"A boa faculdade vai entender que tem que tornar seu curso excepcional para atrair alunos ", diz Danilo Gentili
"A boa faculdade vai entender que tem que tornar seu curso excepcional para atrair alunos ", diz Danilo Gentili
O humorista Danilo Gentili, do programa "CQC", é um dos mais controversos repórteres da atualidade, repetindo o que fazia, na década de 80, Ernesto Varella, personagem criado pelo jornalista Marcelo Tas, âncora do humorístico da Band.
| Divulgação |
| Danilo Gentili |
Gentili, que é publicitário, falou ao Portal IMPRENSA o que pensa sobre a queda da obrigatoriedade da formação específica para exercíco da profissão de jornalista, rumos do mercado de trabalho e do novo desafio dos que pretendem seguir carreria como jornalista e das faculdades "que agora não poderão mais ensinar qualquer coisa".
Portal IMPRENSA - Em sua opinião, foi correta a decisão do STF de suspender a necessidade de formação específica para o profissional de jornalismo?
Danilo Gentili - Eu creio que essa decisão vai favorecer todos aqueles que gostam de jornalismo, se comprometem com ele, porém não querem deixar nenhum reitor mais rico ainda. O Jornalismo é uma profissão que envolve ética, perspicácia, relacionamentos, sagacidade, paixão pela verdade, competência e experiência. Eu não acho que esses valores podem ser aprendidos em um curso de uma faculdade. Eles tem a ver com caráter, boa vontade e vivência. Sendo simplista agora, eu acho por exemplo, que o Neto está mais capacitado para escrever uma matéria sobre futebol do que um jornalista que acabou de sair da faculdade e tem diploma. Acho também hipócrita dizerem "Ah,então agora qualquer um pode ser jornalista?". Mas é claro que sim! Antes também qualquer um podia ser jornalista, não podia? Era só pagar uma "Unialgumacoisa" da vida por quatro anos e virar jornalista (ou, com um pouco mais de sorte, fazer o pai pagar cursinho dois anos e entrar numa faculdade federal).
IMPRENSA - Quais as consequências, na sua opinião, para a formação acadêmica do jornalista e para o mercado de trabalho?
Gentili - Eu creio que uma boa faculdade vai entender que precisa tornar seu curso realmente excepcional se quiser continuar tendo relevância ao cenário e atrair alunos (ou clientes, como muitas instituições de ensino enxergam seus estudantes). Aquele cursinho da "Unialgumacoisa" vai precisar parar de ensinar qualquer coisa e se importar de verdade em ensinar o melhor jornalismo possível (se é que isso é possível), afinal, agora, o aluno tem a opção de escolha: "Meu sonho é ser jornalista. Eu dou dinheiro pra esse reitor ou tento realizar meu sonho sozinho?". Creio que aí o mercado de trabalho e os interessados na área vão ganhar. Outra coisa boa é que muito sanguessuga que vive do sindicato corre o risco de perder sua boquinha.
IMPRENSA - Por ser formado em outra graduação que não a de jornalismo, você teve alguma dificuldade em atuar como repórter? Sofreu algum tipo de rejeição por parte dos entrevistados?
Gentili - Nunca tive nenhuma dificuldade em atuar como repórter, pois o veículo em que atuo como "repórter" não requer os padrões plásticos do jornalismo. A postura padrão, a pergunta padrão, a entonação padrão...sou livre pra me esquivar disso tudo. Porém a essência do jornalismo permanece, que é o compromisso de pesquisar e divulgar as informações corretas. O "CQC" tem jornalistas excelentes em seus bastidores. Um produtor que é um jornalista formado por exemplo, é o Marcelo Salinas. Aprendo muito sobre jornalismo de ver o seu raciocínio na hora de apurar algumas coisas. Porém não creio que ele seja um ótimo jornalista porque fez faculdade e sim porque ele tem experiência e boa vontade. Creio que aprendo mais sentando com ele discutindo as pautas e ao lado dele nas matérias em campo, que fazendo quatro anos de curso. Quanto a segunda parte da pergunta, eu jamais sofri rejeição alguma de entrevistado por eu não ter diploma, pois a maioria dos meus entrevistados também não tem diploma. Já entrevistei o Roberto Carlos e ele não tem diploma de cantor. Entrevistei o Kassab e ele não tem diploma de prefeito. Entrevistei o Lula e ele não tem diploma de... bem... ele não tem diploma.
IMPRENSA - Você se considera um jornalista?
Gentili - Confesso que estou mais preocupado em fazer rir do que em dar um grande furo jornalístico. Eu me considero um humorista e não um jornalista. Vivo de humor muito antes do "CQC". Tenho boas críticas nos jornais que me consideram um bom humorista antes do "CQC". E adivinha só... Eu nunca fiz nenhuma faculdade de humorismo.
IMPRENSA - Na sua opinião, o mercado terá preferência por profissionais formados em jornalismo, mesmo após a queda da obrigatoriedade?
Gentili - Creio que o mercado vai continuar dando preferência pra quem já dava antes dessa decisão do STF: para os jornalistas melhores preparados (e isso pode incluir ter sido preparado numa boa faculdade) ou os que não são tão bem preparados assim, mas fizeram o teste do sofá com a redação ou tem algum padrinho forte no meio (e aqui, novamente, ter ou não um diploma não vai impedir que isso aconteça).
IMPRENSA - Mesmo sem a necessidade de formação específica para o exercício da profissão, você pensa em fazer faculdade de jornalismo? Acha necessário ao seu trabalho?
Gentili - Jamais. Eu já deixei um reitor cheio do meu dinheiro uma vez pra fazer uma faculdade que não serve pra nada (publicidade) e não pretendo repetir isso nunca mais na minha vida. O que eu acho necessário pro meu trabalho e pra qualquer outro é se comprometer muito com o que se propôs a fazer e procurar observar os mais experientes trabalharem. No caso de jornalismo não é tão difícil assim fazer isso. É só ler jornais, revistas e ver a TV e vai observar excelentes jornalistas trabalhando. E me pergunto: o que eles fizeram para produzir uma matéria tão boa como essa? Foi a Uninove, a PUC ou a paixão desses jornalistas pelo que fazem? Vocês podem me dizer: "sim..mas eles são bons porque tiveram uma boa base na faculdade". Ora, se a faculdade dá uma base tão boa assim, porquê, então, precisam estagiar quando saem delas? O estágio nada mais é do que a hora que você realmente aprende a fazer, porque é a hora que parou de ouvir "cagação" de regra e foi fazer na prática.
IMPRENSA - Na sua opinião, o trabalho realizado pelo "CQC" pode ser considerado jornalismo?
Gentili - O trabalho realizado pelo "CQC" é jornalistico, porém a linguagem que usamos para transmitir esse jornalismo é o humor. Cruzamos expêriencias de jornalistas, humoristas e pessoal da TV. Transmitimos fatos, acontecimentos, eventos, fazemos rir. Creio que o "CQC" é uma mistura de caminhos e o Jornalismo é umas das avenidas principais. E particularmente, me considero um sujeito de muita sorte por poder transitar por essa avenida.
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