A bibliografia antiga de imprensa

A bibliografia antiga de imprensa

Atualizado em 23/11/2009 às 14:11, por Nelson Varón Cadena.

Não é verdadeira a tese de que é escassa a bibliografia sobre comunicação existente no Brasil. Volta e meia me deparo com esse falso conceito em sites da internet e até em dissertações de mestrado, justificativa tal vez para a pesquisa apressada, ou mal orientada, para não dizer outra coisa. Até a primeira metade do século XX mais de meia centena de livros já tinham sido editados sobre o tema. Hoje é impossível avaliar o quantitativo, estimo que mais de cinco mil obras publicadas por editoras e um número seguramente maior de teses de mestrado e trabalhos de conclusão de curso, disponíveis apenas nas bibliotecas das universidades.

No século XIX a preocupação era disseminar as técnicas de produção. Nesse intuito Martim Martz traduziu em 1848 o "Manual do tipógrafo" de Ralph Polk; com o mesmo propósito o gráfico e editor Arthur Arezio publicou na Bahia "Serões tipográficos" e Esboço tipográfico" em 1905 e 1907 respectivamente. Com um outro foco, retratar as origens da imprensa e a sua evolução, Moreira de Azevedo editou em 1.865 o livro "Origem e desenvolvimento da imprensa no Rio de Janeiro". Já Alfredo de Vale Cabral publica em 1.881 os "Anais da Imprensa Nacional", enquanto Ernesto Sena, repórter do Jornal do Commercio se reporta aos bastidores da imprensa, no contexto da sociedade, em "Notas de um repórter" publicado em 1.895.

A vez dos catálogos

Antes disso (1.883) Joaquim Maria Serra Sobrinho publicara em São Luis a obra "Sessenta anos de jornalismo" e no Rio de Janeiro Eduardo Salamonte editara um livro sobre o artista gráfico, grande expoente dos jornais ilustrados, Rafael Bordalo Pinheiro. O primeiro centenário da imprensa, comemorado em 1908, ano de fundação da ABI, ensejou a publicação de diversas obras, inclusive catálogos de periódicos. No Recife Alfredo de Carvalho publica os "Anais da imprensa pernambucana" (1908) e três anos depois "Os anais da imprensa da Bahia". Victor Hugo Aranha, por sua vez, revê "A Imprensa Nacional à luz dos fatos". enquanto Luiz Alves de Oliveira Belo, com a mesma temática, publica "Imprensa Nacional. 1808-1908. Eduardo Frieiro, por sua vez, lança "Gênese e progresso da imprensa periódica no Brasil".

Na década seguinte Afonso Freitas, seguramente inspirado no trabalho de Alfredo de Carvalho, publica "A imprensa periódica de São Paulo desde seus primórdios em 1.823 até 1.914", ainda hoje a melhor obra de referência sobre o assunto. Pedro Sinzig publicava em 1911 "A caricatura na imprensa brasileira" e Basílio de Magalhães "Os jornalistas da independência" (1917). No ano seguinte Lemos de Brito relata os debates e resoluções do primeiro grande encontro classista no livro "No congresso da imprensa", evento que pela primeira vez discutiu e formalizou a proposta da criação de um curso para a formação de profissionais de jornalismo. Em 1923 o jornalista italiano Natale Belli lança em São Paulo o livro " Giornalismo italiane no Brasil", em sua língua pátria do mesmo jeito que Vitalino Rotellini editara em 1904, em língua inglesa, "The press of state of the S. Paulo".

Na década de 20 Barbosa Lima Sobrinho, então um jovem bacharel, pública "O problema da imprensa", um clássico em torno da ética e das questões relativas à liberdade de imprensa. Assunto que já tinha sido abordado, com um outro foco, por Ruy Barbosa em 1919 em "A imprensa e o dever da verdade". Com Barbosa Lima Sobrinho se inicia uma nova era da bibliografia brasileira de comunicação. Mas este é assunto que fica para nosso artigo da próxima semana.