A arte do enfrentamento

A arte do enfrentamento

Atualizado em 11/12/2008 às 09:12, por Toninho Spessoto.

Está cada vez mais difícil, nestes tempos de massificação da mídia e de massacre desta sobre a vontade do povo, vermos artistas com a coragem e ousadia de remar contra padrões pré-estabelecidos (e petrões, nas grandes gravadoras, incompetentes). Vez por outra esse esforço hercúleo é recompensado. É o que ocorreu no início da semana, quando os membros da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) escolheram os Melhores de 2008. Na categoria de Música Popular, que tem como jurados os jornalistas Ayrton Mugnaini Jr., José Norberto Flesch e Miriam Ramos, foram escolhidos Zé Renato como Cantor do Ano pelo álbum É Tempo de Amar (da MPB/Universal) e Wanderléa como Disco do Ano por Nova Estação (Lua Music), ambos recém-lançados. Ambos são trabalhos independentes (no caso de Zé Renato, a Universal apenas distribui) e de excelente qualidade.

Reprodução
Capa do CD de Zé Renato

O que esses CDs têm de tão extraordinários e/ou inovadores? Justamente a ousadia. No ano em que se comemoram - à exaustão, por culpa dos excessos da mídia - o cinqüentenário da Bossa Nova e o centenário de Cartola, Zé Renato , um dos melhores cantores da história da Música Brasileira, vem com um disco dedicado à Jovem Guarda. Com arranjos sutis e delicados como sua voz, o cantor, que é também integrante do Boca Livre, recria de modo inusitado clássicos e lados B do movimento engendrado a partir do célebre programa da TV Record, levado ao ar entre 1965 e 1968 e apresentado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa. Um dos grandes méritos de Zé Renato , além da ousadia do projeto em si, foi não ter se restringido às deliciosas obviedades, partindo também para outras canções igualmente fantásticas, mas pouco trabalhadas. Entre os temas, Coração de Papel (que lançou Sérgio Reis), Eu Não Sabia Que Você Existia (clássico com Leno & Lílian), Nossa Canção (que Luiz Ayrão fez para Roberto Carlos antes de estourar como sambista), Com Muito Amor e Carinho (também do repertório do Rei), Quero Ter Você Perto de Mim (gravada originalmente por Roberto Carlos) e Nossa Canção (que lançou o saudoso Paulo Sérgio, à época acusado de imitar o Rei). As interpretações delicadas do artista só fazem valorizar o projeto. É Tempo de Amar tem produção de Dé Palmeira.

Reprodução
CD de Wanderléia


A ousadia de Wanderléa tem origem justamente na Jovem Guarda. Não há nada daquele tempo em Nova Estação . Ela optou por gravar canções brasileiras de várias épocas e criações de Roberto e Erasmo não-jovemguardistas. Com a voz em excepcional forma, a Ternurinha flerta novamente com a MPB, a exemplo do que fizera em 1978 ao gravar um disco produzido por Egberto Gismonti. Wanderléa interpreta, entre outros clássicos, Nova Estação (de Luiz Guedes e Thomas Roth, tornada clássica por Elis Regina em seu último disco de estúdio, de 1980), Dia Branco (Geraldo Azevedo), Mil Perdões (que Chico Buarque fez para o filme Perdoa-me Por Te Traíres), Salve Linda Canção Sem Esperança (Luiz Melodia), Se Tudo Pode Acontecer (de Arnaldo Antunes, gravada antes pelo autor e por uma jovem revelação de Brasília, a ótima Lua) e um pot pourri dedicado a Johnny Alf com Eu e a Brisa e O Que é Amar . De Roberto e Erasmo, o quase desconhecido Samba da Preguiça (gravado pelo Trio Mocotó em 1973) e Todos Estão Surdos (hit com o Rei EM 1971, na fase soul/religiosa). O CD foi produzido por Lalo Califórnia e Thiago Marques Luiz.


E ainda há artistas veteranos - e infelizmente até novatos - que combatem ousadia e coragem. O resultado está aí. Mirem-se no exemplo de Zé Renato e Wanderléa . Menos choro e mais ação!