A boa e a má imprensa

A boa e a má imprensa

Atualizado em 21/03/2011 às 19:03, por Nelson Varón Cadena.

Há um século (1910) surgia em Petrópolis, Rio de Janeiro, região de veraneio da elite carioca, um movimento aparentemente despretensioso em favor da boa imprensa, o rótulo por sim já é excludente: se há uma boa imprensa, o pressuposto de uma má imprensa também é valido.
Movimento liderado por Frei Pedro Sinzing, um frade alemão que aportou no Brasil em 1893, então com 17 anos de idade, para atender a representação dos padres franciscanos que solicitaram ao Papa Leão XIII o envio de jovens com vocação de servir a Cristo e assim repovoar os claustros dos conventos, naquele momento, em crise vocacional.
Frei Pedro aportou na Bahia, mais tarde sendo transferido para Lages no Rio Grande do Sul onde fundou o jornal Cruzeiro do Sul em 1902 fechado três anos depois por interferência do bispo, atendendo pressões das oligarquias locais. Em 1908 Frei Pedro é transferido para Petrópolis e ali na região serrana monta uma tipografia e articula o movimento da sociedade civil denominado de "Centro da Boa Imprensa", lançado em 1910, e que sobreviveu até inícios dos anos vinte quando o frade voltou à sua terra natal; mais tarde retornaria ao Brasil com o intuito de lançar um jornal diário, projeto que não conseguiu realizar, ao que tudo indica por pressão da própria igreja.
O radical
Frei Pedro Sinzing era um homem de muito talento. Escrevia muito bem, tinha dotes musicais, e possuía ampla cultura. Mas era um radical, ultra-conservador, de convicções muito firmes. Durante a primeira guerra mundial tomou partido em favor de seus conterrâneos, sendo advertido e silenciado pela arquidiocese que inclusive o mandou de volta para Europa em 1920, atendendo pressões da sociedade e do Governo.
O Centro da Boa Imprensa aparentemente era um movimento despretensioso e não há nenhuma referência na história escrita da imprensa brasileira sobre seu escopo e atuação, a não ser a relação de algumas das publicações editadas na tipografia: O Bem Te Vi, Beija Flor, A Resposta, Música Sacra, A voz de Petrópolis, A União, A Tela, dentre outros periódicos. Mas, na verdade era um movimento extremamente conservador, radical no seu posicionamento e divulgação de supostos valores. Sabemos disso avaliando as mensagens dos cartazes de propaganda e cartões postais distribuídos na época, alguns deles publicados no livro "Propaganda no Brasil através do carta-postal" de Samuel Gorberg.
Intolerância
Os postais divulgavam mensagens de extrema intolerância como: "Desorientados pela imprensa má e neutra, hoje atiram em Cristo. Amanhã não respeitarão nenhuma outra autoridade, nem lar nenhum. Alistem os jovens na Liga da Boa Imprensa". Esse postal específico mostra um sujeito portando exemplares da revista O Malho, uma das publicações de maior prestígio na época, induzindo o leitor a associar a revista com a idéia de imprensa nociva. Um outro postal faz o contraponto entre o auditório "do padre e do jornalista". O primeiro "limitado, uma vez por semana ouve seu pregador". O segundo "enorme, todos os dias deixa-se sugestionar por ele".
Mão forte
As mensagens fazem referência a virtudes e defeitos e desvios de caráter, estes últimos sempre associados à imprensa má ou neutra. "O mau jornal faz o filho ladrão. Que não entre em vossa casa nenhum jornal mau ou neutro, a corromper, aos poucos, os vossos próprios filhos! Mão forte à boa leitura, alistando-vos à liga da Boa Imprensa". Mensagens sempre com o mesmo teor: A felicidade do lar? A má leitura fal-a procurar a felicidade longe do lar paterno. Fujam da má imprensa e da neutra". Ou seja, o movimento pregava, em outras palavras, que ninguém deveria ler nada que não fossem as publicações católicas editadas na tipografia de Frei Pedro. Mensagem explícita num cartão com a ilustração de um homem jogado no chão, dois outros observam e comentam: "O mau jornal roubou-lhe a fé em Deus. Tornou-se ladrão e assassino! Quem garante vossa vida e vossa propriedade é a boa imprensa. Alistai-Vos.
O movimento tinha o apoio das principais autoridades de Petrópolis, dentre elas Hortência Weischenk, primeira-dama do município, cujo nome inspirou Frei Pedro a criar a Festa da Hortência para comemorar as efemérides da criação do Centro da Boa Imprensa. Festa realizada anualmente, em 02 de fevereiro, com o intuito de divulgar a liga e arrecadar recursos para o futuro Diário Católico que seria lançado na capital do país, com distribuição nacional, o sonho que Frei Pedro que costumava dizer "não me considerem um homem de paz, mas de guerra", felizmente, não chegou a realizar.