"A atitude da imprensa na cobertura do julgamento do mensalão não foi correta", diz especialista
"A atitude da imprensa na cobertura do julgamento do mensalão não foi correta", diz especialista
Nas últimas semanas, a atuação da imprensa no julgamento do inquérito 2245, mais conhecido como "mensalão", gerou polêmica dentro e fora das redações e confundiu até os altos escalões dos jornais.
No dia 22 de agosto, a diretoria do jornal Folha de S.Paulo tomou uma decisão que depois considerou equivocada. Ao contrário do jornal O Globo , a Folha não publicou reportagem sobre a troca de mensagens entre os ministros Ricardo Lewandowski e Carmem Lúcia, durante a sessão de julgamento dos envolvidos no escândalo.
A decisão pela não publicação foi tomada após a direção da Folha consultar o Departamento Jurídico da empresa e o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, que a aconselhou a não publicar a reportagem. Os advogados entenderam que ela violava a privacidade dos ministros e o sigilo de correspondência.
A ação dos jornalistas e a decisão dos jornais em publicar o material foram tema de debate em vários meios, do político ao da esfera da comunicação. A atitude da imprensa foi correta? As opiniões foram divergentes e não igualitárias.
Na última quinta-feira (30/08), a mesma Folha publicou matéria em as informações foram registradas por uma repórter que presenciou conversa telefônica entre o ministro Lewandowski e seu irmão, em um restaurante de Brasília.
No mesmo dia da publicação da reportagem, mais explicações, críticas e questionamentos sobre e para jornalistas e veículos de comunicação.
Segundo a professora e especialista em ética na imprensa, Adriana Paone, a atuação dos profissionais, nos dois casos, deve ser analisada com cuidado. "O que precisa ser avaliado é se o bem trazido à população com a divulgação das informações estava acima da invasão de privacidade" disse a especialista, em entrevista ao Portal IMPRENSA.
De acordo com ela, o conceito do que é de interesse público ou não é muito elástico e, em decorrência disso, pode ser entendido de várias formas, como no caso da Folha de S.Paulo , que, em um primeiro momento, julgou como incorreto publicar as informações e depois reviu sua decisão.
"Para mim, a atitude da imprensa não foi correta. Os jornalistas deveriam, no mínimo, procurar o 'outro lado'. É claro que se o ministro fosse ouvido no dia em que estava no restaurante, ele falaria outra coisa, mas a jornalista teria ouvido o lado dele. O Artigo 5º da Constituição, que trata de privacidade e violação de correspondência é mais do que uma regra, é um princípio que precisa ser seguido", disse a especialista.
Já para o presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murilo, a atuação dos jornalistas e dos jornais é inquestionável. "Do meu ponto de vista, não há irregularidade nenhuma, em nenhum dos dois casos. Você é jornalista o tempo todo. Ele [referindo-se a Lewandowski] é uma personalidade pública e era obrigação da jornalista registrar, azar o dele que falou demais. Eu acho que a repórter já estava ouvindo o outro lado", defendeu Murilo.
Vale lembrar que o Manual de Redação da Folha , quando trata de "legalidade/legitimidade" diz que "o jornalista deve se identificar como tal para obter informações, a não ser quando o anonimato seja imprescindível". Quando trata do "Cruzamento de informações e o outro lado", o Manual diz que "as práticas baseiam-se nos conceitos de que todo fato comporta mais de uma versão e de que o julgamento desse fato não compete ao jornalista, mas ao leitor. A este, a ausência, mesmo justificada, de um dos enfoques em uma reportagem sugere desleixo do jornalista e negligência do jornal".
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