado pela necessidade de copiar fórmulas prontas que dão certo e geram lucro.

Para exemplificar, lembro que há algum tempo fiquei frustrada com a leitura de um trabalho de conclusão de curso sobre telejornalismo que evidenciou esta falta de criatividade. Os alunos compararam dois grandes telejornais de duas emissoras diferentes e sem uma preocupação mais científica, fizeram várias inferências que beiravam o senso comum. Até aí, tudo bem, considerando que não temos uma larga tradição em pesquisa é comum que ainda estejamos tateando inovações.

Porém, foi na apresentação final que senti a gravidade da falta de criatividade. Os alunos não se deram ao trabalho de apresentar argumentos ou defender a tese, como se espera de um trabalho acadêmico, e que talvez fosse mais produtivo do que se seguiu. Em nome da "inovação" eles vestiram ternos, arrumaram o cabelo e apresentaram suas considerações no formato mais consolidado do telejornalismo brasileiro. Copiando os exemplos que temos os alunos esperavam mostrar como inovavam e eram criativos!

É bom frisar que não podemos culpá-los por fazer aquilo que se espera deles. Durante quatro anos foram ensinados que fazer bom jornalismo é fazer como é feito. A estrutura curricular do curso de comunicação, falando estritamente nas disciplinas técnicas, está fundamentada na idéia de reprodução. Jargões, receitas prontas para a composição dos textos, termos técnicos repetidos à exaustão são algumas das estrelas do conteúdo e esquecemos ou não sobra tempo para uma ousadia qualquer.

Felizmente, as exceções estão aumentando e esta regra começa a ser questionada pelos cursos e professores. As escolas mais avançadas já perceberam que bons alunos são àqueles estimulados pela criatividade e pela inovação, que duvidam da reprodução e colocam em questão velhos padrões. Estes alunos são essenciais para revigorar o mercado, mas também podem se permitir fazer tudo igual e mesmo assim, fazer diferente.